Rebobinando: A Princesa e o Plebeu (1953) | Cinematecando

Posted On 30/11/2016 By In Filmes, Rebobinando

Rebobinando: A Princesa e o Plebeu (1953)

Há filmes que nos sensibilizam sem a necessidade de uma reflexão profunda por trás de suas cenas, sem precisar jogar para o espectador elementos difíceis de digerir. Esses filmes simplesmente trazem uma história atraente, com atuações genuínas e diálogos expressivos, e que no fim encantam nossos sentidos e provocam nossas emoções mais verdadeiras. O obra-prima de hoje é um modelo exemplar de como é possível promover reflexões de maneira sutil.

A PRINCESA E O PLEBEU (1953)

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Se existe uma tarefa difícil para o público do cinema clássico, é não se deixar levar pelas interpretações comoventes de talentosos atores que representaram o que de melhor possuiu a tão famosa “Era de Ouro” de Hollywood. O filme da vez foi dirigido por um grande nome do cinema americano, o famoso William Wyler, que nesta obra soube dar vida às ruas de Roma com sua direção apurada, dispondo de enquadramentos elegantes e muita movimentação de câmera, que transmite bem as belas paisagens da cidade italiana.

Essa ilustre comédia romântica gira em torno de Ann (Audrey Hepburn), uma princesa moderna, que se rebela contra seus deveres reais, para se aventurar em Roma por conta própria. Lá, conhece Joe Bradley (Gregory Peck), um jornalista americano em busca de uma reportagem exclusiva, que finge não saber a sua verdadeira identidade. Mas sua intenção se desfaz quando eles passam a se conhecer melhor.

Audrey Hepburn (uma das maiores expoentes do feminismo no cinema), que recebeu seu único Oscar e seu único Globo de Ouro por este filme, demonstra através de suas expressões faciais e gestuais, toda angústia de uma mulher presa aos costumes e responsabilidades de uma realeza, buscando apenas se divertir, esquecer seus problemas e quem sabe viver um grande amor durante um dia. Apesar da atriz roubar a cena em vários momentos, Gregory Peck não deixa a desejar em sua atuação de um homem com segundas intenções que se deixa levar pela graciosidade de uma princesa.

O filme quebra alguns padrões da época, como o papel da mulher submissa (podemos ver a princesa assumindo a direção do veículo de Joe, batendo em homens, etc) e o clichê do juntos para sempre. Não são só as paisagens que mesmo em preto e branco fazem nossos olhos brilhar, o figurino exemplar também é essencial à obra, tornando a obra autêntica e original. Os personagens são bem arquitetados, demonstrando suas sensações com facilidade, inclusive Irving (Eddie Albert), amigo de Joe que contribui para a diversão como fotógrafo. É uma obra em que a comédia, que mescla-se com o romance deliciosamente.

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O que também atrai a atenção do espectador, é o roteiro de Dalton Trumbo, capaz de incluir acontecimentos chocantes e também meras cenas despretensiosas, que servem para realçar o naturalismo do filme. Quem ao mesmo tempo se torna presente e marcante, é a trilha sonora com lindas músicas que se apoiam em uma história original emocionante, responsável por deixar o espectador esperançoso em vários momentos. Há cenas curiosas que questionam a imagem que possuimos de uma princesa, como quando vemos a princesa tomando um sorvete de casquinha em um lugar movimentado, ou quando a vemos aceitar um cigarro de Irving, dizendo ser seu primeiro cigarro.

Uma bela cena é a dança de Ann e Joe, que embora seja apenas uma dança, podemos ver por meio do olhar da princesa e de seu leve sorriso de boca, a imensa satisfação em desfrutar de uma dança ao lado de um homem galante, e colher os frutos de sua sábia decisão em fugir de sua conturbada vida. Além disso, é possível sentir naquele momento, a paixão que cresce entre os dois personagens, que sem beijos ou falas expositivas como “eu te amo”, anuncia os sentimentos de ambos apenas com as expressões faciais definidas dos atores.

Atualmente, são raras as comédias românticas que abusam da simplicidade para atingir seus objetivos. Vemos vários enfoques nos diálogos de conteúdo escrachado, porém sem nenhuma base emocional por trás, o que é ruim tanto para a qualificação da obra, como para tornar o filme vivo na cabeça do público por um bom tempo. Em minha humilde visão, o público popular dos dias atuais precisam começar a enxergar a qualidade tão latente dos clássicos do cinema hollywoodiano. E os novos cineastas que amam produzir filmes de comédia deveriam se inspirar no que o cinema clássico vinha fazendo há tempos atrás, e dar uma continuidade à carga romântica que essas cômicas obras possuíam.

Com exceção de poucas, as comédias populares de hoje em dia são esquecidas em um instante, além de serem completamente desvalorizadas pela crítica profissional, o que envergonharia seriamente mestres da comédia pastelão como Charlie Chaplin e Buster Keaton, que sabiam controlar perfeitamente as doses de comédia e romance em suas produções. A Princesa e o Plebeu conserva o que de mais envolvente se vê em comédias românticas clássicas.

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