42ª Mostra - Crítica: Culpa | Cinematecando

Posted On 22/10/2018 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

42ª Mostra – Crítica: Culpa

Bomba-relógio minimalista

culpa critica

O cineasta estreante Gustav Möller não precisou de muitos elementos para construir um thriller explosivo. Há basicamente um único cenário e um único ator em cena durante Culpa, que se passa em tempo real.

Estamos no meio do plantão da central de emergências da cidade de Copenhague, capital da Dinamarca. O policial Asger Holm (Jakob Cedergren) está na véspera de ir a julgamento, por motivo que só será revelado mais adiante, responde de forma ríspida quando é abordada por uma jornalista para falar sobre o caso e está visivelmente incomodado em ter sido posto na geladeira, afastado do trabalho nas ruas para atender chamadas no escritório.

Seu estado de estresse piora quando recebe a ligação de uma mulher, que liga para a polícia fingindo estar falando com a filha, enquanto informa secretamente estar sendo raptada pelo ex-marido. Com poucas informações à disposição, Asger passa então a tentar ajudá-la, de forma desesperada. O filme é o retrato desta situação angustiante de correr contra o tempo em busca de dados que possam fazer com que seus colegas encontrem a vítima antes que o pior aconteça.

Para quem conhece a realidade brasileira, é até estranho pensar na quantidade de minutos que Asger pode se dedicar àquele caso específico. Mas Copenhague é, de fato, uma das cidades com menor índice de violência no mundo. Isto significa que o telefone daquele escritório não toca toda hora.

Aliás, Culpa sabe usar muito bem este ambiente silencioso e confia nele como um dos ingredientes para causar tensão. Não há nem trilha sonora. Por isso, o coração dispara ao som de cada ligação, que vem acompanhada de uma luz vermelha radiante em cima da estação de trabalho do protagonista.

A atuação de Cedergren (visto anos atrás em Submarino, de Thomas Vintenberg) é completamente hipnótica. Mesmo sentado quase o tempo inteiro, é possível notar sua agitação nos detalhes do olhar e no suor que escorre de seu rosto. Sua atuação lembra a de Tom Hardy no ótimo e pouco visto Locke, já que ambos os filmes são centrados num único homem que tem contato com o mundo exterior apenos pelo telefone durante o período que está em cena.

Além de toda a habilidade narrativa, os desdobramentos do roteiro escrito por Möller em parceria com Emil Nygaard Albertsen levantam questionamentos sobre a forma em que decidimos intervir diante de situações, muitas vezes com a melhor das intenções, mas sem saber o todo antes de tomarmos atitudes. Um dilema que torna Culpa extremamente humano, assim como o próprio substantivo que dá título ao filme.

Bomba-relógio minimalista O cineasta estreante Gustav Möller não precisou de muitos elementos para construir um thriller explosivo. Há basicamente um único cenário e um único ator em cena durante Culpa, que se passa em tempo real. Estamos no meio do plantão da central de emergências da cidade de Copenhague, capital da Dinamarca. O policial Asger Holm (Jakob Cedergren) está na véspera de ir a julgamento, por motivo que só será revelado mais adiante, responde de forma ríspida quando é abordada por uma jornalista para falar sobre o caso e está visivelmente incomodado em ter sido posto na geladeira, afastado do trabalho nas ruas para atender chamadas no escritório. Seu estado de estresse piora quando recebe a ligação de uma mulher, que liga para a polícia fingindo estar falando com a filha, enquanto informa secretamente estar sendo raptada pelo ex-marido. Com poucas informações à disposição, Asger passa então a tentar ajudá-la, de forma desesperada. O filme é o retrato desta situação angustiante de correr contra o tempo em busca de dados que possam fazer com que seus colegas encontrem a vítima antes que o pior aconteça. Para quem conhece a realidade brasileira, é até estranho pensar na quantidade de minutos que Asger pode se dedicar àquele caso específico. Mas Copenhague é, de fato, uma das cidades com menor índice de violência no mundo. Isto significa que o telefone daquele escritório não toca toda hora. Aliás, Culpa sabe usar muito bem este ambiente silencioso e confia nele como um dos ingredientes para causar tensão. Não há nem trilha sonora. Por isso, o coração dispara ao som de cada ligação, que vem acompanhada de uma luz vermelha radiante em cima da estação de trabalho do protagonista. A atuação de Cedergren (visto anos atrás em Submarino, de Thomas Vintenberg) é completamente hipnótica. Mesmo sentado quase o tempo inteiro, é possível notar sua agitação nos detalhes do olhar e no suor que escorre de seu rosto. Sua atuação lembra a de Tom Hardy no ótimo e pouco visto Locke, já que ambos os filmes são centrados num único homem que tem contato com o mundo exterior apenos pelo telefone durante o período que está em cena. Além de toda a habilidade narrativa, os desdobramentos do roteiro escrito por Möller em parceria com Emil Nygaard Albertsen levantam questionamentos sobre a forma em que decidimos intervir diante de situações, muitas vezes com a melhor das intenções, mas sem saber o todo antes de tomarmos atitudes. Um dilema que torna Culpa extremamente humano, assim como o próprio substantivo que dá título ao filme.

Culpa

Cotação

Excelente

Um exercício de tensão com poucos recursos, marcada por ótima atuação e fortes dilemas em seu subtexto

100

Crítico de cinema, roteirista e diretor. Pós-graduado em Jornalismo Cultural. Além do Cinematecando, é colunista do Yahoo! Brasil