Crítica: Motorrad | Cinematecando

Posted On 03/03/2018 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: Motorrad

Com boa receptividade no festival de Toronto, novo filme de Vicente Amorim é saturado de adrenalina, mas fica devendo na verossimilhança de seus eventos

Cinema de gênero no Brasil não é frequente e muito menos valorizado pelos brasileiros como deveria. A lista de filmes nacionais de comédia ou drama é sempre grande todo ano, mas não é sempre que aparece algo relacionado ao terror, ao suspense ou ao gênero de ação. Motorrad representa perfeitamente a chance de tornar visível o tipo de produção nacional que ousa em impactar o espectador com elementos já tão conhecidos pelo cinema hollywoodiano/europeu. E é exatamente por não conseguir se desvincular de clichês e previsibilidades do gênero que o filme não passa de uma “chance de se tornar visível”.

Um dos grandes desejos de Hugo (Guilherme Prates) é conseguir fazer parte do grupo de motocross de seu irmão mais velho. Decidido, rouba algumas peças para que possa montar sua motocicleta. Quando consegue o feito, ele encontra com a turma do irmão em uma cachoeira remota, onde fazem uma trilha e se deparam com um antigo muro. Hugo sugere que eles desmontem o muro e sigam a aventura, mas acabam encontrando a dona do ferro-velho de onde Hugo roubou as peças. Ela os convida para um caminho ainda mais radical, só que a diversão vira uma corrida pela sobrevivência quando eles passam a ser perseguidos por motoqueiros sádicos.

Podendo muito bem ter adaptado sua temática em um contexto mais brasileiro e contemporâneo, o filme aposta em antagonistas unidimensionais, sem motivação, possivelmente detentores de poderes sobrenaturais, com um duvidoso figurino que remete a um aspecto futurista/distópico. Nenhum personagem é aprofundado, inclusive Hugo, que acaba bancando o “protagonista incompetente” aos olhos do espectador, que sem nenhum traço de destaque, é afetado pela péssima construção de sua personalidade e objetivos. O ator Guilherme Prates acaba sendo o maior prejudicado por essa irresponsabilidade do roteiro.

Após a cena inicial, uma das mais bem construídas pelo roteiro (senão a única) pela ausência de falas entre os personagens, notamos algumas sequências de diálogos forçados pelos personagens, que voltam a aparecer em uma cena ou outra. O péssimo comprometimento com a elaboração dos personagens e a falta de cuidado com a verossimilhança de suas atitudes e eventos em geral já seriam um prato cheio de desgosto, mas junto com a preguiçosa disposição de diálogos, fazem com que o roteiro de L.G. Bayão (co-escrito por L.G. Tubaldini Jr. e Vicente Amorim) seja um dos roteiros mais desagradáveis que vi nos últimos anos.

As atuações não dão suporte aos seus personagens (já desinteressantes) e a trilha sonora também não trabalha de maneira vistosa, apenas criando tensão em uma cena ou outra. Visto que a maior parte do filme se passa em cenários externos e em locações reais, a direção de arte do filme não tem muito espaço para trabalhar – exceto nos figurinos, o que faz bem seguindo a proposta temática da história/ambientação. A fotografia, junto à montagem, são os aspectos mais atraentes de Motorrad. Além de belos enquadramentos, movimentos de câmera atribulados criam tensão e adrenalina junto aos cortes rápidos, embora em algumas cenas isso se torne mais cansativo que envolvente.

O diretor Vicente Amorim, conhecido por obras como Um Homem Bom (2008) e Corações Sujos (2011), traz em seu novo filme muita imersão em cenas frenéticas bem dirigidas que conseguem, de alguma forma, fazer com que o espectador se coloque no lugar dos personagens e sinta o tão palpável medo de morrer, mesmo que não se identifique (nem se interesse) pela personalidade de nenhum em especial.


Trailer


FICHA TÉCNICA
Direção: Vicente Amorim
Roteiro:
L.G. Bayão, L.G. Tubaldini Jr., Vicente Amorim
Elenco: Emílio de Melo, Carla Salle, Juliana Lohmann, Guilherme Prates, Pablo Sanábio, Jayme Del Cueto
Produção: L.G. Tubaldini Jr., Marcello Ludwig Maia
Fotografia: Gustavo Hadba
Montagem: Lucas Gonzaga
Música: Fabiano Krieger, Lucas Marcier
Gênero:
Suspense / Ação
Duração: 92 min.

Com boa receptividade no festival de Toronto, novo filme de Vicente Amorim é saturado de adrenalina, mas fica devendo na verossimilhança de seus eventos Cinema de gênero no Brasil não é frequente e muito menos valorizado pelos brasileiros como deveria. A lista de filmes nacionais de comédia ou drama é sempre grande todo ano, mas não é sempre que aparece algo relacionado ao terror, ao suspense ou ao gênero de ação. Motorrad representa perfeitamente a chance de tornar visível o tipo de produção nacional que ousa em impactar o espectador com elementos já tão conhecidos pelo cinema hollywoodiano/europeu. E é exatamente por não conseguir se desvincular de clichês e previsibilidades do gênero que o filme não passa de uma "chance de se tornar visível". Um dos grandes desejos de Hugo (Guilherme Prates) é conseguir fazer parte do grupo de motocross de seu irmão mais velho. Decidido, rouba algumas peças para que possa montar sua motocicleta. Quando consegue o feito, ele encontra com a turma do irmão em uma cachoeira remota, onde fazem uma trilha e se deparam com um antigo muro. Hugo sugere que eles desmontem o muro e sigam a aventura, mas acabam encontrando a dona do ferro-velho de onde Hugo roubou as peças. Ela os convida para um caminho ainda mais radical, só que a diversão vira uma corrida pela sobrevivência quando eles passam a ser perseguidos por motoqueiros sádicos. Podendo muito bem ter adaptado sua temática em um contexto mais brasileiro e contemporâneo, o filme aposta em antagonistas unidimensionais, sem motivação, possivelmente detentores de poderes sobrenaturais, com um duvidoso figurino que remete a um aspecto futurista/distópico. Nenhum personagem é aprofundado, inclusive Hugo, que acaba bancando o "protagonista incompetente" aos olhos do espectador, que sem nenhum traço de destaque, é afetado pela péssima construção de sua personalidade e objetivos. O ator Guilherme Prates acaba sendo o maior prejudicado por essa irresponsabilidade do roteiro. Após a cena inicial, uma das mais bem construídas pelo roteiro (senão a única) pela ausência de falas entre os personagens, notamos algumas sequências de diálogos forçados pelos personagens, que voltam a aparecer em uma cena ou outra. O péssimo comprometimento com a elaboração dos personagens e a falta de cuidado com a verossimilhança de suas atitudes e eventos em geral já seriam um prato cheio de desgosto, mas junto com a preguiçosa disposição de diálogos, fazem com que o roteiro de L.G. Bayão (co-escrito por L.G. Tubaldini Jr. e Vicente Amorim) seja um dos roteiros mais desagradáveis que vi nos últimos anos. As atuações não dão suporte aos seus personagens (já desinteressantes) e a trilha sonora também não trabalha de maneira vistosa, apenas criando tensão em uma cena ou outra. Visto que a maior parte do filme se passa em cenários externos e em locações reais, a direção de arte do filme não tem muito espaço para trabalhar - exceto nos figurinos, o que faz bem seguindo a proposta temática da história/ambientação. A fotografia, junto à montagem, são os aspectos mais atraentes de Motorrad. Além…

Motorrad

Direção
Roteiro
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Trilha-Sonora
Arte
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Regular

58