Crítica: Buscando... | Cinematecando

Posted On 17/09/2018 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: Buscando…

Nova embalagem para uma velha história

Imagem do filme 'Buscando...'

Segundo levantamento do Hootsuite publicado no começo de 2018, 4,021 milhões de pessoas ao redor do mundo estão hoje conectadas à internet com alguma frequência. O número representa 53% da população mundial. Se você está lendo este texto, é porque certamente está neste grupo. Qualquer um que tenha o costume de dedicar boa parte do seu tempo às atividades online vai se identificar com Buscando…, e por isso o filme tem um apelo inicial quase irresistível.

Contado inteiramente em cenas que emulam imagens de computadores, celulares, câmeras de vigilância e canais de TV, o longa causa angústia por apresentar um aparente paradoxo: numa época em que a sensação é de estarmos sendo observados o tempo todo, como é possível que alguém desapareça?

Pois é este o drama de David Kim (John Cho), que lida com o sumiço repentino da filha adolescente Margot (Michelle La). O que começa com uma simples demora em responder mensagens se transforma em desespero quando a garota não volta para casa. Aos poucos, o pai vai ligando os pontos de uma vida real muito diferente daquela que imaginava. Ela tinha pouquíssimos amigos e não fazia mais aulas de piano, por exemplo, ao contrário do que dizia.

É louvável o trabalho de traduzir cada tela de site, canais de notícias, chamadas de voz e etc para o português, garantindo uma experiência orgânica, fundamental para o ritmo do longa.

Buscando… é contado como se estivessemos dentro da cabeça de David. Não exatamente por meio de uma câmera subjetiva, mas pela visão das telas que o personagem vai abrindo, onde cada clique representa uma nova pista, para ele e para o público. Mais que um personagem, este pai é o nosso avatar no jogo de detetive que o diretor Aneesh Chaganty propõe.

O filme fica melhor se encarado apenas por este viés lúdico. Até porque, por baixo do verniz moderno, a verdade é que a história é para lá de batida. O desaparecimento de crianças é um tema clássico do cinema de suspense e terror, justamente por representar o pior pesadelo para quem tem filho.

O roteiro escrito por Chaganty e  Sev Ohanian lança mão de um golpe baixo logo nos minutos iniciais, ao matar a mãe da garotinha e esposa do protagonista por um câncer, mostrado por fragmentos de emails entre ela e os médicos, além de vídeos de sua luta contra a doença. O sentimentalismo também dá o tom dos últimos minutos, afastando o longa de uma atmosfera sombria.

Não há também nenhuma preocupação em discutir o distanciamento entre pai e filha, ou a fixação de uma geração que constrói identidades alternativas na internet enquanto pouco se interessa em construir laços no universo offline.

O filme tem, sim, boas sacadas, como o tribunal das redes sociais em pleno funcionamento, exemplificado pelos boatos que começam a se espalhar de que o próprio David estaria por trás do sumiço de Margot. Ou quando mostra até onde os pais podem ir para proteger seus filhos, para o bem ou para o mal, na reviravolta que encaminha o enredo para sua conclusão. Mesmo assim, faz isso sem a profundidade dos nacionais Ferrugem e Aos Teus Olhos, duas produções recentes que discutem temas parecidos.

Como entretenimento e experiência de realidade virtual, Buscando… é ótimo. Porém, algumas escolhas narrativas feitas numa zona de conforto revelam que seu autor está mais interessado em ousar na forma do que no conteúdo.

Nova embalagem para uma velha história Segundo levantamento do Hootsuite publicado no começo de 2018, 4,021 milhões de pessoas ao redor do mundo estão hoje conectadas à internet com alguma frequência. O número representa 53% da população mundial. Se você está lendo este texto, é porque certamente está neste grupo. Qualquer um que tenha o costume de dedicar boa parte do seu tempo às atividades online vai se identificar com Buscando…, e por isso o filme tem um apelo inicial quase irresistível. Contado inteiramente em cenas que emulam imagens de computadores, celulares, câmeras de vigilância e canais de TV, o longa causa angústia por apresentar um aparente paradoxo: numa época em que a sensação é de estarmos sendo observados o tempo todo, como é possível que alguém desapareça? Pois é este o drama de David Kim (John Cho), que lida com o sumiço repentino da filha adolescente Margot (Michelle La). O que começa com uma simples demora em responder mensagens se transforma em desespero quando a garota não volta para casa. Aos poucos, o pai vai ligando os pontos de uma vida real muito diferente daquela que imaginava. Ela tinha pouquíssimos amigos e não fazia mais aulas de piano, por exemplo, ao contrário do que dizia. É louvável o trabalho de traduzir cada tela de site, canais de notícias, chamadas de voz e etc para o português, garantindo uma experiência orgânica, fundamental para o ritmo do longa. Buscando... é contado como se estivessemos dentro da cabeça de David. Não exatamente por meio de uma câmera subjetiva, mas pela visão das telas que o personagem vai abrindo, onde cada clique representa uma nova pista, para ele e para o público. Mais que um personagem, este pai é o nosso avatar no jogo de detetive que o diretor Aneesh Chaganty propõe. O filme fica melhor se encarado apenas por este viés lúdico. Até porque, por baixo do verniz moderno, a verdade é que a história é para lá de batida. O desaparecimento de crianças é um tema clássico do cinema de suspense e terror, justamente por representar o pior pesadelo para quem tem filho. O roteiro escrito por Chaganty e  Sev Ohanian lança mão de um golpe baixo logo nos minutos iniciais, ao matar a mãe da garotinha e esposa do protagonista por um câncer, mostrado por fragmentos de emails entre ela e os médicos, além de vídeos de sua luta contra a doença. O sentimentalismo também dá o tom dos últimos minutos, afastando o longa de uma atmosfera sombria. Não há também nenhuma preocupação em discutir o distanciamento entre pai e filha, ou a fixação de uma geração que constrói identidades alternativas na internet enquanto pouco se interessa em construir laços no universo offline. O filme tem, sim, boas sacadas, como o tribunal das redes sociais em pleno funcionamento, exemplificado pelos boatos que começam a se espalhar de que o próprio David estaria por trás do sumiço de Margot. Ou quando mostra até onde os pais podem ir para proteger seus…

Buscando...

Direção
Roteiro
Elenco

Bom

64

Crítico de cinema, roteirista e diretor. Pós-graduado em Jornalismo Cultural. Além do Cinematecando, é colunista do Yahoo! Brasil