Crítica: Mulheres do Século 20

Crítica: Mulheres do Século 20

Como a mulher se revolucionou para chegar onde está hoje? Quais foram as mudanças que elas passaram para se adaptarem à sociedade moderna? Como se transformaram de uma geração de mulheres submissas, donas de casa e devotas ao marido para uma nova geração que preza sua liberdade e controle do seu próprio corpo? Como uma mãe divorciada cria um filho homem sozinha?

Foi baseando-se nestas perguntas que o diretor e roteirista Mike Mills (Toda Forma de Amor) fez o filme Mulheres do Século 20, que faz questão de retratar a revolução da mulher. Uma revolução sutil – diferente das que vemos que queimaram os sutiãs nas ruas e protestaram -, é a revolução da mulher que deixa de ser doméstica e passa a ter controle de seus próprios desejos e corpo dentro de sua própria casa. Essa evolução é representada por três gerações e se volta à vida de Dorothea Fields (Annette Bening) uma mãe solteira na casa dos 50 com um filho adolescente, Jamie (Lucas Jade Zumann), e que busca a melhor maneira de criar o seu filho com a ausência de um homem. Julie (Elle Fanning) é uma adolescente que se rende aos prazeres de querer se sentir mulher e empoderada; no entanto, acaba sendo um pouco confusa e é a melhor amiga de Jamie. Também conhecemos Abbey (Greta Gerwig), uma jovem adulta, fotógrafa, aficionada pelo feminismo e a cultura punk que possui um quarto arrendado na casa de Dorothea.

Ambientado na Califórnia na década de 70, a forma que Mills retrata a vida destas três gerações é tão real e humanizada que torna muito fácil a conexão do espectador com a história. Isso acaba trazendo uma certa nostalgia que encontramos na vida de Dorothea, sendo o exemplo da maioria das mães divorciadas que sempre buscam a melhor forma de criar seus filhos. Ao contar com a ajuda das meninas Julie e Abbey, ela acaba tomando decisões que julga serem as melhores para educar Jamie, enquanto ele faz questão de dizer constantemente que a mãe cresceu com a Depressão, uma época em que todo mundo se ajudava. Mas, no final das contas, a situação se torna enriquecedora para todos. Em Julie, que é a adolescente decidida, Abbey, a jovem adulta que por mais tenha uma cabeça formada, ainda tenta encontrar o seu espacinho no mundo, e em Jamie, um adolescente cuja vida se cerca às três mulheres e procura se formar como um homem. O personagem busca se tornar um homem diferente de seu pai (com quem teve pouco contato) e ser mais próximo da mulher com quem irá se relacionar. O único homem que é presente na história é o mecânico William (Billy Crudup), também na casa dos 50, que mesmo sendo um personagem carismático, não é tão fácil de se conectar se comparado aos outros.

O filme possui uma fotografia que parece que é traçada com lembranças – talvez lembranças pessoais do próprio diretor. Possivelmente esse seja um dos motivos que torne a conexão com os personagens tão descomplicada, principalmente por todos serem tão reais, humanizados e íntimos. O que mais chama atenção é sem dúvidas a construção da história das mulheres de hoje, a revolução da pílula, de uma sociedade com mulheres fortes e homens também (Jamie é o exemplo disso) e a desconstrução do machismo impregnado. Tudo isso é desenvolvido de uma forma clara.

Mulheres do Século 20 deixa a sua marca decifrada em duas palavras: memórias e conexão.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Mike Mills
Fotografia: Sean Porter
Roteiro: Mike Mills
Elenco: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig, Lucas Jade Zumann e Billy Crudup
Gênero: Comédia/drama
Origem: EUA
Duração: 118 min.

Mônica Berkovich