Crítica: 120 Batimentos por Minuto | Cinematecando

Posted On 03/01/2018 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: 120 Batimentos por Minuto

Ou 140 minutos de primor cinematográfico

Um filme sobre o ativismo contra a AIDS, ainda na época mais brutal da doença, não é uma experiência fácil, como esperado. O que não esperava de 120 Batimentos por Minuto, dirigido por Robin Campillo, é justamente seu otimismo. Claro, o roteiro do próprio Campillo (inspirado em sua vivência como ativista) não recua quando deve conferir o peso que seu tema exige, mas o grande acerto do cineasta é apresentar um vasto elenco de personagens que, entre um ato e outro, dançam, riem e transam.

120 Batimentos por Minuto é antes de tudo uma história de amor. Após as reconstituições de um ato com resultados desfavoráveis, somos apresentados a Nathan (o charmoso Arnaud Valois), soronegativo que se junta ao grupo militante Act Up, que foca seus protestos contra a Melhem Pharm, empresa farmacêutica que se nega a compartilhar os resultados de suas pesquisas com imediatez. Nathan então conhece Sean (o excelente Nahuel Pérez Biscayart), soropositivo, um dos membros mais engajados do grupo, e os dois eventualmente se apaixonam, apesar das complicações da doença.

O romance é envelopado em um retrato bastante vívido do grupo de ativistas e sua convivência diária, pontuada por reuniões cansativas, organização de atos e muita house music (estilo refletido pela pulsante trilha de Arnaud Rebotini). Campillo, responsável pelo roteiro do fenomenal Entre os Muros da Escola e também do ótimo (e recente) A Trama, mostra-se novamente como um exímio humanista, para não dizer um ser-humano. Cada um dos personagens em 120 Batimentos por Minuto tem suas próprias identidades, principalmente o dedicado e simpático Thibault (Antoine Reinartz).

Como conduítes da trama, Nathan e Sean são os olhos do público, mas diferente do que se vê na grande maioria dos filmes que usam de tal técnica, são também multidimensionais. Um belo momento é o diálogo dos dois na sala de reuniões do Act Up durante um intervalo, no qual especulam sobre as vidas privadas e profissionais de cada um dos membros que ali se encontram. Felizmente, o espectador nunca se encontra distanciado dos dois, cujas trocas pessoais fortalecem o afeto e identificação do público, o que torna a jornada muito mais devastadora, sim, mas também infinitamente mais satisfatória em seus momentos de alegria.

A busca por uma narrativa otimista é um dos dilemas vividos pelo Act Up, que carregam o fardo de mensageiros da morte, como visto na cena em que um casal gay demonstra sua indignação perante aos cartazes instalados por um dos ativistas. 120 Batimentos por Minuto não vai na direção contrária, mas como um produto de uma década mais consciente em relação aos perigos da AIDS, aposta em uma representação natural e nada melodramática, permitindo que o público se coloque no lugar de seus personagens de maneira honesta.

Além disso, a morte aqui não é vista tanto como uma conclusão desoladora quanto como um tipo de entreato amargo. Nunca se sabe quando um dos queridos personagens pode falecer, mas se isso de fato ocorre, o luto é manifestado através da luta, que vem acompanhada das idas aos clubes noturnos. Essa sensação de anticlímax também se reflete no final do filme, que destaca o esmero de Campillo e a diretora de fotografia Jeanne Lapoirie pelos visuais (há também outros marcantes trechos: em um somos transportados ao nível molecular, enfatizando a agência paralela do vírus; em outro, vemos o rio Sena completamente rubro).

120 Batimentos por Minuto impressiona com seu realismo e na empatia para com a luta (e lutadores) que homenageia, mas é realmente elevado por seu romance central riquíssimo. Desde o momento no qual Nathan e Sean cruzam caminhos durante um ato (“esse elevador é apenas para soropositivos”), sente-se uma inesperada conexão. O desenrolar dessa história de amor pode não ser sempre fácil, mas no fim das contas é revigorante por sua tamanha sinceridade. E caso a duração de 140 minutos assuste, saiba que a montagem assinada por Campillo, Stephanie Leger e Anita Roth tem a energia do elenco.

Indicado ao Oscar ou não (o filme foi eliminado da corrida), 120 Batimentos por Minuto se faz uma experiência arrebatadora e, sim, obrigatória.


Trailer

Ou 140 minutos de primor cinematográfico Um filme sobre o ativismo contra a AIDS, ainda na época mais brutal da doença, não é uma experiência fácil, como esperado. O que não esperava de 120 Batimentos por Minuto, dirigido por Robin Campillo, é justamente seu otimismo. Claro, o roteiro do próprio Campillo (inspirado em sua vivência como ativista) não recua quando deve conferir o peso que seu tema exige, mas o grande acerto do cineasta é apresentar um vasto elenco de personagens que, entre um ato e outro, dançam, riem e transam. 120 Batimentos por Minuto é antes de tudo uma história de amor. Após as reconstituições de um ato com resultados desfavoráveis, somos apresentados a Nathan (o charmoso Arnaud Valois), soronegativo que se junta ao grupo militante Act Up, que foca seus protestos contra a Melhem Pharm, empresa farmacêutica que se nega a compartilhar os resultados de suas pesquisas com imediatez. Nathan então conhece Sean (o excelente Nahuel Pérez Biscayart), soropositivo, um dos membros mais engajados do grupo, e os dois eventualmente se apaixonam, apesar das complicações da doença. O romance é envelopado em um retrato bastante vívido do grupo de ativistas e sua convivência diária, pontuada por reuniões cansativas, organização de atos e muita house music (estilo refletido pela pulsante trilha de Arnaud Rebotini). Campillo, responsável pelo roteiro do fenomenal Entre os Muros da Escola e também do ótimo (e recente) A Trama, mostra-se novamente como um exímio humanista, para não dizer um ser-humano. Cada um dos personagens em 120 Batimentos por Minuto tem suas próprias identidades, principalmente o dedicado e simpático Thibault (Antoine Reinartz). Como conduítes da trama, Nathan e Sean são os olhos do público, mas diferente do que se vê na grande maioria dos filmes que usam de tal técnica, são também multidimensionais. Um belo momento é o diálogo dos dois na sala de reuniões do Act Up durante um intervalo, no qual especulam sobre as vidas privadas e profissionais de cada um dos membros que ali se encontram. Felizmente, o espectador nunca se encontra distanciado dos dois, cujas trocas pessoais fortalecem o afeto e identificação do público, o que torna a jornada muito mais devastadora, sim, mas também infinitamente mais satisfatória em seus momentos de alegria. A busca por uma narrativa otimista é um dos dilemas vividos pelo Act Up, que carregam o fardo de mensageiros da morte, como visto na cena em que um casal gay demonstra sua indignação perante aos cartazes instalados por um dos ativistas. 120 Batimentos por Minuto não vai na direção contrária, mas como um produto de uma década mais consciente em relação aos perigos da AIDS, aposta em uma representação natural e nada melodramática, permitindo que o público se coloque no lugar de seus personagens de maneira honesta. Além disso, a morte aqui não é vista tanto como uma conclusão desoladora quanto como um tipo de entreato amargo. Nunca se sabe quando um dos queridos personagens pode falecer, mas se isso de fato ocorre, o luto é manifestado através da…

120 Batimentos por Minuto

Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Montagem
Trilha-Sonora

Excelente

92

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