Posted On julho 26, 2017 By In Artigos, Filmes

8 vezes em que Gangues de Nova York se inspirou em Glauber Rocha

Por Beatriz Ribeiro

Esse artigo compara o filme Gangues de Nova York com O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, e contém possíveis spoilers de cada uma das obras

Muitos cinéfilos já estão cansados de saber que o famoso diretor Martin Scorsese, dono de muitos clássicos do cinema como Taxi Driver, Touro Indomável, O Lobo de All Street e muitos outros, é fã assumido de ninguém mais, ninguém menos, que Glauber Rocha. Sim, o famoso diretor brasileiro.

Glauber Rocha ficou mundialmente conhecido por ser um dos pioneiros do movimento Cinema Novo, forma de narrativa cinematográfica que foi criada no Brasil em meados da década de 1950 e que hoje está espalhada pelos livros de arte e cinema do mundo inteiro. Isso mesmo, pessoal, para quem não sabia disso e julga os filmes nacionais, saiba que o cinema brasileiro é internacionalmente respeitado por bons cinéfilos – como no caso de Martin Scorsese!

Scorsese teve contato pela primeira vez com o movimento do Cinema Novo na década de 1970, quando era estudante de cinema e foi assistir a uma sessão de filmes estrangeiros no MOMA (Museu de Arte Moderna de Nova York). Lá, ele acompanhou o filme Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, e ficou encantado com tamanha criatividade e audácia desse estilo que veio para quebrar padrões hollywoodianos.

Mas foi alguns anos depois que Scorsese se encantou ao assistir o clássico brasileiro O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (Antonio das Mortes no exterior). “É quase como se fosse alguma coisa vinda dos tempos primitivos do Mal, quando as pessoas no filme pareciam que podiam possuir a Terra, como uma mitologia primitiva que foi criada ali na tela”, disse sobre o longa em entrevista à Folha em 2006. Martin ainda revela que as obras de Glauber o inspiraram em muitos de seus filmes, como Vivendo no Limite (1990), Touro Indomável (1980), que teve trilha sonora brasileira e também Gangues de Nova York (2002), filme que iremos falar nesse artigo.

Vivendo no Limite:

Trilha sonora usada em Touro Indomável:

Gangues de Nova York:

Gangues de Nova York não é um dos filmes mais aclamados pela crítica de Scorsese. Porém, ele nos traz uma ambientação selvagem, verdadeira e particularmente primitiva, lembrando muito o estilo do Cinema Novo e suas vertentes. É por isso que nós do Cinematecando vamos apontar 8 vezes em que GDNY se inspirou e nos lembrou do clássico brasileiro O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968).

Interesses políticos

Delegado Mattos (Hugo Carvana), em Dragão da Maldade, quer que Jardim das Piranhas seja um novo centro industrial do nordeste. Para isso, pede a ajuda de Antônio das Mortes (Maurício do Valle) para lutar contra a violência gerada por um grupo de cangaceiros na cidade. Já William M. Tweed (Jim Broadbent), em Gangues, pede ajuda a Bill Açougueiro (Daniel Day-Lewis) para manter a ordem em Cinco Pontas (encontro de cinco ruas de NY), promovendo milícias e descartando a polícia, já que precisa de eleitores para sua nova campanha.

Mocinhas bandidas

Dona Santa (Rosa Maria Penna), assim como Jenny Everdeane (Cameron Diaz), não seguem os estereótipos das mocinhas clichês. Ambas são consideradas “bandidas” nos dois filmes. Dona Santa é quase uma Maria Bonita. Andando com os cangaceiros, ela promove a violência justa e é parceira do cangaceiro Coirana. Já Jenny, uma batedora de carteiras profissional, é a preferidinha de Bill Açougueiro e sempre que pode rouba casas de famílias ricas.

Dona Santa:

Jenny Everdeane:

Os justiceiros assassinos

Antônio das Mortes e Monk (Brendan Gleeson) carregam um passado sangrento e uma lista de mortes que cometeram por “justiça”.

Músicas regionais

Scorsese tem uma paixão pela trilha sonora de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. “O que me chama atenção é a força narrativa da música, que conta a história”, disse em entrevista à Folha. O diretor chegou a comprar cópias da trilha sonora do filme de Glauber Rocha para seu acervo cinematográfico pessoal. Assim como no filme brasileiro, Gangues de Nova York teve uma trilha sonora regional celta nos momentos de batalha. Há uma grande semelhança nos planos e musicalidades nas duas cenas de pré-batalha.

 

Letras narrativas

Os dois filmes têm trilhas sonoras regionais que narram a história de certas partes do filme. Glauber usou o repente, estilo musical típico do nordeste. Já Scorsese foi para um lado mais irlandês.

 

Voz Off

Para quem não sabe, a Voz Off é quando um personagem ou locutor desconhecido narra a história em terceira pessoa. Amsterdam Vallon (Leonardo DiCaprio) é o grande narrador do filme americano e passa grande parte da história nos contando os acontecimentos. No brasileiro, em alguns momentos temos a narração de Professor (Othon Bastos).

Mortes com facadas na barriga

Antônio das Mortes odiava cangaceiros assim como Bill Açougueiro odiava estrangeiros em seu país. Ambos mataram seus inimigos com um golpe de facada na sua barriga. Além disso, tanto Bill como Antônio admiravam seus rivais por seres homens honrados.

Semelhanças de cenas

Embora a diferença de gastos entre um filme hollywoodiano para um brasileiro seja discrepante, em muitas cenas de Gangues de Nova York é perceptível ver semelhanças e inspirações que vieram de O Dragão da Maldade – como por exemplo, as cenas de lutas. Assim como Glauber, Scorsese quis explorar o lado primitivo do homem, maligno e dono de si, com andar e lutas performáticas que só a verdade das ruas pode dizer. O diretor americano revelou que, antes de gravar GDNY, mostrou para o elenco a cena em que Antonio das Mortes mata o cangaceiro Coirana.

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