Posted On setembro 19, 2016 By In Críticas - Lançamentos

Crítica: O Silêncio do Céu

Logo em sua cena inicial, O Silêncio do Céu já nos mostra a tensão e a sensação de incômodo que leva consigo: a personagem Diana (Carolina Dieckmann) é estuprada em sua própria casa por dois homens, e seu marido acaba vendo toda a cena – porém, ele fica paralisado ao ver que eles estão armados. Com medo de interceder e algo der (mais) errado, Mario (Leonardo Sbaraglia) não faz nada. Assim como os espectadores, ele apenas testemunha um ato horrendo e traumático, elaborado em uma sequência com jogos de cena que resultam em um aumento de tensão. Cheio de culpa, Mario tenta ir atrás dos estupradores após eles saírem de sua casa, mas eles somem rapidamente.

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O que acontece a partir da cena em que Diana liga para Mario após o estupro (e ainda pergunta se está tudo bem com o marido), é um vão imenso de silêncio entre os dois. Diana não sabe que o marido testemunhou o ato, e Mario tem receio de falar que viu e que não conseguiu fazer nada.

Baseado no livro Era El Cielo do escritor argentino Sergio Bizzio, o filme do diretor Marco Dutra possui um tom bem sombrio e tenso, com uma narrativa que foca no personagem de Mario e em sua tentativa de desvendar o mistério que envolve a esposa e os agressores. Rodado em Montevidéo e falado quase que totalmente em espanhol, a personagem de Carolina Dieckmann é brasileira, estilista e mora no Uruguai com o marido e os filhos. Mario é um roteirista que acabou de voltar para casa após alguns meses separado de Diana. Poucos dias depois de voltar, acontece o tal fato terrível e isso só dificulta a melhora no relacionamento dos dois.

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A tensão que o diretor vai construindo é feita de maneira impecável, e a atuação dos protagonistas, além dos próprios agressores, apenas somam as qualidades de O Silêncio do Céu. A construção de Mario é densa e profunda; ele possui várias fobias e demonstra muito bem com seus olhares o quanto incomoda a atuação relação com sua esposa. Carolina, por sua vez, tem faces e olhares praticamente indecifráveis, e é realmente surpreendente sua ótima eloquência ao falar em espanhol por, ao menos, 90% do filme. Ambas atuações são consistentes e cheias de cuidado, visto as personalidades complexas que seus personagens possuem. O elenco de apoio é formado por Chino Darín, Mirella Pascual e Paula Cohen, que só provam o quanto os atores estiveram entrosados para o trabalho.

A história também conta com várias simbologias nas cenas, como a pedra que permanece na mesa, o cacto que se mexe, e os objetos na estufa (palco de muitas cenas incríveis). A atmosfera que Marco Dutra cria é praticamente claustrofóbica. Queremos tanto quanto o próprio Mario tentar resolver os enigmas impostos pela situação que ele mergulhou, e ficamos tão tensos quanto ele no decorrer da narrativa, a cada passo dado em direção dos fatos.

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Além disso, a “falta” de trilha sonora no filme é um detalhe ótimo: com exceção da música Corcovado, o filme é composto apenas por sons do ambiente, como o ronco de motores. As narrações em off de Mario e Diana dão certa intimidade entre o espectador e personagem, pois eles citam seus medos e até pesadelos. Aliados à fotografia escura e aos enquadramentos fechados, todos esses elementos são costurados na própria história de maneira sensível e muito, mas muito bem feita.

O mistério que O Silêncio do Céu proporciona é inquietante e faz o espectador realmente não ter o mínimo de ideia do que poderá acontecer a seguir. A trama é digna de ficar por dias na mente do espectador. E, para o cinema nacional, este é mais um belíssimo exemplo de como tais produções estão dando cada vez mais orgulho para os cinéfilos brasileiros!

FICHA TÉCNICA
Título Original: Era el Cielo
Direção: Marco Dutra
Produção: RT Features/ Camisa Treze – Rodrigo Teixeira
Roteiro: Lucía Puenzo, Sergio Bizzio e Caetano Gotardo
Gênero: Drama
Duração: 102 minutos
Classificação: 16 anos
Elenco: Leonardo Sbaraglia (Mario), Carolina Dieckmann (Diana), Chino Darín (Néstor), Álvaro Armand Ugón (Andrés), Mirella Pascual (Malena), Roberto Suárez (Trini), Paula Cohen (Elisa), Priscila Bellora (Nina), Dylan Cortes (Julián)

Logo em sua cena inicial, O Silêncio do Céu já nos mostra a tensão e a sensação de incômodo que leva consigo: a personagem Diana (Carolina Dieckmann) é estuprada em sua própria casa por dois homens, e seu marido acaba vendo toda a cena - porém, ele fica paralisado ao ver que eles estão armados. Com medo de interceder e algo der (mais) errado, Mario (Leonardo Sbaraglia) não faz nada. Assim como os espectadores, ele apenas testemunha um ato horrendo e traumático, elaborado em uma sequência com jogos de cena que resultam em um aumento de tensão. Cheio de culpa, Mario tenta ir atrás dos estupradores após eles saírem de sua casa, mas eles somem rapidamente. O que acontece a partir da cena em que Diana liga para Mario após o estupro (e ainda pergunta se está tudo bem com o marido), é um vão imenso de silêncio entre os dois. Diana não sabe que o marido testemunhou o ato, e Mario tem receio de falar que viu e que não conseguiu fazer nada. Baseado no livro Era El Cielo do escritor argentino Sergio Bizzio, o filme do diretor Marco Dutra possui um tom bem sombrio e tenso, com uma narrativa que foca no personagem de Mario e em sua tentativa de desvendar o mistério que envolve a esposa e os agressores. Rodado em Montevidéo e falado quase que totalmente em espanhol, a personagem de Carolina Dieckmann é brasileira, estilista e mora no Uruguai com o marido e os filhos. Mario é um roteirista que acabou de voltar para casa após alguns meses separado de Diana. Poucos dias depois de voltar, acontece o tal fato terrível e isso só dificulta a melhora no relacionamento dos dois. A tensão que o diretor vai construindo é feita de maneira impecável, e a atuação dos protagonistas, além dos próprios agressores, apenas somam as qualidades de O Silêncio do Céu. A construção de Mario é densa e profunda; ele possui várias fobias e demonstra muito bem com seus olhares o quanto incomoda a atuação relação com sua esposa. Carolina, por sua vez, tem faces e olhares praticamente indecifráveis, e é realmente surpreendente sua ótima eloquência ao falar em espanhol por, ao menos, 90% do filme. Ambas atuações são consistentes e cheias de cuidado, visto as personalidades complexas que seus personagens possuem. O elenco de apoio é formado por Chino Darín, Mirella Pascual e Paula Cohen, que só provam o quanto os atores estiveram entrosados para o trabalho. A história também conta com várias simbologias nas cenas, como a pedra que permanece na mesa, o cacto que se mexe, e os objetos na estufa (palco de muitas cenas incríveis). A atmosfera que Marco Dutra cria é praticamente claustrofóbica. Queremos tanto quanto o próprio Mario tentar resolver os enigmas impostos pela situação que ele mergulhou, e ficamos tão tensos quanto ele no decorrer da narrativa, a cada passo dado em direção dos fatos. Além disso, a "falta" de trilha sonora no filme é um detalhe ótimo: com exceção da…

Nota

O Silêncio do Céu

Excelente

O longa venceu 3 prêmios no 44º Festival de Cinema de Gramado: Melhor Filme, Melhor Desenho de Som e Melhor Filme pelo Júri da Crítica.

100

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Criadora e editora-chefe do Cinematecando | Jornalista, 24 anos. Logo na infância encontrou no cinema uma grande paixão. Ama ler, fazer maratonas de séries (de Mad Men a The Office) e é fascinada por movimentos cinematográficos como Nouvelle Vague e Neo Realismo Italiano. Se inspirou na frase "Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça", do diretor Glauber Rocha, para criar o Cinematecando e fazer o que mais gosta: escrever sobre cinema. Só que, ao invés da câmera, usa as palavras para transmitir seus pensamentos. Contato: barbara@cinematecando.com.br