Crítica: Dupla Explosiva

Crítica: Dupla Explosiva

“Tic-tac, motherfucker!”

Duas palavras! São necessárias apenas duas palavras para saber o que serão as quase duas horas de Dupla Explosiva. Este filme, que liderou as bilheterias nos Estados Unidos nos dois últimos finais de semana, tem objetivos bem claros: entreter e provocar riso ao espectador. Sem brilhantismo e apoiado sob um enredo tão genérico quanto a tradução brasileira do filme, estranhamente, Dupla Explosiva alça um nível satisfatório e consegue isso por dois fatores: Ryan Reynolds e Samuel L. Jackson.

Esse duo é o centro de um filme que conta a história de um ‘guarda-costas de luxo’ chamado Michael Bryce, interpretado por Ryan Reynolds, que vê sua carreira ir a baixo após a morte de um de seus importantes clientes. Porém sua “sorte” está prestes a mudar com a aparição de um novo serviço e cliente. O matador de aluguel e seu maior arqui-inimigo Darius Kincaid (Samuel L. Jackson) é convocado a depor na Corte Internacional de Justiça contra um ex-ditador (Gary Oldman) da antiga União Soviética, hoje Bielorrússia. Agora juntos, terão que tratar suas diferenças se quiserem chegar a tempo ao julgamento.

Apenas pela sinopse, nota-se que esta comédia com ação não almeja grandes voos, com um roteiro com aqueles velhos clichês hollywoodianos (como ter um ditador russo psicopata, por exemplo). Mas suas tímidas virtudes ainda são encontradas em forma de tiradas cômicas mais do que em forma de corpo dramático.

Considerando isto, até surpreende a direção minimamente competente de Patrick Hughes (Os Mercenários 3). Firme, mesmo em um enredo limitado no campo criativo. Patrick Hughes faz melhor nos momentos “íntimos” de sua dupla de protagonistas do que na hora da ação, mas no contexto geral, levando em consideração que é uma produção de orçamento médio ($30 milhões de dólares), ele consegue fazer o simples cirurgicamente, que é entreter o espectador.

Novamente, Hollywood tem apostado algumas fichas (e acertando) em produções que têm aquela alma dos bons filmes, do tipo ‘buddy cop’ (parceiros policiais) que foram sucesso a partir da década de setenta, e que na década seguinte até fizeram de Máquina Mortífera uma franquia muito rentável. Recentemente, Dois Caras Legais, com Russell Crowe e Ryan Gosling, e dirigido pelo criador das personagens da série Máquina Mortífera, Shane Black, conquistou sucesso com a crítica (e é um filme realmente muito bom!). Agora, Dupla Explosiva também trilha o mesmo caminho, mas com maior retorno financeiro que o filme de Shane Black.

Fazer um bom ‘buddy cop’ depende muito da escolha e da química dos protagonistas, e é este o maior trunfo de Dupla Explosiva.

Primeiro: Ryan Reynolds.

O galã canadense teve sua cota de críticos (injustamente!) por um período de tempo. Muito disso por, assim como vários atores/atrizes jovens, suas comédias românticas “bobas”. Muitos achavam difícil levá-lo a sério em filmes mais dramáticos ou com maior ação. Uma tolice. Reynolds já mostrava nestes filmes as mesmas características que hoje – veja só – são vistas como qualidades. Charme juvenil e bom ‘timing’ cômico com facilidade para a ironia. Essas características, mas elevadas a décima potência aliadas a um bom roteiro de humor negro, acabaram sendo os ingredientes primordiais para o maior sucesso de sua carreira: Deadpool.

Deadpool fez quase quatorze vezes (!) seu orçamento de bilheteria. A partir disso, Reynolds ganhou ‘carta branca’ para se arriscar mais. Dupla Explosiva é um filme menor (e menos engraçado) que Deadpool, mas continua ajudando a cimentar a carreira de Ryan Reynolds, principalmente como um bom ator cômico.

Segundo: Samuel L. Jackson.

O quase septuagenário ator Samuel L. Jackson tem uma carreira com aparições em mais de cem filmes, e não parece estar perto de querer parar. Que sorte!

Ainda é possível se surpreender com Samuel L. Jackson, em Django Livre, por exemplo. Sua atuação como o criado Stephen conseguia assombrar o espectador ao mesmo tempo que também fazia rir de seus maneirismos canastrões. Em Dupla Explosiva temos a boa e velha caricatura do ‘canalha badass motherfucker’ que já conhecemos de tempo deste ator. Esse tipo característico que tantos outros querem imitar (principalmente tentando dizer a palavra ‘motherfucker’ similarmente), já existia, mas foi elevado ao status cult após um ‘banho de loja tarantinesco’ com Pulp Fiction: Tempo de Violência e também Jackie Brown, ambos nos anos 90. Hoje, Samuel L. Jackson é uma instituição cinematográfica. Se tiver qualquer dúvida da capacidade deste ator, basta assistir Serpentes a Bordo, e perceberá que só Samuel L. Jackson consegue dizer: ‘I’ve had it with these motherfucking snakes on this motherfucking plane!’.

Assim, esses dois atores são mais do que um bom motivo para ir assistir Dupla Explosiva, em cartaz nos cinemas. Mas saibam que filmes deste tipo costumam sair rapidamente do circuito… então, como diria Samuel L. Jackson: ‘Tic-tac, motherfucker!’.

FICHA TÉCNICA
Título Original: The Hitman’s Bodyguard
Direção: Patrick Hughes
Produção: Millennium Films; Cristal Pictures; Lionsgate Films
Roteiro: Tom O’Connor
Gênero: Ação/Comédia
Duração: 118 minutos
Elenco: Ryan Reynolds (Michael Bryce); Samuel L. Jackson (Darius Kincaid); Gary Oldman (Vladislav Dukhovich); Élodie Yung (Amelia Roussel); Salma Hayek (Sonia Kincaid); Yuri Kolokolnikov (Ivan); Joaquim de Almeida (Jean Foucher); Kirsty Mitchell (Rebecca Harr); Richard E. Grant (Seifert).

Alexis Thunderduck