Posted On janeiro 30, 2017 By In Críticas - Lançamentos

Crítica: Moonlight – Sob a Luz do Luar

“Parece que faz muito tempo”, diz um verso da canção Hello Stranger, de Barbara Lewis, em um dos derradeiros minutos poderosos de Moonlight – Sob a Luz do Luar. Como qualquer vivência distante, o segundo longa dirigido por Barry Jenkins deixa o sentimento da nostalgia com grande dose melancólica, mas também não deixa de reconhecer que há muito mais por vir. É uma história sobre almas perdidas, enclausuradas por pressões sociais e expectativas alheias. Enquanto Boyhood – Da Infância à Juventude era um longa de formação de contornos simples e uma trajetória constante, Moonlight acerta ao reconhecer que, por retratar um personagem menos convencional (afinal, quem realmente o é?), o processo de auto-identificação de cada um tem suas idas e vindas.

Ao início de Moonlight, ambientado no bairro de Liberty City, sob o calor da Flórida, temos um longo plano que nos apresenta a uma cena do cotidiano de Juan (Mahershala Ali), um traficante de expressões suaves, até que em segundo plano, um grupo de garotos persegue outro enquanto cospem insultos juvenis. Corta para a história de Little (Alex Hibbert), que se esconde dos valentões em uma boca de fumo abandonada. Eventualmente, Juan o encontra e coloca sob sua tutela, tornando-se uma espécie de figura paterna indesejada pela mãe de Little, Paula (Naomie Harris), a qual esconde um sorrateiro vício em crack. A vida do garoto é então abalada por verdades inesperadas. Fim.

Ao segundo início de Moonlight, ainda ambientado em Liberty City, somos apresentados a Chiron (Ashton Sanders), um adolescente introspectivo frequentemente assediado por bullys enquanto não lida com a realidade volátil de sua mãe, que além de afogada em vícios, prostitui-se por dinheiro. Confrontado pelos desejos, Chiron faz descobertas sobre sua verdadeira identidade, mas a vida toma rumos inesperados e o rapaz vê seu último feixe de esperança se apagar. Fim.

Ao terceiro início de Moonlight, agora ambientado na cidade de Atlanta, Geórgia, conhecemos a história de Black (Trevante Rhodes), traficante de aparência encorpada e intimidadora, cujo cotidiano se resume ao trabalho e ignorar telefonemas de sua mãe internada em uma clínica de reabilitação. Certo dia, chega o telefonema de um velho amigo (André Holland), e Black encontra a chance de amarrar pontas soltas de seu passado e fazer as pazes com seu verdadeiro eu, o garoto que encarou duras verdades, o rapaz que se descobriu diferente e o homem que se trancou dentro de uma espessa armadura. Fim.

Por começar justamente em um ponto de intersecção entre duas vidas aparentemente alheias uma a outra, a jornada pessoal de Moonlight torna-se ainda mais poderosa quando nós, o público, notamos que Juan e Chiron não são tão diferentes afinal. Defenestrando a imagem endurecida do traficante, o roteiro adaptado pelo próprio Jenkins mergulha na subjetividade de seu protagonista de maneira que, francamente, torna-se angustiantemente difícil dar nomes aos inúmeros sentimentos transmitidos pelo longa.

Com uma abordagem fortemente pessoal, Moonlight poderia ter acidentalmente mantido o público distanciado, mas para a surpresa de todos, acaba sendo o raro filme com o qual, mesmo em uma lotada sala de cinema, o espectador se sente em um íntimo encontro, permeado por uma honestidade certas vezes brutal. Méritos não só de Barry Jenkins, mas sua equipe agora indicada a diversas estatuetas do Oscar. As imagens úmidas e calorosas de James Laxton, a montagem corajosamente experimental de Nat Sanders e Joi McMillon e a eclética e incômoda trilha de Nicholas Brittel tornam Moonlight em uma experiência deslumbrante.

Também essencial a Moonlight é seu elenco, inteiramente negro, que junta de maneira natural nomes desconhecidos a rostos já mais presentes no cinema e na televisão. Enquanto Mahershala Ali e Naomie Harris, indicados ao Oscar de Ator e Atriz Coadjuvantes, respectivamente, dão incrível presença a seus personagens, o grande trunfo são os três intérpretes de cada uma das densas fases de Chiron.

Alex Hibbert, que encarna o personagem em sua forma mais nova, acerta um complicado equilíbrio em sua contenção, que é mais estoica do que inexpressiva. Já Ashton Sanders, como a versão adolescente, traz todo o peso de um indivíduo prestes a ceder aos impulsos violentos de seus arredores. Por fim, o ex-atleta Trevante Rhodes (que fará parte do elenco do novo longa de Terrence Malick) entrega uma atuação memorável como um Chiron mais velho, feito à imagem de Juan, porém com a confusão emocional de seu eu mais jovem, Little.

Não fosse a competência destes três, a credibilidade do projeto poderia muito bem ter caído por terra, sem atingir a ressonância esperada. A música Janelle Monáe, de Estrelas Além do Tempo, e André Holland, da série The Knick, também são presenças bastante marcantes, o segundo tomando parte em uma das sequências mais poderosas do longa, ao som da canção mencionada no início deste texto.

Nascido no bairro de Liberty City, como Chiron, e graduado em cinema pela Universidade do Estado da Flórida, Barry Jenkins realizou diversos curtas e fez sua estreia em longas em 2008, com Medicine for Melancholy. Quase uma década depois, com uma equipe formada por ex-colegas de universidade, Jenkins não só faz um filme pessoal como alcança a visibilidade da indústria, podendo se tornar, ao lado de seu amigo Damien Chazelle, parte de uma promissora nova geração de cineastas, cheios de energia e dispostos a virar Hollywood de cabeça para baixo com suas impactantes experiências formais.

Moonlight – Sob a Luz do Luar é, realmente, poesia na forma de cinema. Formulado em uma estrutura de três atos aparentemente convencional, a obra toma o público desavisado com sua forte visão de que, não obstante as transformações que vêm com a vida, por sua vez estruturada em diversos atos e diversos recomeços, nunca nos perdemos completamente de nossos estados brutos. Ainda bem.

FICHA TÉCNICA
Direção: 
Barry Jenkins
Roteiro: Barry Jenkins
Elenco: Trevante Rhodes, Ashton Sanders, Alex Hibbert, Mahershala Ali, Naomie Harris, Janelle Monáe, André Holland
Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Adele Romanski
Fotografia: James Laxton
Montagem: Nat Sanders, Joi McMillon
Trilha Sonora: Nicholas Brittel
Duração: 111 min  Distribuição: Diamond Films
Gênero:  Drama

"Parece que faz muito tempo", diz um verso da canção Hello Stranger, de Barbara Lewis, em um dos derradeiros minutos poderosos de Moonlight – Sob a Luz do Luar. Como qualquer vivência distante, o segundo longa dirigido por Barry Jenkins deixa o sentimento da nostalgia com grande dose melancólica, mas também não deixa de reconhecer que há muito mais por vir. É uma história sobre almas perdidas, enclausuradas por pressões sociais e expectativas alheias. Enquanto Boyhood – Da Infância à Juventude era um longa de formação de contornos simples e uma trajetória constante, Moonlight acerta ao reconhecer que, por retratar um personagem menos convencional (afinal, quem realmente o é?), o processo de auto-identificação de cada um tem suas idas e vindas. Ao início de Moonlight, ambientado no bairro de Liberty City, sob o calor da Flórida, temos um longo plano que nos apresenta a uma cena do cotidiano de Juan (Mahershala Ali), um traficante de expressões suaves, até que em segundo plano, um grupo de garotos persegue outro enquanto cospem insultos juvenis. Corta para a história de Little (Alex Hibbert), que se esconde dos valentões em uma boca de fumo abandonada. Eventualmente, Juan o encontra e coloca sob sua tutela, tornando-se uma espécie de figura paterna indesejada pela mãe de Little, Paula (Naomie Harris), a qual esconde um sorrateiro vício em crack. A vida do garoto é então abalada por verdades inesperadas. Fim. Ao segundo início de Moonlight, ainda ambientado em Liberty City, somos apresentados a Chiron (Ashton Sanders), um adolescente introspectivo frequentemente assediado por bullys enquanto não lida com a realidade volátil de sua mãe, que além de afogada em vícios, prostitui-se por dinheiro. Confrontado pelos desejos, Chiron faz descobertas sobre sua verdadeira identidade, mas a vida toma rumos inesperados e o rapaz vê seu último feixe de esperança se apagar. Fim. Ao terceiro início de Moonlight, agora ambientado na cidade de Atlanta, Geórgia, conhecemos a história de Black (Trevante Rhodes), traficante de aparência encorpada e intimidadora, cujo cotidiano se resume ao trabalho e ignorar telefonemas de sua mãe internada em uma clínica de reabilitação. Certo dia, chega o telefonema de um velho amigo (André Holland), e Black encontra a chance de amarrar pontas soltas de seu passado e fazer as pazes com seu verdadeiro eu, o garoto que encarou duras verdades, o rapaz que se descobriu diferente e o homem que se trancou dentro de uma espessa armadura. Fim. Por começar justamente em um ponto de intersecção entre duas vidas aparentemente alheias uma a outra, a jornada pessoal de Moonlight torna-se ainda mais poderosa quando nós, o público, notamos que Juan e Chiron não são tão diferentes afinal. Defenestrando a imagem endurecida do traficante, o roteiro adaptado pelo próprio Jenkins mergulha na subjetividade de seu protagonista de maneira que, francamente, torna-se angustiantemente difícil dar nomes aos inúmeros sentimentos transmitidos pelo longa. Com uma abordagem fortemente pessoal, Moonlight poderia ter acidentalmente mantido o público distanciado, mas para a surpresa de todos, acaba sendo o raro filme com o qual, mesmo…

Nota

Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Montagem
Trilha Sonora

Excelente

Barry Jenkins adaptou Moonlight de uma peça de Tarrel Alvin McCraney, originalmente intitulada "In Moonlight Black Boys Look Blue". Enquanto o longa posiciona seus atos de maneira cronológica, a peça apresentava suas três fases intercaladas entre si.

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Redator do Cinematecando | Formado em Rádio, TV e Internet, 22 anos. Desde sempre teve uma grande queda por cinema e de vez em quando enlouquece sobre algum filme pouco falado ou conhecido. Também fascinado por séries, ainda está de luto pelo cancelamento da maravilhosa Penny Dreadful e será eternamente grato pela existência de The Leftovers. Além disso é um gamer ávido por boas histórias e sente-se bastante estranho ao escrever uma bio em terceira pessoa.