Crítica: Aquarius | Cinematecando

Posted On 06/09/2016 By In Críticas - Lançamentos

Crítica: Aquarius

Com o sucesso de crítica alcançado no filme O Som ao Redor (2013), do escritor e diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, seu nome entrou no radar dos responsáveis por grandes festivais pelo mundo, incluindo o maior e mais significativo deles: Cannes. Não foi surpresa para o mundo do cinema Kleber Mendonça Filho ser incluído em uma lista de ‘nomes de peso’ do chamado cinema de autor – ao lado de ‘figurões’ como Paul Verhoeven, Ken Loach, Pedro Almodóvar e tantos outros. Desta vez, ele apresentaria na ‘croisette’ e ao mundo, seu filme Aquarius, e reapresentaria, aos que podem ter se esquecido, Sonia Braga. E, dessa vez, imagino que não irão esquecê-la tão cedo…

Aquarius conta a história de Clara, moradora de um apartamento no edifício Aquarius, na praia de Boa Viagem, Recife. Neste apartamento, Clara viveu boa parte de sua vida, foi onde criou seus filhos e permanece até os dias atuais. Porém, começam a surgir situações consideráveis de preocupação quando uma construtora quer convencer Clara a vender o apartamento (ela é a última residente no prédio), que se nega firmemente a sair. O desejo da construtora é derrubar o antigo Aquarius, e erguer um novo arranha-céu em Boa Viagem.

A estrutura do filme é quase simular a uma peça. Dividida em três atos, sendo o primeiro iniciado no passado, em 1980. Neste ano, percebemos que Clara (interpretada com firmeza por Bárbara Colen) acabara de sobreviver um câncer e se encontra em seu apartamento, em família em uma festa para tia Lucia (breve, mas emocionante atuação da atriz Thaia Perez). Nesse pequeno bloco do primeiro ato, percebe-se que Clara e tia Lucia têm uma conexão tão significante quanto família. Certos traços da personalidade “rebelde” de ambas ganham evidência com olhares e sutis contrações faciais, e simbolismo, através de uma cômoda encostada na parede.

Ainda no primeiro ato, mas já nos dias atuais, Sonia Braga na pele de Clara aproveita o paraíso e calor tropical de Boa Viagem, até quando um “destemido” jovem  cruza seu caminho e o do edifício Aquarius. Neto do dono da construtora, Diego, interpretado com suave canastrice e carisma por Humberto Carrão, trará nuvens carregadas à vida de Clara. Daí em diante, veremos um filme que, assim como o desejo de Diego, quer construir, e isso é feito lindamente através de uma composição rica de mise en scène, e de pulso firme de seu diretor; mas, principalmente, por sua inegável e inigualável protagonista. Sonia Braga é uma titânide.

A ‘construção’ do diretor é a sua protagonista. Cada detalhe é como um ‘tijolinho’ na personalidade complexa e inebriante de Clara. Seu apartamento que é um ‘mix’ de antigo e moderno, com muitos livros, e centenas de vinis simbolizam quem foi, e qual a história desta mulher, incluindo seu visual de longos cabelos que ela prende e solta repetidamente (grande trabalho visual de direção!). Esta ‘construção’ de Mendonça Filho, caminha bem pelas duas horas e vinte minutos de filme (!), apenas em dois breves momentos, sente-se o ritmo do filme ter um cambalear, que arrasta mais o enredo do que caminha. Todavia, o trabalho e maneira como seu diretor guia seu filme (e até gêneros cinematográficos) são dignos, e geram atração e interesse.

E, Sonia Braga…

1 cred Victor Juca_Sonia Braga

O que essa atriz de sessenta e seis anos fez neste filme merece palmas ovacionadas de pé. Sim, é uma atuação de sutilezas, mas ao mesmo, consistente como rocha, que transita dos mais simples prazeres aos mais “pecaminosos”, dos mais simples conceitos às mais duras escolhas, da libertina à maternidade, do desejo à razão… tudo parece ser encapsulado em Clara, e Sonia Braga entrega (e brilha!) isso tudo como se fosse um belo jantar. A contradição de polos não é um problema dessa personagem, muito pelo contrário, é o eixo central do mundo que ela construiu à sua volta. Para o bem, ou para o mal, Clara prevalecerá se depender de Sonia Braga, assim como a percepção de se ter assistido a um filme nacional de ‘calibre’ que faz também uma análise dos tempos atuais, e suas polaridades sociais que incendeiam e atam nossa rotina diária.

FICHA TÉCNICA
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Fotografia: Pedro Sotero e Fabricio Tadeu
Montagem: Eduardo Serrano
Elenco: Sonia Braga, Irandhir Santos, Humberto Carrão, Maeve Jinkings
Duração: 140 minutos

Com o sucesso de crítica alcançado no filme O Som ao Redor (2013), do escritor e diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, seu nome entrou no radar dos responsáveis por grandes festivais pelo mundo, incluindo o maior e mais significativo deles: Cannes. Não foi surpresa para o mundo do cinema Kleber Mendonça Filho ser incluído em uma lista de ‘nomes de peso’ do chamado cinema de autor - ao lado de ‘figurões’ como Paul Verhoeven, Ken Loach, Pedro Almodóvar e tantos outros. Desta vez, ele apresentaria na ‘croisette’ e ao mundo, seu filme Aquarius, e reapresentaria, aos que podem ter se esquecido, Sonia Braga. E, dessa vez, imagino que não irão esquecê-la tão cedo... Aquarius conta a história de Clara, moradora de um apartamento no edifício Aquarius, na praia de Boa Viagem, Recife. Neste apartamento, Clara viveu boa parte de sua vida, foi onde criou seus filhos e permanece até os dias atuais. Porém, começam a surgir situações consideráveis de preocupação quando uma construtora quer convencer Clara a vender o apartamento (ela é a última residente no prédio), que se nega firmemente a sair. O desejo da construtora é derrubar o antigo Aquarius, e erguer um novo arranha-céu em Boa Viagem. A estrutura do filme é quase simular a uma peça. Dividida em três atos, sendo o primeiro iniciado no passado, em 1980. Neste ano, percebemos que Clara (interpretada com firmeza por Bárbara Colen) acabara de sobreviver um câncer e se encontra em seu apartamento, em família em uma festa para tia Lucia (breve, mas emocionante atuação da atriz Thaia Perez). Nesse pequeno bloco do primeiro ato, percebe-se que Clara e tia Lucia têm uma conexão tão significante quanto família. Certos traços da personalidade “rebelde” de ambas ganham evidência com olhares e sutis contrações faciais, e simbolismo, através de uma cômoda encostada na parede. Ainda no primeiro ato, mas já nos dias atuais, Sonia Braga na pele de Clara aproveita o paraíso e calor tropical de Boa Viagem, até quando um “destemido” jovem  cruza seu caminho e o do edifício Aquarius. Neto do dono da construtora, Diego, interpretado com suave canastrice e carisma por Humberto Carrão, trará nuvens carregadas à vida de Clara. Daí em diante, veremos um filme que, assim como o desejo de Diego, quer construir, e isso é feito lindamente através de uma composição rica de mise en scène, e de pulso firme de seu diretor; mas, principalmente, por sua inegável e inigualável protagonista. Sonia Braga é uma titânide. A ‘construção’ do diretor é a sua protagonista. Cada detalhe é como um ‘tijolinho’ na personalidade complexa e inebriante de Clara. Seu apartamento que é um ‘mix’ de antigo e moderno, com muitos livros, e centenas de vinis simbolizam quem foi, e qual a história desta mulher, incluindo seu visual de longos cabelos que ela prende e solta repetidamente (grande trabalho visual de direção!). Esta ‘construção’ de Mendonça Filho, caminha bem pelas duas horas e vinte minutos de filme (!), apenas em dois breves momentos, sente-se o ritmo do filme ter um…

Nota

Aquarius

Ótimo

O filme é uma análise dos tempos atuais e sobre as polaridades sociais que incendeiam e atam nossa rotina diária.

80