Posted On 16/06/2017 By In Críticas - Séries, Séries

Crítica: The Leftovers

Bom, cá estamos. The Leftovers, uma das melhores séries da HBO, teve seu final há quase duas semanas atrás, após três temporadas. É realmente intimidador expressar opiniões acerca de uma história tão única e subversiva, mas não custa tentar, então lá vai: para falarmos de The Leftovers, é essencial voltar aonde tudo começou. Este é, em base, um texto cujo foco recai sobre a terceira temporada da série, porém suas precursoras são igualmente dignas de atenção e reconhecimento.

29 de Junho de 2014. Damon Lindelof, Peter Berg e Tom Perrotta lançam sua misteriosa série, divulgada das semanas que antecedem com trailers elusivos ao som da música Retrograde, de James Blake. O tom, logo de início, é soturno, talvez até demais para o público das séries de domingo. Sabe-se que, há 3 anos, 2% da população mundial desapareceu em um piscar de olhos, e nada mais. A temporada avança e o enredo ganha cada vez mais peso dramático, com protagonistas problemáticos como Kevin (Justin Theroux), Nora (Carrie Coon) Jill (Margaret Qualley), Laurie (Amy Brenneman) e Matt (Christopher Eccleston), habitantes da cidade de Mapleton, todos enfrentando esse assustador novo mundo. Trocando de marcha, em seu penúltimo episódio, o público é introduzido ao passado dos personagens, no dia do evento. Enfim um momento de normalidade, que, apesar de breve, reforça empatia. O final, então, nos leva de volta ao presente, agora com um maior envolvimento, culminando em um encerramento catártico.

A primeira temporada de The Leftovers é adaptada do livro de seu co-criador Tom Perrotta, Os Deixados Para Trás, com algumas diferenças em relação a elenco e mitologia. Sua adaptação televisiva, pelo fim dos primeiros dez capítulos, já havia coberto toda a narrativa de sua contraparte literária. Portanto, acreditava-se ser uma minissérie.

No entanto, para a surpresa de todos, Perrotta, Lindelof e a diretora Mimi Leder, que se destacou na primeira temporada, juntaram-se novamente para criar uma nova temporada inteiramente original. O medo era grande, até porque Damon Lindelof já tropeçou anteriormente ao tentar estender um conceito além de sua capacidade. Felizmente, as preocupações se provaram inválidas.

4 de Outubro de 2015. Os créditos de abertura da série, antes sinistros em sua atmosfera apocalíptica, são reinventados em algo sereno, pacato até, sob o som de Let the Mystery Be, da artista folk Iris DeMent. Logo após os letreiros, outra surpresa: 1 ano se passou e nada dos protagonistas Kevin, Nora, Laurie, Jill ou Matt. Acompanhamos a família Murphy, John (Kevin Carrol), Erika (Regina King), Evie (Jasmin Savoy Brown) e Michael (Jovan Adepo). Vivem na cidadezinha de Jarden, também apelidada de Miracle devido ao fato de nenhum de seus habitantes ter desaparecido durante o misterioso evento que é o centro da série. Vemos mais um ambiente familiar em frangalhos, mas não tarda até que, ao fim do primeiro capítulo, Kevin e Nora, que se mudaram de Mapleton, deem as caras.

No que é, na opinião de muitos, a melhor temporada de série, a tríplice Perrotta/Lindelof/Leder, com o apoio de outros excelentes diretores, como Nicole Kassel e principalmente Craig Zobel, The Leftovers se tornou ainda mais especial. Com um tom mais dinâmico e um elenco ainda maior, a série criou novas e fascinantes mitologias, além de ter um sucesso maior em emocionar seu público com os arcos pessoais de cada personagem. Mais impressionante ainda são seus episódios finais, que trazem um turbilhão de ideias e sentimentos nunca vistos ou sentidos antes em uma série de TV (ao menos por quem escreve). Pontuada por um final imensamente digno, a segunda temporada, caso fosse sua última, teria sido uma brilhante despedida para The Leftovers e seu rico elenco.

Apesar da ótima recepção crítica, a série da HBO não foi lembrada nas grandes premiações por nenhuma de suas duas temporadas, nem mesmo pelas excelentes interpretações de Theroux, Coon, Eccleston, Brenneman ou King. Teria sido mais um grande esforço do canal a cabo a terminar na surdina.

Teria, afinal a HBO tomou, em 2016, a inusitada decisão de renovar a série para uma terceira e última temporada, que vos leva a esse texto. Antes mesmo de sua estreia na TV, a nova temporada já rendeu críticas intensamente positivas da imprensa especializada, com uma pontuação de 98 no site agregador Metacritic. Parecia, enfim, que The Leftovers tirou a sorte grande em sua terceira tentativa para se tornar uma sensação da Peak TV. Conseguiu, de fato?

Em uma era na qual as mais duradouras séries apostam em fórmulas batidas e as mais arriscadas sofrem o risco de cancelamento (ou um final decepcionante, como a audaciosa Penny Dreadful), The Leftovers pode ser muito bem considerada como um milagre televisivo. OK, foi apenas uma tirada, pois na realidade, Damon Lindelof e a HBO aprenderam com seus erros passados e optaram pela sensatez. Com números de audiência ínfimos, focaram no público que já tinham, apostando também na qualidade que tanto agrada os críticos.

16 de Abril de 2017. Uma data para a qual se espera um colosso como Game of Thrones. Nada disso. Com o adiamento da nova temporada da fantasia medieval, The Leftovers toma o honrado posto para encerrar a trama que começou há quase três anos. Ironicamente, o capítulo inicial da temporada apresenta um pulo temporal de três anos ao futuro, com um mundo ainda mais distorcido que o visto nas duas primeiras levas, com a paranoia crescente para o aniversário de 7 anos da “partida”. Um pulo de tempo planejado ou uma maneira de adiantar a história da série? Não se sabe, mas a longo prazo, o truque funciona horrores.

Kevin e Nora agora vivem um relacionamento frágil, enquanto Laurie e John Murphy estão juntos, para a surpresa de todos. Matt, que encontrava forças em sua religiosidade, agora tem nela sua maior fraqueza, com delírios crescentes e a crença de que Kevin é de fato um novo messias. Erika e Jill ficam de fora pela grande parte da temporada, para o desagrado de muitos. A escolha, no entanto, é compreensível dada a pequena janela de tempo para amarrar uma história tão ambiciosa.

Como “novo” rosto, o pai de Kevin, Sr., tem maior destaque agora do que antes. Participante ativo nesse último ato, o personagem interpretado pelo excepcional Scott Glenn ganha nova dimensão e, com isso, sua relação com o filho. Além disso, Sr. é indiretamente responsável por reunir o elenco desta temporada na nova e deslumbrante locação que é a Austrália. É algo realmente gratificante ver que Lindelof e Perrotta encontraram tantas funções para um de seus personagens mais misteriosos.

Ainda assim, o foco aqui é em Kevin e Nora, ambos com seus dilemas específicos, construídos ao longo de toda a série. O primeiro deve viver com suas dádivas, simultaneamente uma benção e uma maldição, enquanto sua parceira confronta seu papel de “estraga-prazeres” das novas crenças e o desejo por respostas quando ao desaparecimento de sua família. Inicialmente, o atrito entre os dois não aparenta tão orgânico, com episódios que soam mais redundantes do que esclarecedores, mas até o final da temporada, seus arcos seguem em direções que justificam suas escolhas, ilógicas à primeira vista.

Ilógicos, de início, também são os arcos de Laurie e Matt, que tomam decisões questionáveis e nada naturais ao longo da temporada, mas estes, também, tem suas histórias encerradas com dignidade no capítulo final da série.

Para apreciar os acertos desta temporada, é necessário vê-la em sua integridade. Confesso que, durante as últimas semanas, me encontrei cada vez mais perplexo com a tamanha aclamação crítica recebida por uma temporada que, assumidamente, comete alguns tropeços. Para a minha alegria, o capítulo final, que remete à cena mais inquietante do início da temporada, é de uma simplicidade brilhante, confiando 100% no poder de sugestão dos excelentes diálogos e interpretações. Indo na direção oposta da controversa conclusão de Lost, inchada e confusa, The Leftovers encerra sua jornada com sinceridade.

Damon Lindelof, Tom Perrotta e Mimi Leder provam que entendem cada um de seus personagens muito bem. Por apostarem desde o início no mistério que é intrínseco à vida, inclusive a de seus espectadores, encontram e presenteiam com o maior desejo de Kevin, Nora ou Laurie: catarse. E é com catarse que The Leftovers conquistou nossos corações e se despede, preparando-nos para uma nova e inquietante era.

Todos os episódios já estão disponíveis na HBO GO e NET Now para assinantes do pacote HBO. 

Bom, cá estamos. The Leftovers, uma das melhores séries da HBO, teve seu final há quase duas semanas atrás, após três temporadas. É realmente intimidador expressar opiniões acerca de uma história tão única e subversiva, mas não custa tentar, então lá vai: para falarmos de The Leftovers, é essencial voltar aonde tudo começou. Este é, em base, um texto cujo foco recai sobre a terceira temporada da série, porém suas precursoras são igualmente dignas de atenção e reconhecimento. 29 de Junho de 2014. Damon Lindelof, Peter Berg e Tom Perrotta lançam sua misteriosa série, divulgada das semanas que antecedem com trailers elusivos ao som da música Retrograde, de James Blake. O tom, logo de início, é soturno, talvez até demais para o público das séries de domingo. Sabe-se que, há 3 anos, 2% da população mundial desapareceu em um piscar de olhos, e nada mais. A temporada avança e o enredo ganha cada vez mais peso dramático, com protagonistas problemáticos como Kevin (Justin Theroux), Nora (Carrie Coon) Jill (Margaret Qualley), Laurie (Amy Brenneman) e Matt (Christopher Eccleston), habitantes da cidade de Mapleton, todos enfrentando esse assustador novo mundo. Trocando de marcha, em seu penúltimo episódio, o público é introduzido ao passado dos personagens, no dia do evento. Enfim um momento de normalidade, que, apesar de breve, reforça empatia. O final, então, nos leva de volta ao presente, agora com um maior envolvimento, culminando em um encerramento catártico. A primeira temporada de The Leftovers é adaptada do livro de seu co-criador Tom Perrotta, Os Deixados Para Trás, com algumas diferenças em relação a elenco e mitologia. Sua adaptação televisiva, pelo fim dos primeiros dez capítulos, já havia coberto toda a narrativa de sua contraparte literária. Portanto, acreditava-se ser uma minissérie. No entanto, para a surpresa de todos, Perrotta, Lindelof e a diretora Mimi Leder, que se destacou na primeira temporada, juntaram-se novamente para criar uma nova temporada inteiramente original. O medo era grande, até porque Damon Lindelof já tropeçou anteriormente ao tentar estender um conceito além de sua capacidade. Felizmente, as preocupações se provaram inválidas. 4 de Outubro de 2015. Os créditos de abertura da série, antes sinistros em sua atmosfera apocalíptica, são reinventados em algo sereno, pacato até, sob o som de Let the Mystery Be, da artista folk Iris DeMent. Logo após os letreiros, outra surpresa: 1 ano se passou e nada dos protagonistas Kevin, Nora, Laurie, Jill ou Matt. Acompanhamos a família Murphy, John (Kevin Carrol), Erika (Regina King), Evie (Jasmin Savoy Brown) e Michael (Jovan Adepo). Vivem na cidadezinha de Jarden, também apelidada de Miracle devido ao fato de nenhum de seus habitantes ter desaparecido durante o misterioso evento que é o centro da série. Vemos mais um ambiente familiar em frangalhos, mas não tarda até que, ao fim do primeiro capítulo, Kevin e Nora, que se mudaram de Mapleton, deem as caras. No que é, na opinião de muitos, a melhor temporada de série, a tríplice Perrotta/Lindelof/Leder, com o apoio de outros excelentes diretores, como Nicole…

The Leftovers

1a. Temporada
2a. Temporada
3a. Temporada

Excelente

90

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