Posted On 24/10/2017 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: The Square

Este filme faz parte da programação oficial da 41ªMostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Obras de arte tem o dom dúbio de seduzir e repelir. Entre tantas coisas, The Square aborda o atual estado da arte, que se encontra em uma profunda crise de identidade não só aqui, mas pelo mundo todo. Claro, essa impopularidade não é inteiramente da responsabilidade de artistas e museus, mas também de uma intolerância que vem sendo alimentada. Como poderia a arte voltar a seduzir, se não impactar positivamente?

A história segue Christian (Claes Bang), o curador de um museu que se vê no meio de inúmeros impasses, como o roubo de seus pertences, a divulgação polêmica de uma nova obra e seu próprio egoísmo.

O longa do sueco Ruben Östlund, que levou a Palma de Ouro esse ano em Cannes, perde-se entre diversas tramas e ambições, prejudicado ainda mais pela duração esticada de 142 minutos. Há diálogos e personagens que poderiam ficar de fora: entre eles, a ótima Elizabeth Moss, que tem carisma mas é subaproveitada pela história. Até mesmo os momentos mais fortes parecem costurados ali, às vezes sem resolução.

Contudo, The Square é fortalecido pelo urgente dilema que mencionei lá em cima. O humor é, muitas vezes, acertadíssimo. Explorando a falta de percepção e interpretação do público em relação às instalações artísticas de um museu, temos cenas engraçadíssimas envolvendo uma peça que consiste de diversas pilhas de cascalhos: a primeira consiste em uma dupla de amigos que, após alegarem falta de conhecimento sobre o artista, dão apenas uma olhada rápida e logo saem de quadro; a segunda, por sua vez, conta com um zelador que já não tem mais certeza do que é arte e o que é sujeira ali, sem saber o que limpar.

O grande destaque, ainda assim, fica mesmo para a aclamada cena do homem-macaco, que age e provoca livremente em meio a um chique jantar cheio de figurões. É aqui que The Square se encontra em seu mais formidável, com Östlund navegando com naturalidade entre tons, indo do cômico ao angustiante. Sem um trecho tão seminal, duvido que teria levado a Palma de Ouro. Não à toa está tão destacado em cartazes e trailers.

Há também outra divagação interessante, que surge com força no momento em que o curador do museu fala em uma coletiva de imprensa. De um lado, é condenado por uma senhora pelo mau gosto de sua nova instalação principal, enquanto de outro, é questionado por um jornalista por ceder ao desânimo do público, implicando uma forma de autocensura. Pois bem, poderia a arte caminhar na corda bamba e reconquistar o apreço popular sem recorrer a nenhuma forma de censura?

Ironicamente, se os temas são afiados, o impacto do longa é diluído pelo roteiro de Östlund, que poderia criar uma narrativa mais ágil e ousada para Christian. No fim, The Square ao menos justifica sua existência por ser um filme destes tempos para estes tempos, questionando também nossa inércia coletiva em frente à desigualdade.

Este filme faz parte da programação oficial da 41ªMostra Internacional de Cinema em São Paulo. Obras de arte tem o dom dúbio de seduzir e repelir. Entre tantas coisas, The Square aborda o atual estado da arte, que se encontra em uma profunda crise de identidade não só aqui, mas pelo mundo todo. Claro, essa impopularidade não é inteiramente da responsabilidade de artistas e museus, mas também de uma intolerância que vem sendo alimentada. Como poderia a arte voltar a seduzir, se não impactar positivamente? A história segue Christian (Claes Bang), o curador de um museu que se vê no meio de inúmeros impasses, como o roubo de seus pertences, a divulgação polêmica de uma nova obra e seu próprio egoísmo. O longa do sueco Ruben Östlund, que levou a Palma de Ouro esse ano em Cannes, perde-se entre diversas tramas e ambições, prejudicado ainda mais pela duração esticada de 142 minutos. Há diálogos e personagens que poderiam ficar de fora: entre eles, a ótima Elizabeth Moss, que tem carisma mas é subaproveitada pela história. Até mesmo os momentos mais fortes parecem costurados ali, às vezes sem resolução. Contudo, The Square é fortalecido pelo urgente dilema que mencionei lá em cima. O humor é, muitas vezes, acertadíssimo. Explorando a falta de percepção e interpretação do público em relação às instalações artísticas de um museu, temos cenas engraçadíssimas envolvendo uma peça que consiste de diversas pilhas de cascalhos: a primeira consiste em uma dupla de amigos que, após alegarem falta de conhecimento sobre o artista, dão apenas uma olhada rápida e logo saem de quadro; a segunda, por sua vez, conta com um zelador que já não tem mais certeza do que é arte e o que é sujeira ali, sem saber o que limpar. O grande destaque, ainda assim, fica mesmo para a aclamada cena do homem-macaco, que age e provoca livremente em meio a um chique jantar cheio de figurões. É aqui que The Square se encontra em seu mais formidável, com Östlund navegando com naturalidade entre tons, indo do cômico ao angustiante. Sem um trecho tão seminal, duvido que teria levado a Palma de Ouro. Não à toa está tão destacado em cartazes e trailers. Há também outra divagação interessante, que surge com força no momento em que o curador do museu fala em uma coletiva de imprensa. De um lado, é condenado por uma senhora pelo mau gosto de sua nova instalação principal, enquanto de outro, é questionado por um jornalista por ceder ao desânimo do público, implicando uma forma de autocensura. Pois bem, poderia a arte caminhar na corda bamba e reconquistar o apreço popular sem recorrer a nenhuma forma de censura? Ironicamente, se os temas são afiados, o impacto do longa é diluído pelo roteiro de Östlund, que poderia criar uma narrativa mais ágil e ousada para Christian. No fim, The Square ao menos justifica sua existência por ser um filme destes tempos para estes tempos, questionando também nossa inércia coletiva em frente à desigualdade.

41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

The Square

Bom

60

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