As Boas Maneiras: entrevista com os diretores Juliana Rojas e Marco Dutra | Cinematecando

Posted On 08/06/2018 By In Filmes

As Boas Maneiras: entrevista com os diretores Juliana Rojas e Marco Dutra

Cineastas graduados pela Universidade de São Paulo (USP), Juliana Rojas e Marco Dutra formaram uma parceria duradoura, com o suspense Trabalhar Cansa (2011) sendo o primeiro longa-metragem que dirigiram juntos. Os dois fazem parte do Filmes do Caixote, coletivo de cineastas que inclui nomes como Caetano Gotardo e Sérgio Silva, e também realizaram filmes solo de sucesso: Quando Eu Era Vivo (2014) e O Silêncio do Céu (2016), de Dutra, e Sinfonia da Necrópole (2014), de Rojas. A dupla voltou a dividir a direção com o premiado As Boas Maneiras, que conta a história de Clara, uma enfermeira que, ao ser contratada como empregada por Ana, uma mulher grávida e reclusa, presencia fenômenos noturnos estranhos que acabam por mudar o curso de sua vida.

Conversamos com os dois sobre a experiência de criarem juntos, o trabalho com os elementos de gênero na trama e as possíveis conexões entre os Filmes do Caixote.

Imagem de Marco Dutra e Juliana Rojas


As Boas Maneiras talvez seja seu projeto mais arriscado e o roteiro esteve em desenvolvimento por anos. Durante o processo criativo, vocês estabelecem algum limite em relação aos temas que serão abordados, as mudanças de tom e as situações mais fantásticas do enredo?

Juliana e Marco: O limite é que não tem limite!

(risos)

E cada um de vocês tem suas particularidades em suas visões. Como é a relação de trabalhar a aliança das duas visões na direção e no roteiro?

Juliana: É difícil racionalizar isso, porque de certa forma é muito intuitivo e ligado às necessidades da história, pela lógica das personagens e dos sentimentos delas. Nós dois temos uma ideia muito flexível de gênero, e isso está presente desde os nossos primeiros trabalhos. Tanto que temos relação com uma companhia que trabalha com teatro épico, então também gostamos de trabalhar distanciamento e uso de músicas. Mesmo os filmes dos quais gostamos desde criança, como os filmes da Disney, transitam entre momentos de horror, de amor, de comédia, e a narrativa pode ser conduzida por números musicais conectados à trama. Então para nós é muito natural tomar essas liberdades. É a história que nos diz o que fazer. E com certeza a gente se arriscou muito no filme, pois o tempo todo fazíamos as coisas sem ter certeza de que daria certo. No momento que o filme estreou para o público, não sabíamos a reação, porque é um filme muito estranho e peculiar, mas eu acho que ele pega as pessoas por essa parte emocional e faz com que elas aceitem todos esses registros diferentes dentro de um universo fantástico.

Vocês trabalham com a sugestão do lobisomem, mas também o mostram claramente em certos momentos. Como vocês decidiam quando mostrar ou não a criatura?

Juliana: Já passamos boa parte do filme sugerindo que havia algo de estranho com essa gravidez, então foi importante ser bem frontal na revelação. Primeiro vemos a criatura mais de longe e depois optamos por aproximar e fazer closes. Essas escolhas surpreenderam o pessoal dos efeitos pelo tipo de plano que queríamos fazer, que são planos com contato, e pela duração deles. Mas quisemos sugerir até construir um clímax, que é quando vemos o lobisomem pela primeira vez. Então sempre trabalhamos com a estratégia de esconder e suscitar a curiosidade do espectador para depois ter o prazer de mostrar a criatura.

Marco: Por exemplo, brincamos com pontos de vista quando a Clara tranca o Joel pela primeira vez no quarto. Até chegamos a filmá-lo no começo da transformação, mas preferimos focar na Clara percebendo o que acontecia no quarto. Então isso depende muito de qual personagem você quer estar junto naquele momento. Mas na cena do shopping e na cena final, que precisa de interação, precisamos de fato mostrar tudo.

Vocês formaram um coletivo de cineastas, o Filmes do Caixote, e nos seus filmes vocês tem diversos elementos, temas e atores recorrentes. Existe secretamente um Universo Conectado do Caixote?

(risos)

Marco: Nossa maior brincadeira é que a criatura da parede no Trabalhar Cansa poderia estar conectada ao lobisomem do As Boas Maneiras. Mas não, não é uma coisa pré-concebida.

Juliana: Mas é claro que gostamos de brincar com essas coincidências. E a gente tem todo um universo de pessoas que trabalham conosco, tanto atores quanto a equipe técnica, e isso acaba fazendo com que os filmes se conectem nesses elementos em comum. E tem a Gilda (Nomacce), que trabalhava no mercadinho do Trabalhar Cansa…

Marco: É, e no As Boas Maneiras ela virou supervisora no Shopping…

Juliana: … subiu de vida!


As Boas Maneiras já chegou aos cinemas e está em exibição na mostra “Lobisomens no IMS”, que também traz em sua programação os filmes Trabalhar Cansa, de Juliana Rojas e Marco Dutra, e Na Companhia dos Lobos, do diretor Neil Jordan. A mostra vai de hoje (7) até domingo (10) no IMS Paulista.

Formado em Rádio, TV e Internet pela Faculdade Cásper Líbero (FCL). É redator no Cinematecando desde 2016.