Posted On julho 5, 2016 By In Artigos, Filmes

Tributo ao cineasta Abbas Kiarostami

Hoje faz uma semana que escrevi minha primeira review para o Cinematecando. Nesse curto espaço de tempo, perdemos no final de semana que se passou, o emblemático cineasta Michael Cimino de O Franco Atirador. Agora, um dos maiores artesãos da história do cinema também nos deixou, Abbas Kiarostami.

Através do Cinematecando, gostaria de deixar a minha versão de como foi que conheci o trabalho desse magnífico diretor iraniano.

Em 2011, quando resolvi buscar formas e visões diferenciadas sobre cinema além de sua história e linguagem, tive uma aula de um curso de um respeitado crítico, Inácio Araújo. Nessa aula, assistiríamos e conversaríamos sobre o filme Onde Fica a Casa do Meu Amigo? de Abbas Kiarostami.

Sem entrar nos detalhes de como funcionou a discussão em consequência do filme, e atendo-me mais à minha visão sobre esta sessão, se eu pudesse definir com poucas, ou até uma palavra, a minha percepção e sensação após o termino, esta seria ‘maravilhado’.

Digo a mim mesmo que não é possível assistir um filme de Clint Eastwood e sentir-se o mesmo, seja racionalmente ou emocionalmente. Isso também vale para Kiarostami.

Talvez, se eu apenas descrever a sinopse do filme, não entendam o por quê de tanto barulho que faço a esse diretor, mas aqui vai! Onde Fica a Casa do Meu Amigo? narra a história de um menino, Ahmed, que ao chegar em casa da escola, percebe que acidentalmente pegou o caderno de seu amigo, e sabendo que seu amigo pode ser expulso da escola na próxima aula caso não entregar a lição de casa, Ahmed sai em busca de tentar devolver o caderno para seu amigo antes que o pior aconteça.

Sinopse descrita! Não parece que é muito para elevar esse cineasta a níveis tão altos, mas é!

Ao longo dos oitenta e três minutos de filme é acompanhada a ‘jornada’ penosa e cruel, mas bela, que Ahmed testemunhará para tentar cumprir sua missão. Nessa jornada, Ahmed transitará entre vilarejos na zona rural do Irã, se deparando com desafios da cultura e crença tradicional do país.

Dentro dessa “simplicidade” é que Kiarostami têm brilhado entre nós, aficionados por cinema. Um exemplar narrador quase documental com uma distinta maneira de contar suas histórias de estruturas incomuns, além de surpreendentes. Seus filmes estimulam uma narrativa que mais levanta questões do que as responde, mas, ao mesmo tempo, enobrece o que está lá fora, aproximando-nos da vida, valorizando-a mesmo que não a compreendamos.

Essas técnicas e os recorrentes temas de Kiarostami tornam-o singular e especial no hall dos grandes cineastas. Um poeta iraniano, um minimalista que joga luz e empurra às sombras certos elementos. A ambiguidade entre documentário e ficção estabelecida, que casa com a temática de vida e morte em seus filmes, que não ficam opostas, mas profundamente envolvidas uma a outra, afetando o significado uma da outra: isso é Abbas Kiarostami!

Na minha busca sobre ele e seu trabalho, deparei-me com uma frase dele que diz: ‘We can never get close to the truth except through lying’ (Nós nunca conseguimos chegar perto da verdade exceto através da mentira). Talvez, nessa frase, consigamos perceber a tal ambiguidade de seu cinema que encantou e maravilhou a muitos, assim como eu.

Descanse em paz, Abbas Kiarostami.

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Colunista do Cinematecando | Roteirista, 28 anos, aficionado por cinema e tudo que o envolve. Formado em Gastronomia pela Universidade Anhembi Morumbi em 2008, exerci a profissão mas mantive aquele affair com a telona, que nunca me abandonou. Desde a adolescência sempre gostei de escrever, mas nunca tive o ímpeto de acreditar que viraria alguma coisa além de um hobby, mas virou. Uma vez que se assiste um filme de Clint Eastwood, não se pode voltar para trás. Pelo menos, foi isso o que aconteceu comigo.