42ª Mostra - Crítica: Rosas Selvagens | Cinematecando

Posted On 13/10/2018 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

42ª Mostra – Crítica: Rosas Selvagens

Eva bem longe do Jardim do Éden

Rosas Selvagens critica

Ninguém faz um filme totalmente centrado numa personagem e a batiza de Eva por acaso. A protagonista de Rosas Selvagens tem o nome da primeira mulher criada por Deus e representa muito das angústia da condição feminina. A diretora e roteirista polonesa Anna Jadowska parte de uma história contada numa parte remota de seu país para propor uma discussão pungente sobre isso, questionando dinâmicas familiares e o papel da religião.

A Eva vivida pela atriz Marta Nieradkiewicz começa o filme deixando um hospital. O motivo de sua internação só será revelado por completo na última cena, e até lá ela enfrentará uma dura caminhada: precisa cuidar dos filhos ainda crianças, lidar com o marido boa parte do tempo ausente e se esquivar dos olhares de julgamento que lhe cercam na pequena comunidade onde mora.

Só falta a letra A bordada em seu peito para Eva lembrar mais a Hester Prynne do romance A Letra Escarlate. Carregando a culpa por ter tido um caso com um jovem local, ela é uma presença sempre pesada em cena, alguém sem motivos para sorrir. O sol que brilha durante a maior parte do tempo nos cenários de Rosas Selvagens não traz felicidade, mas uma certa aridez ao local, cansando ainda mais a heroína, que vive da colheita de pétalas de rosa.

Em casa, há muito pouco alívio. A filha mais velha, Marysia (Natalia Bartnik), se prepara para fazer primeira comunhão, um tanto quanto à contragosto, enquanto o marido (Michal Zurawski) prefere passar a noite com os amigos jogando videogame do que estar com a esposa. Isso não o impede de pedir sexo na madrugada, por exemplo.

A cineasta deixa claro como os homens com que Ewa se relaciona a vêem como pouca coisa além de um “pedaço de carne”. Suas aproximações são invasivas e agressivas, sem levar em conta a ausência de desejo por parte da personagem feminina.

No momento mais tenso do filme, a autora ameaça dar um rumo cruel à trajetória de sua protagonista. Mas Jadowska sabe qual tipo de história quer contar, e surpreende com uma conclusão que empodera Eva, que não se deixará ser punida pelos supostos pecados, mas seguirá em frente de cabeça erguida. Para alguns, será uma provocação. Para ela, uma questão de sobrevivência.

Eva bem longe do Jardim do Éden Ninguém faz um filme totalmente centrado numa personagem e a batiza de Eva por acaso. A protagonista de Rosas Selvagens tem o nome da primeira mulher criada por Deus e representa muito das angústia da condição feminina. A diretora e roteirista polonesa Anna Jadowska parte de uma história contada numa parte remota de seu país para propor uma discussão pungente sobre isso, questionando dinâmicas familiares e o papel da religião. A Eva vivida pela atriz Marta Nieradkiewicz começa o filme deixando um hospital. O motivo de sua internação só será revelado por completo na última cena, e até lá ela enfrentará uma dura caminhada: precisa cuidar dos filhos ainda crianças, lidar com o marido boa parte do tempo ausente e se esquivar dos olhares de julgamento que lhe cercam na pequena comunidade onde mora. Só falta a letra A bordada em seu peito para Eva lembrar mais a Hester Prynne do romance A Letra Escarlate. Carregando a culpa por ter tido um caso com um jovem local, ela é uma presença sempre pesada em cena, alguém sem motivos para sorrir. O sol que brilha durante a maior parte do tempo nos cenários de Rosas Selvagens não traz felicidade, mas uma certa aridez ao local, cansando ainda mais a heroína, que vive da colheita de pétalas de rosa. Em casa, há muito pouco alívio. A filha mais velha, Marysia (Natalia Bartnik), se prepara para fazer primeira comunhão, um tanto quanto à contragosto, enquanto o marido (Michal Zurawski) prefere passar a noite com os amigos jogando videogame do que estar com a esposa. Isso não o impede de pedir sexo na madrugada, por exemplo. A cineasta deixa claro como os homens com que Ewa se relaciona a vêem como pouca coisa além de um “pedaço de carne”. Suas aproximações são invasivas e agressivas, sem levar em conta a ausência de desejo por parte da personagem feminina. No momento mais tenso do filme, a autora ameaça dar um rumo cruel à trajetória de sua protagonista. Mas Jadowska sabe qual tipo de história quer contar, e surpreende com uma conclusão que empodera Eva, que não se deixará ser punida pelos supostos pecados, mas seguirá em frente de cabeça erguida. Para alguns, será uma provocação. Para ela, uma questão de sobrevivência.

Rosas Selvagens

Cotação

Bom

Longa mostra diversos tipos de repressão que pesam sob a protagonista, mas reserva final com mensagem de empoderamento

71

Crítico de cinema, roteirista e diretor. Pós-graduado em Jornalismo Cultural. Além do Cinematecando, é colunista do Yahoo! Brasil