Crítica: Trama Fantasma | Cinematecando

Posted On 19/02/2018 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: Trama Fantasma

Melhor enfermo que amaldiçoado

Em uma Londres dos anos 50, Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) se arruma logo pela manhã para um dia cheio de trabalho. Faz a barba, apara os pelos do nariz e orelhas, penteia seus cabelos para trás com firmeza e veste-se distintamente enquanto do lado de fora, nas ruas londrinas que mal amanheceram, um grupo de mulheres (na maioria, senhoras) vai adentrando a casa ateliê de Reynolds Woodcock. Ao descer as escadas em caracol, Reynolds cumprimenta suas assistentes e aprendizes, uma a uma. Estas se aprontam, vestem jalecos limpidamente brancos como se estivessem se preparando para uma complexa cirurgia. Os pacientes? Tecidos e rendas.

É desta maneira, pomposa e visualmente deslumbrante, que Paul Thomas Anderson nos apresenta a rotina da luxuosa casa ateliê The House of Woodcock, referência da alta costura londrina. O diretor americano não apenas eleva o trabalho do estilista e suas assistentes (além dos belos vestidos): mais que isso, ele dá ares etéreos a todo o ambiente através de imagens e da inspiradíssima trilha sonora composta por Jonny Greenwood, que está em sua quarta parceria ao lado do diretor.

Trama Fantasma, novo filme de um dos mais aclamados diretores dos últimos vinte anos, narra a história de Reynolds Woodcock, renomado estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril (Lesley Manville) vestindo nomes da realeza e da elite britânica. O estilista geralmente se inspira em algumas mulheres que entram e saem de sua vida, mas tudo isso muda radicalmente quando ele conhece a personalidade forte e charmosa de Alma (Vicky Krieps), agora, sua nova musa e amante.

Paul Thomas Anderson é daqueles diretores que depositamos alta expectativas. Não poderia ser diferente em Trama Fantasma. Há dez anos ele apresentou Sangue Negro ao mundo do cinema – seu primeiro trabalho ao lado de Day-Lewis, considerado por boa parte da classe de atores “o grande ator” por suas qualidades técnicas e também, viscerais. Inegável que a obra Sangue Negro, excepcional e espetacular como é, marca o espectador por meios emocionais e intelectuais. Este filme é considerado por muitos da crítica entre os dez melhores filmes deste século. Este redator também partilha da paixão existente pelo filme; se houver alguma palavra no vocabulário mais potencializada que ‘magnífico’, esta seria a palavra para definir Sangue Negro.

Para já amansar as expectativas, Trama Fantasma está longe de Sangue Negro. Mesmo assim, ainda são notáveis e virtuosas as escolhas que Anderson pratica aqui. Mise-en-scène, atores, dinâmica, trilha: todas alinhadas com um perfeccionismo sedutor. Os dez primeiros minutos do filme já se apresentam como uma grande chance para notar tais qualidades. Mas, talvez, o aspecto do filme que mais surpreenda o espectador seja o enredo, por duas vias: uma, pelo protagonismo na história, e a outra, pelo seu tema.

É quase lógico imaginar que um filme que possui um ator do calibre de Day-Lewis o utilizará no centro e tudo mais girando à sua volta. Aqui já temos a primeira surpresa. Em Trama Fantasma, há protagonismo dividido. No caso, com a personagem Alma, interpretada por Vicky Krieps. É sua personagem que conta a história de como é viver ao lado de um artista brilhante e perfeccionista como é Reynolds Woodcock. A atriz, nascida no país de Luxemburgo, surpreende muito e consegue bater de frente com alguém como Day-Lewis, estabelecendo sua presença com vigor. Curioso que o estilista é o artista perfeccionista e meticuloso, mas é Alma a mais ambiciosa.

A outra surpresa é o tema (certamente inesperado a alguns). Trama Fantasma é sobre a ‘maldição do artista’. No caso, o homem brilhante capaz de encantar a todos com seus talentos, mas que também é obsessivo-compulsivo em criar e trabalhar, como se não pudesse desligar sua mente, nunca, jamais. Resumindo: um artista amaldiçoado por suas virtudes (obs.: em uma cena, há um vestido de noiva sendo reajustado e Alma, que ajuda no processo, encontra do lado interno uma etiqueta com um escrito que mostra o que se passa na cabeça de Reynolds).

Alma é a contrabalança disso. Ela oferece a Reynolds afago, carinho e devoção quando este se encontra no seu estado mais vulnerável e inseguro, quase que como um menino necessitado da mãe. A relação dos dois, de altos e baixos, sempre tem um eixo de funcionamento, mesmo que este se dê em formas passionais distorcidas. Reynolds prefere a enfermidade que a maldição.

Vale ressaltar também o estupendo trabalho da atriz Lesley Manville. Rígida, seca, mas capacitada em tenência. Ao lado de Alma, ela é a outra referência feminina na vida de Reynolds Woodcock (obs.: ela tem poucas, mas as melhores falas do filme).

Aparentemente, Trama Fantasma foi escolhido por Daniel Day-Lewis como seu último trabalho, já que pretende se aposentar. Lembremos que o ator inglês já se “aposentou” uma vez, logo após o filme The Boxer, até Martin Scorsese o convencer a fazer Gangues de Nova York.

Conversando com um amigo, também crítico de cinema, que admiro e respeito, falávamos sobre atores inseguros. Recentemente, em uma entrevista de Gary Oldman (também concorrendo ao Oscar por O Destino de uma Nação), este admitiu ser uma pessoa muito insegura sobre como vê seu trabalho, ao ponto de quase entrar em pânico antes das filmagens de um filme começar. Este amigo apresentou uma teoria que concordo em todos os sentidos, e disse que, talvez, Daniel Day-Lewis seja o mais inseguro dos atores, pois é muito mais seletivo nos filmes que escolhe atuar, além do tempo de preparação extenso que as vezes pede a diretores e produtores (ex.: quase um ano para construir o personagem de Sangue Negro).

Assim, se Trama Fantasma for realmente seu último filme, Daniel Day-Lewis escolheu, em seu último papel, um personagem que é seu próprio reflexo: perfeccionista e inseguro. E talvez seja apenas isto o necessário (emocionalmente falando) para um ator/atriz. Pois o grande ator/atriz vê, nesta disparidade, todos os caminhos e oportunidades para criar. Sendo assim, Daniel Day-Lewis nos enriqueceu, deslumbrou e assustou como poucos.

Muito obrigado, Daniel Day-Lewis. Se sentir saudades… volte!

FICHA TÉCNICA
Título Original: Phantom Thread
Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson
Produção: Annapurna Pictures; Ghoulardi Film Company; Perfect World Pictures
Edição: Dylan Tichenor
Gênero: Romance/Drama
País: Estados Unidos
Ano: 2017
Duração: 130 Minutos
Elenco: Daniel Day-Lewis (Reynolds Woodcock); Lesley Manville (Cyril Woodcock); Vicky Krieps (Alma Elson)

Melhor enfermo que amaldiçoado Em uma Londres dos anos 50, Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) se arruma logo pela manhã para um dia cheio de trabalho. Faz a barba, apara os pelos do nariz e orelhas, penteia seus cabelos para trás com firmeza e veste-se distintamente enquanto do lado de fora, nas ruas londrinas que mal amanheceram, um grupo de mulheres (na maioria, senhoras) vai adentrando a casa ateliê de Reynolds Woodcock. Ao descer as escadas em caracol, Reynolds cumprimenta suas assistentes e aprendizes, uma a uma. Estas se aprontam, vestem jalecos limpidamente brancos como se estivessem se preparando para uma complexa cirurgia. Os pacientes? Tecidos e rendas. É desta maneira, pomposa e visualmente deslumbrante, que Paul Thomas Anderson nos apresenta a rotina da luxuosa casa ateliê The House of Woodcock, referência da alta costura londrina. O diretor americano não apenas eleva o trabalho do estilista e suas assistentes (além dos belos vestidos): mais que isso, ele dá ares etéreos a todo o ambiente através de imagens e da inspiradíssima trilha sonora composta por Jonny Greenwood, que está em sua quarta parceria ao lado do diretor. Trama Fantasma, novo filme de um dos mais aclamados diretores dos últimos vinte anos, narra a história de Reynolds Woodcock, renomado estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril (Lesley Manville) vestindo nomes da realeza e da elite britânica. O estilista geralmente se inspira em algumas mulheres que entram e saem de sua vida, mas tudo isso muda radicalmente quando ele conhece a personalidade forte e charmosa de Alma (Vicky Krieps), agora, sua nova musa e amante. Paul Thomas Anderson é daqueles diretores que depositamos alta expectativas. Não poderia ser diferente em Trama Fantasma. Há dez anos ele apresentou Sangue Negro ao mundo do cinema - seu primeiro trabalho ao lado de Day-Lewis, considerado por boa parte da classe de atores "o grande ator" por suas qualidades técnicas e também, viscerais. Inegável que a obra Sangue Negro, excepcional e espetacular como é, marca o espectador por meios emocionais e intelectuais. Este filme é considerado por muitos da crítica entre os dez melhores filmes deste século. Este redator também partilha da paixão existente pelo filme; se houver alguma palavra no vocabulário mais potencializada que ‘magnífico’, esta seria a palavra para definir Sangue Negro. Para já amansar as expectativas, Trama Fantasma está longe de Sangue Negro. Mesmo assim, ainda são notáveis e virtuosas as escolhas que Anderson pratica aqui. Mise-en-scène, atores, dinâmica, trilha: todas alinhadas com um perfeccionismo sedutor. Os dez primeiros minutos do filme já se apresentam como uma grande chance para notar tais qualidades. Mas, talvez, o aspecto do filme que mais surpreenda o espectador seja o enredo, por duas vias: uma, pelo protagonismo na história, e a outra, pelo seu tema. É quase lógico imaginar que um filme que possui um ator do calibre de Day-Lewis o utilizará no centro e tudo mais girando à sua volta. Aqui já temos a primeira surpresa. Em Trama Fantasma, há protagonismo dividido. No caso, com a personagem Alma, interpretada por Vicky…

Trama Fantasma

Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia

Excelente

90

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