Posted On maio 19, 2017 By In Artigos

Arte e ser humano: uma conexão

Irei direto ao ponto sobre o motivo para este texto!

Ontem, logo pela manhã, acordei e comecei com este hábito típico web 2.0 de checar como anda o mundo, além do meu próprio. Dei de frente com algumas fotos do músico Chris Cornell e, na descrição, três letras: RIP (Rest in Peace, na tradução Descanse em Paz).

Pouco mais de uma hora após cumprir aqueles protocolos e fazer aquelas tarefinhas básicas que todos fazemos: levar dog para passear, louça, etc… Mandei uma mensagem para a Barbara, editora-chefe do site, que também é minha prima, e ela logo imaginou que o assunto seria a morte de Chris Cornell. Ela estava chateada e aparentemente bem mais inconformada que eu. Perguntei se poderia escrever um texto sobre o acontecido. Sei que o Cinematecando é um site focado em cinema, séries, teatro e games, e que música não é um dos temas principais aqui, apesar da relevância na vida das pessoas, mas disse a ela que iria, dentro do texto, falar de cinema e qualquer forma de expressão que valesse a quem for, como que as conectando. Ela deu luz verde. E é isto que estou fazendo neste momento: escrevendo a quem quiser ler.

Não estranhem o texto estar informal, pois nem consigo imaginá-lo tanto como um artigo. Ele é mais como um testemunho informativo. Pode chamar de ‘artimunho’, se quiser.

Se procurar no dicionário (coisa velha, não?!) ou perguntar ao Google o significado de ‘arte’ e ‘humanidade’, a primeira terá mais de vinte definições; a segunda terá cinco ou seis. Minha interpretação disso sempre foi que a primeira é o combustível para a locomoção da segunda. O fato de a primeira ter maior quantidade numérica de definições é devido a segunda, que sempre tem desejo e apetite por mais, e é isso o que a primeira, a arte, faz pela segunda: nós, humanos.

Vou entrar no motivo deste texto. É bem pessoal, ok?!

Hoje, no alto dos 29 anos, não irei pagar de ‘true fan’ do Chris Cornell que sabia de “tudo” da vida dele. Acompanhava sempre, via todos os vídeos do YouTube com shows ou entrevistas dele, e assim por diante. Na real, o máximo que fazia era acompanhar as músicas e álbuns das bandas que ele fazia parte, e até comi bola em alguns dos trabalhos solo dele até hoje. Até admito que nenhuma de suas três bandas mais conhecidas (Soundgarden, Audioslave ou Temple of the Dog) estão entre as bandas de rock/hardcore/metal que mais ouvia quando adolescente. Mesmo assim, não duvide, teve um impacto. Quando paro para pensar e sentir, vejo como foi essencial. Explico!

Voltando no tempo, este jovem que vos escreve, não tinha/tem muita facilidade com o mundo a volta dele. Por sorte ou destino, chame como quiser, dentro de um quarto, muita coisa começou a mudar. Tenho um tio que é poucos anos mais velho que eu. O quarto dele era um paraíso com videogame, gibizinhos, revistas de mulher pelada (era assim que se falava!), porcarias para comer tipo salgadinhos e doces variados, e é claro, música.

Não irei adentrar a lista extensa de coisas que ele me orientava a ouvir, mas posso dizer que basicamente era rock/metal e seus subgêneros, e também muito hip-hop. Fato: ali, por volta de meus 10 anos começaria a surgir algo que pode ser considerado como um primórdio de identidade (obs.: assistam Moonlight: Sob a Luz do Luar, filme com este tema). Na época, e mesmo hoje, as músicas daquele quarto ressoam com a mesma potência, mas assim como a vida, também mudei muito desde os 10 aninhos. Todavia, sinto que meu início em muito se deu ali, naquele quarto bagunçado com garrafas de Coca-Cola e Gatorade e cheiro de puberdade e Ruffles churrasco.

Óbvio, Chris Cornell e o poderoso Soundgarden fizeram parte desta trilha sonora juvenil. Meu tio Fred sempre perguntava: ‘Você conhece (nome da banda)?’ – e na maioria das vezes, respondia ‘não’ e ia direto para o ‘discplayer’ para saber do que se tratava aquela banda. O mais interessante é que, algumas vezes, depois de algumas ouvidas, rejeitava algumas destas escolhas do meu tio Fred, tipo Green Day, Capital Inicial, Legião Urbana, Lenny Kravitz, e até Marilyn Manson que mais a frente aprendi a gostar (na época, achava ele apenas uma ‘mina muito estranha’, claramente idiotice minha).

Um dia, ele perguntou: ‘Você sabe o que é grunge?’. Lembro de ter dito algo a respeito do Nirvana, mas sem realmente saber direito do que se tratava. Ele me explicou, aí levamos as aulas novamente ao ‘discplayer’. Além da banda de Kurt Cobain, meu tio Fred me apresentou Pearl Jam, Alice in Chains (que é das minhas maiores influências e paixões na música), Mudhoney, Stone Temple Pilots (que curtia pouco) e… Soundgarden.

Já com 12 anos, era um moleque meio metido a sabichão ‘rockista’ revoltadinho! Admito, era divertido ser ‘rockeirinho’.

A paixão pelo tal do grunge deu uma aumentada ainda mais quando também me foi apresentado o filme Vida de Solteiro (no original, Singles) do diretor Cameron Crowe, com Campbell Scott, Kyra Sedgwick, Matt Dillon e a belíssima Bridget Fonda (tive paixonite por ela!). Uma comédia romântica que retrata a vida de jovens solteiros na cidade de Seattle, berço da cena grunge, no início dos anos 90.

Os personagens, as histórias, o visual dos jovens naquela época, e a música (óbvio)… Tudo isso junto me cobria e me encantava (obs.: já me disseram algumas vezes que me visto como se fosse 1997).

Mais do que o som. Quando você começava a entender o que eram aquelas letras, quando você começava a perceber o que se passava dentro, seja mental ou emocional, de caras como Kurt Cobain, Eddie Vedder, Layne Staley, Scott Weiland, e Chris Cornell, compreendendo aquilo tudo, é como se fosse uma avalanche para cima de você. Te arrebata por completo e, de repente, você percebe. Não é o único que tem dificuldade de entender a si mesmo. É reconfortante.

Engraçado que, assim como na música, sempre acreditei (obs.: isto é uma teoria minha, não precisa morder a isca) que grandes atuações dramáticas seja para cinema, TV ou teatro tinham que ter a mesma, ou similar disposição a destes vocalistas citados. Que é a sensação de que para você conseguir algo, você deve estar apto a deixar algo para trás. Dispor-se a perder algo, algum elemento, seja o que for: medo, crenças, pensamentos, certezas, julgamentos, paradigmas. Desde que comecei a sentir cinema de uma forma mais inebriante, sempre acreditei nisso.

Dizem que muitos atores/atrizes fazem uma pesquisa aprofundada de suas personagens para entendê-las melhor, racionalmente e emocionalmente. Concordo, mas adiciono mais um ponto. Acredito que a maior função destas pesquisas, é para o ator/atriz conseguir se desprender de si mesmo. E esse não é um processo fácil, mesmo para nós, não treinados nas artes cênicas. Descolar-se da vida e pessoas que nos embrulham não é para qualquer um, e muitas das vezes, é o que mais precisamos para respirar diferente, por si próprio.

Hoje (19), Chris Cornell e sua banda Soundgarden tinham marcado um show no maior festival de rock/metal da América, chamado Rock on the Range, aonde seriam a atração principal do primeiro dia. Certamente, com a morte, incluindo as circunstâncias desta (suicídio), haverá grande comoção entre os artistas e os fãs. Não será fácil, mas a classe que curte e ama esse gênero de música é furiosamente apaixonada e muito unida. Isso deve e será suficiente para aguentar a noite de shows, e continuar seguindo em frente.

Nunca, nem por um segundo, me passou pela cabeça julgar ou condenar Chris Cornell por fazer o que resolveu fazer ontem, após um show em Detroit. Não mesmo. Nessas horas, seria melhor que houvesse alguém por perto. Esta pessoa poderia se sentar em frente a ele e simplesmente conversar. Chamar sua atenção ou interesse em (ou para) qualquer coisa.

Lembro-me de uma conversa que tive há alguns anos com um grande amigo. Estávamos em uma festa e eu estava (como costumo ficar às vezes) meio quieto, mais na minha. Esse amigo olhou para mim e disse: ‘Sabe qual é o seu problema, cara? Você pensa muito, e não faz ou aproveita nada!’. Você pode pensar que ele foi duro demais comigo. Não foi. À maneira dele, o que fez foi o mesmo que todas aquelas bandas faziam comigo. Buscavam me desligar um pouco do que tinha em mim, para alcançar uma face minha que pouco via. A face de alguém que pode respirar diferente do que fazia, e sentir que de alguma maneira, iria ficar bem.

Então, para você, que graciosamente se dispôs a ler este textão: use quaisquer meios, seja artes plásticas, música, cinema, artesanato, pintura, bordado, o que funcionar (obs.: lembrei do engraçadíssimo filme Tudo Pode Dar Certo, do Woody Allen)… Use isto para conectar-se com as várias faces de si e desenvolver interesses. Pois qualquer uma destas coisas vão te ajudar a encontrar a melhor parte disso tudo: a possibilidade de transferência para com o outro.

É o melhor que podemos fazer!

E, certamente, foi algo que Chris Cornell conseguiu fazer por 52 anos. Somos gratos, mesmo ofuscados.

‘I got up feeling so down
I got off being sold out
I’ve kept the movie rolling
But the story’s getting old now
I just looked in the mirror
Things aren’t looking so good
I’m looking California
And feeling Minnesota
So now you know, who gets mystified
Show me the power child
I’d like to say
That I’m down on my knees today
It gives me the butterflies
Gives me away
Till I’m up on my feet again
I’m feeling outshined’

R.I.P. Chris Cornell

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Colunista do Cinematecando | Roteirista, 28 anos, aficionado por cinema e tudo que o envolve. Formado em Gastronomia pela Universidade Anhembi Morumbi em 2008, exerci a profissão mas mantive aquele affair com a telona, que nunca me abandonou. Desde a adolescência sempre gostei de escrever, mas nunca tive o ímpeto de acreditar que viraria alguma coisa além de um hobby, mas virou. Uma vez que se assiste um filme de Clint Eastwood, não se pode voltar para trás. Pelo menos, foi isso o que aconteceu comigo.