Crítica: Silêncio

Crítica: Silêncio

Por Giovanna Orlando

Silêncio é o trabalho mais pessoal de Martin Scorsese. O filme foi baseado na obra homônima de Shusako Endo, livro que o diretor mais releu ao longo de sua vida. Tendo isso em mente, dá para ter ideia da importância do livro para Scorsese e o quanto ele demorou para garantir a adaptação perfeita.

O filme mostra a jornada dos padres jesuítas Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), que tentam encontrar o padre Ferreira (Liam Neeson), mentor de ambos que foi ao Japão com a missão de catequizar os nativos e nunca retornou. A trama se passa em 1640, quando a Igreja Católica reinava soberana na Europa e tentava se ramificar pelo mundo, enquanto o Japão punia todos os que não praticavam a religião oficial, o budismo.

As últimas informações que Portugal tem de Padre Ferreira são que ele renunciou a fé católica, se casou e está vivendo com um japonês. Por ter sido mentor dos dois padres, eles entendem que sua missão agora é resgatar Ferreira, ainda que a Igreja não considere esta uma boa ideia.

Com a chegada dos dois ao Japão, fica claro que mesmo que o país não aceite, a fé católica criou raízes no litoral. Os padres são protegidos pelos locais, que os veem como a encarnação do próprio Jesus Cristo. Eles celebram a missa e escutam as confissões dos locais, enquanto esperam receber informações do paradeiro de Ferreira.

Mas toda a tranquilidade da vida dos padres acaba quando os homens do Imperador chegam ao vilarejo para se assegurar que não existem católicos ali. O único jeito de mostrar que são verdadeiros budistas e que não acreditam em Deus é pisando em imagens cristãs. A partir deste ponto, o diretor mostra o quão séria era a perseguição aos cristãos e o quanto o Japão não aceitaria que uma religião europeia vencesse a fé local.

Os padres começam a sentir na pele a fúria do Imperador depois que se separam. Rodrigues é pego pelos homens do imperador e mantido refém, enquanto Garupe some por parte do filme. Todo o tempo em que fica focado em Rodrigues, o diretor mostra o sofrimento dos católicos e os questionamentos do padre. O segundo ato do filme é o mais cruel, com o espectador passando o tempo inteiro tentando adivinhar se Sebastião vai renunciar a fé católica para sobreviver, ou se ele vai se juntar ao já extenso grupo de mártires católicos no Japão.

Silêncio é um filme lento, denso. Em alguns momentos chega a ser arrastado, e pode deixar o espectador se questionando se era necessário mesmo algumas cenas, sendo complicado se manter 100% focado. O primeiro ato é o que mais demora a alcançar um clímax, mas depois deste ponto, o filme engata.

A atuação de Andrew Garfield é sublime. Adam Driver tem menos tempo em cena, mas quando aparece, impressiona. Os dois começam o filme confiantes na religião, crentes que sua missão será rápida e, que apesar de ser perigosa, Deus cuidará deles. Com o decorrer do filme e com os desafios que os cercam, a mudança nos personagens é tão orgânica e natural que não fica forçada em momento algum e se mantem crível. Destaque inclusive para as cenas de Garfield delirando.

A caracterização dos personagens é outro ponto forte. As roupas são perfeitas e condizentes a época, o jeito como o cabelo e a barba dos padres cresceu depois do início da viagem são bons marcadores temporais. A fotografia é impecável. Várias são as cenas em que o espectador consegue ficar admirado.

Os diálogos de Rodrigues com o Imperador são um dos detalhes mais importantes no filme; mostra o quão forte e fervorosa é a fé do padre, que mesmo preso e testemunhando acontecimentos horríveis, não abandona sua crença. E mostra o lado do Imperador, que não quer saber de uma fé estrangeira quando o Japão já tem uma. A metáfora de que o Japão é um pântano e nada cresce ali é marcante.

Outra coisa marcante no filme são as várias vezes em que a palavra silêncio é usada. O maior questionamento de Rodrigues é como Deus consegue se manter quieto diante de uma situação tão cruel e hostil quanto a que seus seguidores sofrem – e por que ele não consegue encontrar as palavras que confortem os fiéis que encontrou no Japão. O nome da obra não poderia ser melhor.

O pecado de Silêncio está no tom lento. Ainda que o filme precise ser compassado para contar a história (nenhuma outra forma de lidar com o tema seria correta), faltou tato de Scorsese para manter o filme sempre atraente e revigorado para o espectador. Outro tiro no pé foi escolher atores americanos para interpretar personagens portugueses, que só falam inglês. Em uma das passagens do filme, eles perguntam aos nativos se eles sabem falar sua língua, e fica a dúvida: qual delas?

Silêncio é o filme que vai fazer o espectador sair do cinema impressionado e se questionando sobre o que acabou de ver. É uma obra difícil de digerir e de se ter uma opinião tão logo. Pode ser o filme da vida de Scorsese, mas dificilmente será o filme da vida do público.

FICHA TÉCNICA
Direção:
Martin Scorsese
Roteiro:
Martin Scorsese e Shusaku Endo
Elenco:
Andrew Garfield, Liam Neeson, Adam Driver, Tadanobu Asano, Ciarán Hinds, Ciarán Hinds
Fotografia:
Rodrigo Prieto
Estreia nacional: 09/03/2017

Giovanna Orlando