Crítica: Em Pedaços

Posted On 02/02/2018 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: Em Pedaços

Entre o reflexo e a dignidade, maior é o espelho

A imprensa internacional tem divulgado Em Pedaços, novo filme do diretor alemão Fatih Akin (da boa comédia Soul Kitchen) como um filme de vingança. Justo, mas muito diluído. O filme narra a jornada de Katja Sekerci (Diane Kruger), que vê sua vida entrar em um descenso chocante após a morte de seu marido Nuri Sekerci (Numan Acar), um ex-traficante de drogas, e de seu filho Rocco, vítimas de uma explosão criminosa.

Akin é visto como um diretor político e provocador, vide seu episódio usando uma camiseta com uma suástica nazista no lugar da letra ‘s’ na palavra ‘BUSH’. A época, Akin enfatizou que a política de Bush, ex-presidente americano, era comparável ao do Terceiro Reich, e estava convencido que a administração Bush queria uma terceira Guerra Mundial, chamando-os de fascistas. Se Fatih Akin pensava isso de Bush, o que será que ele pensa de Trump e seus botões que são maiores que os botões de todos os outros?

Seja como for, o fato é que o cinema de Fatih Akin é capaz de incomodar alguns, e talvez isso também aconteça a quem assistir Em Pedaços. Mas se o diretor alemão (tão acostumado a provocar) também teve tal intenção aqui, falhou, pois seu atual filme consegue apenas ser um reflexo de um mundo que já conhecemos e nos deparamos de frente a todo o tempo (principalmente através das redes sociais e todos os pensamentos sem credenciais). Assim como Em Pedaços, no mundo atual, dor, raiva e ressentimento são sempre escalados para entrar em campo; e geralmente quando isso acontece, a retaliação de talião permeia.

O primeiro ato do filme é o mais difícil (e de ritmo muito irregular), pois é doloroso acompanhar o pesar e sofrimento da protagonista, principalmente nos momentos sem trilha ao fundo, deixando tudo mais seco, cru e incômodo. Definitivamente, os mais sensíveis podem se sentir asfixiados em algumas cenas. No segundo ato, de maior dinâmica, acompanhamos o julgamento do casal de neo-nazistas suspeitos da morte de Nuri e Rocco. Aqui encontra-se o melhor momento do roteiro, que dispõe fluência ao longo dos dias do julgamento, associado aos melhores diálogos no filme. Por fim, no terceiro (e superior) ato temos a sensação de um thriller: vibrante e dramaticamente potencializado. O problema do desfecho não tem relação com conteúdo ou a forma de pensar do diretor. E esse é um dos problemas que a crítica atual enfrenta: conseguir separar subjetividade da objetividade.

Como dito antes, o diretor Fatih Akin opta por revelar mais o reflexo de um mundo do que elevá-lo a dignidade, mas o problema foi a maneira que usou para chegarmos a este desfecho. Akin escreve um final enganoso; pelo ponto de vista do espectador, ele faz sua protagonista (perto do fim) ir por um caminho, mudar de ideia, e depois retornar. Há uma justificativa no roteiro para isso, e é das mais belas, e ele faz isso indicando a volta da fluência do ciclo vital pelo feminino. Mesmo assim, ainda é um truque tolo, como um ‘plot-twist’ ineficaz.

Sorte de Fatih Akin, que, além de um elenco talentoso, tem em sua protagonista, interpretada por Diane Kruger (que levou o prêmio de melhor atriz do Festival de Cannes por esse papel), toda a vibração e tenência necessárias. Kruger carrega todo o peso da dor da personagem, e também todo o fio narrativo do filme. A cena no tribunal, onde sua personagem escuta uma mulher ler o relatório das causas da morte de Rocco, seu filho de apenas 5 anos, é dilacerante.

Então, sim: pode-se dizer que Em Pedaços é sobre vingança, mas principalmente sobre luto e seus estágios, e como lidamos – ou não – com as situações da vida pós-trauma. Com a ajuda de Diane Kruger, o diretor apresenta essas fases do luto e mostra que, mesmo nos breves momentos de esperança, esconde-se um colosso de sofrimento irreparável.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Aus dem Nichts (em inglês, In the Fade)
Direção: Fatih Akin
Roteiro: Fatih Akin
Produção: Ann-Kristin Homann, Nurhan Şekerci-Porst, Fatih Akin, Herman Weigel, Mélita Toscan du Plantier, Marie-Jeanne Pascal
Fotografia: Rainer Klausmann
Edição: Andrew Bird
Música: Josh Homme
Gênero: Drama
País: Alemanha
Ano: 2017
Duração: 106 Minutos
Classificação: 16 anos
Elenco: Diane Kruger (Katja Sekerci), Numan Acar (Nuri Sekerci), Ulrich Tukur (Jürgen Möller), Denis Moschitto (Danilo Fava), Johannes Krisch (Haberbeck)

Estreia em 08 de fevereiro.

Entre o reflexo e a dignidade, maior é o espelho A imprensa internacional tem divulgado Em Pedaços, novo filme do diretor alemão Fatih Akin (da boa comédia Soul Kitchen) como um filme de vingança. Justo, mas muito diluído. O filme narra a jornada de Katja Sekerci (Diane Kruger), que vê sua vida entrar em um descenso chocante após a morte de seu marido Nuri Sekerci (Numan Acar), um ex-traficante de drogas, e de seu filho Rocco, vítimas de uma explosão criminosa. Akin é visto como um diretor político e provocador, vide seu episódio usando uma camiseta com uma suástica nazista no lugar da letra ‘s’ na palavra ‘BUSH’. A época, Akin enfatizou que a política de Bush, ex-presidente americano, era comparável ao do Terceiro Reich, e estava convencido que a administração Bush queria uma terceira Guerra Mundial, chamando-os de fascistas. Se Fatih Akin pensava isso de Bush, o que será que ele pensa de Trump e seus botões que são maiores que os botões de todos os outros? Seja como for, o fato é que o cinema de Fatih Akin é capaz de incomodar alguns, e talvez isso também aconteça a quem assistir Em Pedaços. Mas se o diretor alemão (tão acostumado a provocar) também teve tal intenção aqui, falhou, pois seu atual filme consegue apenas ser um reflexo de um mundo que já conhecemos e nos deparamos de frente a todo o tempo (principalmente através das redes sociais e todos os pensamentos sem credenciais). Assim como Em Pedaços, no mundo atual, dor, raiva e ressentimento são sempre escalados para entrar em campo; e geralmente quando isso acontece, a retaliação de talião permeia. O primeiro ato do filme é o mais difícil (e de ritmo muito irregular), pois é doloroso acompanhar o pesar e sofrimento da protagonista, principalmente nos momentos sem trilha ao fundo, deixando tudo mais seco, cru e incômodo. Definitivamente, os mais sensíveis podem se sentir asfixiados em algumas cenas. No segundo ato, de maior dinâmica, acompanhamos o julgamento do casal de neo-nazistas suspeitos da morte de Nuri e Rocco. Aqui encontra-se o melhor momento do roteiro, que dispõe fluência ao longo dos dias do julgamento, associado aos melhores diálogos no filme. Por fim, no terceiro (e superior) ato temos a sensação de um thriller: vibrante e dramaticamente potencializado. O problema do desfecho não tem relação com conteúdo ou a forma de pensar do diretor. E esse é um dos problemas que a crítica atual enfrenta: conseguir separar subjetividade da objetividade. Como dito antes, o diretor Fatih Akin opta por revelar mais o reflexo de um mundo do que elevá-lo a dignidade, mas o problema foi a maneira que usou para chegarmos a este desfecho. Akin escreve um final enganoso; pelo ponto de vista do espectador, ele faz sua protagonista (perto do fim) ir por um caminho, mudar de ideia, e depois retornar. Há uma justificativa no roteiro para isso, e é das mais belas, e ele faz isso indicando a volta da fluência do ciclo vital pelo feminino. Mesmo…

Em Pedaços

Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia

Bom

60

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