Crítica: Midsommar - O Mal Não Espera a Noite | Cinematecando

Posted On 22/09/2019 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: Midsommar – O Mal Não Espera a Noite

Onde o entusiasmo e o soturno se encontram

Antes de mais nada, apesar do que sugerem as expectativas e o marketing de divulgação em torno do filme, é importante ter em mente que Midsommar é, em seu propósito narrativo, uma obra completamente diferente de Hereditário. Temos sim semelhanças de ritmo, abordagem, estrutura e até de construção de cenas, mas o “coração” de ambos os longas busca transmitir mensagens distintas, que se não forem separadas desde o início, podem não surtir todo o efeito pretendido pela trama.

O novo longa de Ari Aster nos agarra de forma brusca desde seus primeiros minutos ao trazer Dani (Florence Pugh, em excelente interpretação), uma protagonista insegura que acaba de presenciar uma tragédia familiar desoladora. Seu irresponsável, e até por vezes insensível, namorado Christian (Jack Reynor), estudante de antropologia, diante de uma situação desconfortável, se sente obrigado a convidá-la para viajar com seus amigos para uma comunidade rural afastada na Suécia. Conforme vão conhecendo os costumes daquele povoado, passam a se chocar e duvidar dos misteriosos rituais e sacrifícios realizados na aldeia.

Em meio aos efeitos da psicotropia e do choque de cultura, Midsommar expõe delicadamente as hipocrisias dos personagens americanos, enquanto se elabora diante de um ritmo lento o suficiente para que possamos absorver os elementos duvidosos que compõem aquele vilarejo festivo e aparentemente alegre até demais. Aqui, há espaço para se questionar e questionar o próximo, simultaneamente. É interessante também como a obra permite que conheçamos os curiosos costumes da comunidade junto com os personagens, sem quase nenhum tipo de cena expositiva e autoexplicativa. Assim como eles, nos sentimos deslocados e indagativos, algo enfatizado pelo belíssimo trabalho de figurino e decupagem de direção.

Por falar em figurinos, se aqui, as cenas graficamente fortes, os incomuns movimentos e ângulos de câmera, juntamente à angustiante trilha musical, são os maiores responsáveis por embrulhar nossos estômagos, a direção de arte e o design de produção possuem o trabalho oposto. Enquanto as inúmeras túnicas brancas indicam uma homogeneidade visual e pessoal (visto que todos ali pensam da mesma forma), são os objetos de cena (flores, ferramentas, estruturas e instrumentos) e os cenários (desenhos nas paredes e móveis) que tornam tudo colorido e chamativo, em muitas cenas até com a intenção de nos deslumbrar. Enquanto a sugestividade dos rituais e o crescente desaparecimento de pessoas trazem desconfiança para os americanos, estes por sua vez, com seus aparelhos eletrônicos e costumes particulares (representando a heterogeneidade), levam a desarmonia para um local sagrado e repleto de paz.

Quando nos deliciamos refletindo sobre luto, fidelidade, cobiça, egoísmo, contraste cultural, e muitos outros temas propostos pelo roteiro, o diretor ainda nos presenteia com o seu diferenciado senso de humor a fim de criar situações bizarras e ao mesmo tempo cômicas, algo que, para quem não conhece os curtas do diretor, pode gerar dúvidas sobre a intenção das cenas, visto que Hereditário é a obra de Aster com menos intenções satíricas. Ainda assim, é praticamente impossível segurar os risos diante de ótimas situações estranhas que esbanjam desconforto em momentos íntimos.

Fazendo jus aos elementos do folk horror, Midsommar é um filme profundo e abrangente, construído em cima de equilíbrios e contrastes. É na relação entre o dia e a noite, na divergência da cultura americana com a nórdica, na oposição entre o suspense dramático e o terror cômico que residem as maiores qualidades da obra. Através de um olhar inteligente, o roteirista e diretor Ari Aster nos oferece aqui uma experiência sensorial que funciona como obra fílmica de diversas formas. Seja pela redenção de uma injustiçada protagonista em processo de luto, por sua perturbação visual e psicológica, ou mesmo simplesmente por uma celebração e aceitação da vida e da morte como um processo natural, livre e espontâneo. Demonstrando total conhecimento do terreno onde pisa, Aster entrega um longa convincente e reflexivo, que nos permite pensar sobre nossos valores, estilo de vida e até sobre nossa sensibilidade diante de determinadas situações.

Onde o entusiasmo e o soturno se encontram Antes de mais nada, apesar do que sugerem as expectativas e o marketing de divulgação em torno do filme, é importante ter em mente que Midsommar é, em seu propósito narrativo, uma obra completamente diferente de Hereditário. Temos sim semelhanças de ritmo, abordagem, estrutura e até de construção de cenas, mas o “coração” de ambos os longas busca transmitir mensagens distintas, que se não forem separadas desde o início, podem não surtir todo o efeito pretendido pela trama. O novo longa de Ari Aster nos agarra de forma brusca desde seus primeiros minutos ao trazer Dani (Florence Pugh, em excelente interpretação), uma protagonista insegura que acaba de presenciar uma tragédia familiar desoladora. Seu irresponsável, e até por vezes insensível, namorado Christian (Jack Reynor), estudante de antropologia, diante de uma situação desconfortável, se sente obrigado a convidá-la para viajar com seus amigos para uma comunidade rural afastada na Suécia. Conforme vão conhecendo os costumes daquele povoado, passam a se chocar e duvidar dos misteriosos rituais e sacrifícios realizados na aldeia. Em meio aos efeitos da psicotropia e do choque de cultura, Midsommar expõe delicadamente as hipocrisias dos personagens americanos, enquanto se elabora diante de um ritmo lento o suficiente para que possamos absorver os elementos duvidosos que compõem aquele vilarejo festivo e aparentemente alegre até demais. Aqui, há espaço para se questionar e questionar o próximo, simultaneamente. É interessante também como a obra permite que conheçamos os curiosos costumes da comunidade junto com os personagens, sem quase nenhum tipo de cena expositiva e autoexplicativa. Assim como eles, nos sentimos deslocados e indagativos, algo enfatizado pelo belíssimo trabalho de figurino e decupagem de direção. Por falar em figurinos, se aqui, as cenas graficamente fortes, os incomuns movimentos e ângulos de câmera, juntamente à angustiante trilha musical, são os maiores responsáveis por embrulhar nossos estômagos, a direção de arte e o design de produção possuem o trabalho oposto. Enquanto as inúmeras túnicas brancas indicam uma homogeneidade visual e pessoal (visto que todos ali pensam da mesma forma), são os objetos de cena (flores, ferramentas, estruturas e instrumentos) e os cenários (desenhos nas paredes e móveis) que tornam tudo colorido e chamativo, em muitas cenas até com a intenção de nos deslumbrar. Enquanto a sugestividade dos rituais e o crescente desaparecimento de pessoas trazem desconfiança para os americanos, estes por sua vez, com seus aparelhos eletrônicos e costumes particulares (representando a heterogeneidade), levam a desarmonia para um local sagrado e repleto de paz. Quando nos deliciamos refletindo sobre luto, fidelidade, cobiça, egoísmo, contraste cultural, e muitos outros temas propostos pelo roteiro, o diretor ainda nos presenteia com o seu diferenciado senso de humor a fim de criar situações bizarras e ao mesmo tempo cômicas, algo que, para quem não conhece os curtas do diretor, pode gerar dúvidas sobre a intenção das cenas, visto que Hereditário é a obra de Aster com menos intenções satíricas. Ainda assim, é praticamente impossível segurar os risos diante de ótimas situações…

Midsommar

Nota

Ótimo

Com rituais obscuros e elementos sugestivos, Ari Aster entrega mais um filme sufocante que rende inúmeras discussões sobre seus temas.

80