Sessão da meia-noite: Abaixo o Amor

Sessão da meia-noite: Abaixo o Amor

por Gabriel Campos

Se você é como eu e sofre com a insônia, já deve ter percebido que a madrugada é uma excelente amiga daquela sensação de “ah, vou ligar a TV um pouquinho só pra ver o que está passando”. Numa dessas você pode acabar assistindo a seis horas ininterruptas de leilão de gado no Canal Rural ou, se estiver com sorte, alguma sessão Corujão que vai te trazer algo surpreendente.

Lembro que foi no ano de 2005, uma noite antes do meu aniversário, que a TV Cultura passou uma versão dublada do filme Pillow Talk (Confidências à Meia-Noite). Em poucos minutos, eu já estava com a cara quase grudada no meu televisor.

Pôster original do filme Pillow Talk
Pôster original do filme Pillow Talk

Esse foi o começo da minha obsessão por filmes dos anos 50 com o enredo deliciosamente clichê: a mocinha, loira, linda e delicada, se apaixona perdidamente pelo bonitão cafajeste. Aí a mocinha cai na real, dá um pé na bunda do cara e depois o garanhão volta com o rabo entre as pernas, mas sem perder a canalhice. Doris Day foi a primeira ‘santinha’ do cinema. Rock Hudson era o macho alfa (apesar das más línguas dizerem que não era dessa fruta que ele gostava). Juntos, o casal fez o mundo suspirar pela possibilidade do amor inocente e puro surgir entre duas forças opostas.

Minha avó amava Doris Day porque ela era a imagem da mulher perfeita aos olhos da sociedade. Minha mãe odiava essa atriz exatamente pelos mesmos motivos.

Enfim, algum tempo depois, estava conversando com um amigo a respeito de Pillow Talk enquanto nós fumávamos do lado de fora de um bar na praça Roosevelt e um grupo de garotas entrou no papo. Uma delas morava ali por perto e nos convenceu a ir visitar o seu apartamento prometendo uma surpresa. Chegando lá, descobrimos que era para assistir a um tal de Abaixo o Amor.

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Eu não sei nem por onde começar a dizer o quanto eu amo tudo o que está nessas duas horas de filme.

Ewan McGregor, que é um cara bonitão, mas que não chega nem aos pés do charme do Rock Hudson, tem total noção de que ele está desempenhando um papel caricato e faz questão de brincar com isso. Suas caras e bocas são impagáveis. Tem momentos em que um simples olhar ou uma pausa de Catcher Block, personagem que ele interpreta, me faz rir absurdamente alto. Ele vai de galã Hollywoodyano ao Zé Bonitinho em questão de segundos. Um canalha com C maiúsculo.

Renée Zellweger desfila as roupas mais legais com os penteados mais bacanas a cada segundo que aparece. Sua atuação não perde em nada comparado a de Ewan, muito pelo contrário. Ela colocou tantos clichês em sua personagem que, de um modo muito peculiar, funcionou. Ela acertou em cheio ao alterar o tom de voz para uma versão mais aguda e sussurrada, forçando o arquétipo Marilyn Monroe, mas com um ‘quê’ de deboche.

A melhor sacada disso tudo foi colocar uma lente de aumento nos filmes de Doris e Hudson, porém dando destaque a personagem Barbara Novak (Zellweger) como uma mulher independente, sexual e sem medo de por o dedo na cara de quem duvide disso – coisa que faria os executivos de qualquer estúdio de cinema berrarem de indignação nos anos 50. Fico imaginando o reboliço que a imprensa da época faria ao perceber que a personagem principal do filme defende que mulheres não tenham medo de experimentar diferentes parceiros na hora H.

Abaixo o Amor termina com um musical delicioso que me faz querer dançar toda a vez que eu assisto. Ideal para juntar os amigos ou chamar o crush para um cineminha particular, essa história faz com que todo mundo termine de assistir com vontade de dar uns amassos em alguém… Exatamente como aconteceu comigo naquele dia da Praça Roosevelt.

Tá esperando o que? Tem na Netflix.

Musical Here’s to Love do filme Abaixo o Amor.

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Redação

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