Crítica: Dark (1ª Temporada) | Cinematecando

Posted On 08/12/2017 By In Críticas - Séries, Séries

Crítica: Dark (1ª Temporada)

Estabelecer comparações entre Dark (primeira série alemã original Netflix) e a famosíssima Stranger Things apenas levando em consideração o fato de ambos girarem em torno do desaparecimento de pessoas, é quase cometer um crime de análise. As duas séries se inserem em contextos, gêneros, propostas e abordagens diferentes, mas se podemos dizer que ambas possuem algo em comum, é o fato de serem extremamente cativantes. Enquanto Matt Duffer e Ross Duffer (criadores de Stranger Things) estimulam o espectador com um roteiro dinâmico que se apoia na nostalgia dos anos 80 e na força da amizade entre crianças, os alemães tecem um clima lento, sombrio e reflexivo que ganha corpo a cada episódio, e que se esclarece conforme seus personagens são aprofundados. Dark não é uma série de fácil absorção, ela força o espectador a pensar, o que a faz ser incrivelmente boa.

A história da série acompanha quatro diferentes famílias que vivem em Winden, uma pequena cidade alemã. Suas vidas pacatas são completamente atormentadas quando duas crianças desaparecem misteriosamente e os segredos obscuros das suas famílias começam a ser desvendados. A maior atenção da cidade se volta à uma usina nuclear, que assim como todos os personagens, parece esconder alguns segredos. “Infinitos” é uma boa forma de definir a quantidade de personagens de Dark. E o mais interessante é que a série tem paciência pra explorar o dia a dia de cada família, o passado dos personagens, se aliando com o desenrolar da história principal.

Dark aparece no momento ideal, em que a maioria das séries televisivas apresentam um conteúdo mastigado, que não demanda questionamentos do público, e muito menos o faz ligar os pontos e tentar criar um raciocínio lógico. O grande diferencial da nova série alemã criada por Baran bo Odar (diretor) e Jantje Friese (roteirista), é o tratamento da viagem no tempo como algo temeroso, arriscado, podendo causar danos irreparáveis para os princípios da física e do espaço-tempo. Além disso, o fato de não termos um protagonista definido (embora Jonas até chegue próximo à isso), permite que a série distribua as qualidades e defeitos dos personagens uniformemente, sem apelar para conceitos comuns e preguiçosos como pessoas do bem e pessoas do mal.

É fácil notar uma certa carência de boas atuações na série, mas mesmo sem saber se é responsabilidade dos atores ou da direção de atores, não é algo que chega a influenciar diretamente na qualidade da obra, pois além de possuir um enredo sagaz e ousado, Dark também impressiona com seu refinamento técnico e seu conhecimento audiovisual. Um exemplo é a baixa iluminação dos cenários internos junto à paleta de cores frias criam um ambiente claustrofóbico, carregado de desconfiança (segunda foto). A série também faz o oposto nos cenários externos, sabendo atrair os olhos do espectador para uma cor quente que se mistura meio a tons frios (primeira foto), deixando a impressão de que alguns personagens ainda carregam consigo a esperança de fazer o certo e mudar a realidade pessimista em que a cidade se encontra (algo frequentemente reafirmado pelos moradores).

Notável também é o equilíbrio narrativo da obra, em que ao mesmo tempo que se desenvolve lentamente, não perde vida devido aos movimentos de câmera, entre outros fatores. Pelo contrário, a maneira como a câmera segue seus personagens aproxima o espectador da história, o convidando de maneira gentil a acompanhar as intenções e ações das pessoas.

A trilha sonora da série é bem diversificada, e todas as músicas (e efeitos sonoros) parecem conduzir perfeitamente o público para o suspense (ou drama) pretendido. Além da direção de arte que possui a difícil tarefa de ambientar 3 épocas diferentes e distantes, alterando figurinos e construção de cenários, a montagem é outro grande feito de Dark. Os cortes são precisos e não fogem do ritmo pretendido, e a colorização agrada bastante intensificando temperaturas frias/escuras, mas o melhor da montagem é quando ousa incluir o split-screen, ou seja, um traço que divide a tela em duas épocas, apresentando os personagens em duas fases distintas, sua infância/adolescência e sua vida adulta.

A série alemã, que consegue ser tão tenebrosa quanto melancólica, inicia o último mês do ano entrando para a lista das melhores séries de 2017, inclusive sendo talvez uma das mais corajosas (por arriscar uma história mindfuck que se desenvolve em 10 episódios). Dark se livra de diálogos expositivos, valoriza a importância de se contar uma história com a câmera, e cria um jeito único de entreter seu público. A série precisa ser vista por todos fãs de suspense e drama, adoradores de viagens no tempo e de uma história difícil de se conectar, que requer um olhar atento.


Trailer

Estabelecer comparações entre Dark (primeira série alemã original Netflix) e a famosíssima Stranger Things apenas levando em consideração o fato de ambos girarem em torno do desaparecimento de pessoas, é quase cometer um crime de análise. As duas séries se inserem em contextos, gêneros, propostas e abordagens diferentes, mas se podemos dizer que ambas possuem algo em comum, é o fato de serem extremamente cativantes. Enquanto Matt Duffer e Ross Duffer (criadores de Stranger Things) estimulam o espectador com um roteiro dinâmico que se apoia na nostalgia dos anos 80 e na força da amizade entre crianças, os alemães tecem um clima lento, sombrio e reflexivo que ganha corpo a cada episódio, e que se esclarece conforme seus personagens são aprofundados. Dark não é uma série de fácil absorção, ela força o espectador a pensar, o que a faz ser incrivelmente boa. A história da série acompanha quatro diferentes famílias que vivem em Winden, uma pequena cidade alemã. Suas vidas pacatas são completamente atormentadas quando duas crianças desaparecem misteriosamente e os segredos obscuros das suas famílias começam a ser desvendados. A maior atenção da cidade se volta à uma usina nuclear, que assim como todos os personagens, parece esconder alguns segredos. "Infinitos" é uma boa forma de definir a quantidade de personagens de Dark. E o mais interessante é que a série tem paciência pra explorar o dia a dia de cada família, o passado dos personagens, se aliando com o desenrolar da história principal. Dark aparece no momento ideal, em que a maioria das séries televisivas apresentam um conteúdo mastigado, que não demanda questionamentos do público, e muito menos o faz ligar os pontos e tentar criar um raciocínio lógico. O grande diferencial da nova série alemã criada por Baran bo Odar (diretor) e Jantje Friese (roteirista), é o tratamento da viagem no tempo como algo temeroso, arriscado, podendo causar danos irreparáveis para os princípios da física e do espaço-tempo. Além disso, o fato de não termos um protagonista definido (embora Jonas até chegue próximo à isso), permite que a série distribua as qualidades e defeitos dos personagens uniformemente, sem apelar para conceitos comuns e preguiçosos como pessoas do bem e pessoas do mal. É fácil notar uma certa carência de boas atuações na série, mas mesmo sem saber se é responsabilidade dos atores ou da direção de atores, não é algo que chega a influenciar diretamente na qualidade da obra, pois além de possuir um enredo sagaz e ousado, Dark também impressiona com seu refinamento técnico e seu conhecimento audiovisual. Um exemplo é a baixa iluminação dos cenários internos junto à paleta de cores frias criam um ambiente claustrofóbico, carregado de desconfiança (segunda foto). A série também faz o oposto nos cenários externos, sabendo atrair os olhos do espectador para uma cor quente que se mistura meio a tons frios (primeira foto), deixando a impressão de que alguns personagens ainda carregam consigo a esperança de fazer o certo e mudar a realidade pessimista em que a cidade se…

Dark (1ª Temporada)

Direção
Roteiro
Elenco
Arte
Fotografia
Trilha Sonora
Montagem

Excelente

90