Crítica: Eu, Tonya

Posted On 01/02/2018 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: Eu, Tonya

Filme de Craig Gillespie apresenta retrato satírico e doloroso sobre Tonya Harding

Nesta temporada de premiações, um dos maiores destaques em termos de atuação vai para Margot Robbie, que enfrentou o desafio de viver uma personalidade que fez história ao executar o salto triple axel em competições no gelo – mas não só por isso. Ao encarnar Tonya Harding, ex-patinadora que viu sua carreira e vida pessoal virarem de cabeça para baixo após um dos maiores escândalos no esporte dos EUA, Robbie domina a personagem e eleva sua carreira a outro patamar. Na direção contrária de ser apenas mais uma produção “caça-Oscar”, Eu, Tonya acerta ao escolher contar uma história delicada do modo mais adequado: longe do convencional.

Alvo das manchetes nos Estados Unidos em meados dos anos 90, Tonya pode ser um nome totalmente desconhecido para alguns brasileiros. Dona de personalidade e potencial marcantes, a americana cresceu treinando no gelo e passou a ganhar destaque ao disputar as Olimpíadas, mas nem mesmo seu bom desempenho e força de vontade foram capazes de impedir com que sua carreira acabasse prematuramente. A atleta participou de um grande escândalo envolvendo outra patinadora, Nancy Kerrigan, que foi atacada e teve seu joelho quebrado antes das Olimpíadas de Inverno de 1994. A partir daí, Tonya, Jeff Gillooly (seu marido) e Shawn (seu ‘segurança’) foram condenados pelo caso – por mais que a participação da patinadora não seja 100% clara até aqui.

Deixando um pouco de lado a questão que todos se perguntam (afinal, ela sabia qual era o plano do marido?), o filme trabalha questões tão importantes quanto o famoso caso. Adentrando a vida de Tonya (desde a infância com os abusos da mãe até a juventude e os abusos do marido), temos uma estrutura bem diferente e perfeitamente imperfeita para ligar todos os acontecimentos abordados: o estilo falso documentário se faz presente e até mesmo a 4ª parede é quebrada, com direito a momentos de Margot Robbie olhando para a câmera e falando especificamente com nós, espectadores.

Por se tratar de uma história extremamente delicada e que possui no mínimo dois pontos de vista, outra aproximação que não fosse por meio de depoimentos (mesmo que ficcionais) não funcionaria tão bem. Se a escolha tivesse sido dramatizar o caso de Tonya a ponto de torná-lo uma biografia invariável, a ponte que conecta a figura com o público não existiria. Trabalhar o ser humano por trás da história e não reduzir tudo a apenas um acontecimento é uma das características mais notáveis de Eu, Tonya.

Outros dois grandes pilares do filme encontram-se na montagem e no elenco. Com a ajuda do roteiro bem estruturado e uma trilha-sonora caprichada em hits dos anos 80, a edição ágil e dinâmica entretém e mantém alto o nível de curiosidade e atenção, e assim caminha até o fim. Por mais que as piadas e a comédia vão cedendo espaço para cenas tensas e dramáticas, Eu, Tonya consegue criar, vez ou outra, uma junção de todos esses aspectos – o que só torna tudo ainda mais impactante.

Impactante, a propósito, é a palavra que define o elenco do longa. Allison Janney (o nome mais cotado para levar o Oscar de Atriz Coadjuvante) entrega uma performance esquisita e intrigante como a mãe de Tonya, brilhando em todas as cenas de confronto com a filha. Sebastian Stan, como o marido abusivo da ex-patinadora, também tem seus momentos, mas o carro-chefe é Robbie. As camadas que a australiana de 27 anos dá a sua personagem são emocionantes, sendo possível sentir empatia por essa pessoa que, possivelmente, foi responsável por um ato de violência completamente desnecessário. A mágica que Margot cria em tela nos faz “esquecer” dessa possibilidade, humanizando Tonya de forma única. Ao realçar o poder negativo que o abuso tem na vida de uma mulher, e até mesmo no preconceito que sofreu por não ser esteticamente capacitada aos olhos do júri de patinação (por mais que tivesse talento suficiente), a atriz faz Tonya ser lembrada por outros motivos além do que já era esperado.

“Não foi minha culpa”. A protagonista repete essas palavras inúmeras vezes ao longo do filme. Sendo culpada ou inocente, a vida de Tonya continua não sendo motivo para piadas – e, agora, nem para esquecimento. Margot Robbie faz um trabalho majestoso que transita entre a comédia e o drama em questão de poucos minutos. Eu, Tonya começa descompromissado, dá espaço ao tragicômico e, especialmente em suas cenas finais, traz um resultado que chega a cortar o coração.

FICHA TÉCNICA
Direção: Craig Gillespie
Elenco: Margot Robbie, Allison Janney, Sebastian Stan
Ano: 2017
Gênero: Biografia, Drama
Duração: 119 min
Classificação: Livre

Filme de Craig Gillespie apresenta retrato satírico e doloroso sobre Tonya Harding Nesta temporada de premiações, um dos maiores destaques em termos de atuação vai para Margot Robbie, que enfrentou o desafio de viver uma personalidade que fez história ao executar o salto triple axel em competições no gelo - mas não só por isso. Ao encarnar Tonya Harding, ex-patinadora que viu sua carreira e vida pessoal virarem de cabeça para baixo após um dos maiores escândalos no esporte dos EUA, Robbie domina a personagem e eleva sua carreira a outro patamar. Na direção contrária de ser apenas mais uma produção "caça-Oscar", Eu, Tonya acerta ao escolher contar uma história delicada do modo mais adequado: longe do convencional. Alvo das manchetes nos Estados Unidos em meados dos anos 90, Tonya pode ser um nome totalmente desconhecido para alguns brasileiros. Dona de personalidade e potencial marcantes, a americana cresceu treinando no gelo e passou a ganhar destaque ao disputar as Olimpíadas, mas nem mesmo seu bom desempenho e força de vontade foram capazes de impedir com que sua carreira acabasse prematuramente. A atleta participou de um grande escândalo envolvendo outra patinadora, Nancy Kerrigan, que foi atacada e teve seu joelho quebrado antes das Olimpíadas de Inverno de 1994. A partir daí, Tonya, Jeff Gillooly (seu marido) e Shawn (seu 'segurança') foram condenados pelo caso - por mais que a participação da patinadora não seja 100% clara até aqui. Deixando um pouco de lado a questão que todos se perguntam (afinal, ela sabia qual era o plano do marido?), o filme trabalha questões tão importantes quanto o famoso caso. Adentrando a vida de Tonya (desde a infância com os abusos da mãe até a juventude e os abusos do marido), temos uma estrutura bem diferente e perfeitamente imperfeita para ligar todos os acontecimentos abordados: o estilo falso documentário se faz presente e até mesmo a 4ª parede é quebrada, com direito a momentos de Margot Robbie olhando para a câmera e falando especificamente com nós, espectadores. Por se tratar de uma história extremamente delicada e que possui no mínimo dois pontos de vista, outra aproximação que não fosse por meio de depoimentos (mesmo que ficcionais) não funcionaria tão bem. Se a escolha tivesse sido dramatizar o caso de Tonya a ponto de torná-lo uma biografia invariável, a ponte que conecta a figura com o público não existiria. Trabalhar o ser humano por trás da história e não reduzir tudo a apenas um acontecimento é uma das características mais notáveis de Eu, Tonya. Outros dois grandes pilares do filme encontram-se na montagem e no elenco. Com a ajuda do roteiro bem estruturado e uma trilha-sonora caprichada em hits dos anos 80, a edição ágil e dinâmica entretém e mantém alto o nível de curiosidade e atenção, e assim caminha até o fim. Por mais que as piadas e a comédia vão cedendo espaço para cenas tensas e dramáticas, Eu, Tonya consegue criar, vez ou outra, uma junção de todos esses aspectos - o que só torna tudo…

Eu, Tonya

Direção
Roteiro
Montagem
Elenco
Trilha Sonora
Fotografia

Excelente

97

Jornalista especializada em cinema. Fundadora e editora-chefe do Cinematecando. Trabalhou como assessora de imprensa na 41ª edição da Mostra Internacional de Cinema e apresenta o canal do site no YouTube.