Crítica: O Apartamento | Cinematecando

Posted On 14/01/2017 By In Críticas - Lançamentos

Crítica: O Apartamento

Hoje, Asghar Farhadi é o maior e mais conhecido nome do cinema vindo do Irã. Apesar de jovem – apenas 45 anos de idade -, este diretor, desde Dancing in the Dust (2003), tem figurado entre alguns festivais de cinema pelo mundo, mesmo que não de grande porte no começo. Contudo, em 2009, isso iria mudar. Naquele ano, Asghar Farhadi saiu com o prêmio Urso de Prata de Melhor Diretor de um dos mais renomados festivais de cinema no mundo: o Festival Internacional de Cinema de Berlin.


O filme responsável por este ‘ponto de virada’ na carreira de Farhadi? O ótimo À Procura de Elly, que narra uma viagem de alguns casais e o desaparecimento de uma destas pessoas durante a viagem. A partir deste filme, sabíamos quem era Asghar Farhadi, e não seria surpresa seu filme seguinte, o espetacular A Separação, ganhar ainda mais notoriedade com o público e também analistas, com prêmios como o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o Globo de Ouro na mesma categoria, e o maior dos louros do Festival de Berlin: o Urso de Ouro.

Portanto, é com muita estima e expectativa que se assiste ao novo projeto deste diretor: o também inquietante O Apartamento, que é menos potencialmente dilacerante que seus dois filmes mais laureados, mas que continua demonstrando, com a mesma validade e força, como o fundamentalismo do Irã é parte estrutural (não apenas cultural), mas essencialmente do íntimo do iraniano(a). Assim como, consequentemente, qualquer ruptura nesta fundação causará uma implosão, que levantará poeira suficiente para deixar todos à volta na sujeira e escuridão.

Em O Apartamento, adentramos na vida de Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti), casados, ambos atores trabalhando em uma montagem da peça ‘A Morte de um Caixeiro Viajante’, de Arthur Miller. Depois de se verem obrigados a sair do apartamento no prédio onde moram, devido a uma construção próxima que ameaça as estruturas com risco de desabamento, o casal se vê tendo que morar em um apartamento indicado por um de seus colegas de palco, Babak (Babak Karimi). É neste apartamento – antes locado a uma mulher que pouco se sabe, que Emad e Rana irão construir um ninho. Todavia, algo chocante aconteceria a Rana: um homem “invadiria” (notar aspas!) o apartamento enquanto Rana encontrava-se no banho, e Emad estava fora de casa.

É nos traumas deste evento que Asghar Farhadi vai elaborar sua boa trama.

O cinema de Farhadi tem como intenção abordar as distintas estruturas das classes sociais da Irã moderna, incluindo as diferenças de tratamento de gênero, e todos estes elementos batem de frente com os ensinamentos morais do fundamentalismo religioso no Irã, ou seja, ‘fazer a coisa certa’ não é tão simples quanto se presume, e nas mãos deste diretor, essas decisões e escolhas acabam por se tornar ainda mais conflitantes e catárticas.

Pressuposto isso, algo que aconteceu diretamente a Rana, não termina apenas nela, não. Os reais segredos que ela internalizou do trauma fazem com que o sangue respingado do ataque, manchem Emad, e assim, seu casamento. Também é afetada a peça de teatro que trabalhavam, a relação de Emad com Babak (que indicou o apartamento para eles morarem), e o trabalho de Emad na escola onde leciona.

Em uma das melhores cenas, Rana, sentindo-se um pouco menos temerosa com o ocorrido, leva um pequeno garotinho, filho de uma das atrizes a sua casa para cuidar dele, enquanto sua mãe faz a peça. Quando Emad retorna à mesa de jantar, eles jantam uma macarronada que Rana preparou, mas às custas de um dinheiro que ela encontrou. Depois ela saberá por Emad que aquele dinheiro que ela usou para comprar a comida foi um dinheiro deixado por seu invasor. Nesta cena, Farhadi conseguiu capturar com rica mise-en-scène, atrelada a um ótimo trabalho de sua dupla de atores, toda a ruína que um evento pode representar. Cada vez mais, o alicerce de ambos ameaça desabar.

Além de atuações competentes e tocantes de seu casal de atores, principalmente Shahab Hosseini, o diretor também possui um roteiro de enredo bem elaborado, mas com um grau menos impactante em seu terceiro ato; isso se compararmos a seu filme anterior, A Separação. Consequentemente, a direção neste terceiro ato acaba por ficar um pouco menos fluente que o restante do filme, mas não afeta o sensorial íntimo da espiral ‘de mau a pior’ existente.

Isso é o que Asghar Farhadi faz de melhor: elaborar uma teia dramática que cobre todas as paredes, alcançando e puxando pessoas e fatores para dentro desta armadilha.

Se Abbas Kiarostami retratava as durezas de seu Irã, mas com emocionante poesia; seu compatriota moderno, Asghar Farhadi, faz o mesmo, porém com um realismo cru e angustiante.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Forushande
Direção: Asghar Farhadi
Produção: Memento Films Production; Asghar Farhadi Production; Arte France Cinéma;
Roteiro: Asghar Farhadi
Gênero: Drama
Duração: 125 minutos
Classificação: 12 anos
Elenco: Shahab Hosseini (Emad); Taraneh Alidoosti (Rana); Babak Karimi (Babak)

Hoje, Asghar Farhadi é o maior e mais conhecido nome do cinema vindo do Irã. Apesar de jovem - apenas 45 anos de idade -, este diretor, desde Dancing in the Dust (2003), tem figurado entre alguns festivais de cinema pelo mundo, mesmo que não de grande porte no começo. Contudo, em 2009, isso iria mudar. Naquele ano, Asghar Farhadi saiu com o prêmio Urso de Prata de Melhor Diretor de um dos mais renomados festivais de cinema no mundo: o Festival Internacional de Cinema de Berlin. O filme responsável por este ‘ponto de virada’ na carreira de Farhadi? O ótimo À Procura de Elly, que narra uma viagem de alguns casais e o desaparecimento de uma destas pessoas durante a viagem. A partir deste filme, sabíamos quem era Asghar Farhadi, e não seria surpresa seu filme seguinte, o espetacular A Separação, ganhar ainda mais notoriedade com o público e também analistas, com prêmios como o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o Globo de Ouro na mesma categoria, e o maior dos louros do Festival de Berlin: o Urso de Ouro. Portanto, é com muita estima e expectativa que se assiste ao novo projeto deste diretor: o também inquietante O Apartamento, que é menos potencialmente dilacerante que seus dois filmes mais laureados, mas que continua demonstrando, com a mesma validade e força, como o fundamentalismo do Irã é parte estrutural (não apenas cultural), mas essencialmente do íntimo do iraniano(a). Assim como, consequentemente, qualquer ruptura nesta fundação causará uma implosão, que levantará poeira suficiente para deixar todos à volta na sujeira e escuridão. Em O Apartamento, adentramos na vida de Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti), casados, ambos atores trabalhando em uma montagem da peça ‘A Morte de um Caixeiro Viajante’, de Arthur Miller. Depois de se verem obrigados a sair do apartamento no prédio onde moram, devido a uma construção próxima que ameaça as estruturas com risco de desabamento, o casal se vê tendo que morar em um apartamento indicado por um de seus colegas de palco, Babak (Babak Karimi). É neste apartamento - antes locado a uma mulher que pouco se sabe, que Emad e Rana irão construir um ninho. Todavia, algo chocante aconteceria a Rana: um homem “invadiria” (notar aspas!) o apartamento enquanto Rana encontrava-se no banho, e Emad estava fora de casa. É nos traumas deste evento que Asghar Farhadi vai elaborar sua boa trama. O cinema de Farhadi tem como intenção abordar as distintas estruturas das classes sociais da Irã moderna, incluindo as diferenças de tratamento de gênero, e todos estes elementos batem de frente com os ensinamentos morais do fundamentalismo religioso no Irã, ou seja, ‘fazer a coisa certa’ não é tão simples quanto se presume, e nas mãos deste diretor, essas decisões e escolhas acabam por se tornar ainda mais conflitantes e catárticas. Pressuposto isso, algo que aconteceu diretamente a Rana, não termina apenas nela, não. Os reais segredos que ela internalizou do trauma fazem com que o sangue respingado do ataque, manchem Emad, e assim,…

Nota

O Apartamento

Bom

60

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