Crítica: Os Oito Odiados | Cinematecando

Posted On 08/01/2016 By In Críticas - Lançamentos

Crítica: Os Oito Odiados

Que diretor singular é Quentin Tarantino. A cada filme lançado, algo sempre acaba surpreendendo. O modo que ele dirige suas histórias e seus atores é algo realmente magnífico. Mesmo repetindo algumas fórmulas já bastante conhecidas (como a divisão em capítulos), assistir as obras de um diretor tão cinéfilo quanto os seus fãs é uma experiência emocionante, cheia de altos e baixos, como em uma montanha russa.

Em Os Oito Odiados, Tarantino vai compondo a introdução em uma bela paisagem invernal de forma extensa e paciente. A maneira que o espectador entra na história, passada anos após a Guerra Civil americana, é sutil e animadora desde os primeiros segundos – ainda mais com Ennio Morricone (que compôs a primeira trilha sonora western em 40 anos para Tarantino) tocando ao fundo. Durante a primeira hora, a verdadeira ação são as conversas entre os personagens, conduzidas de maneira brilhante; cabe a quem está assistindo idealizar as histórias que são narradas.

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Nos primeiros capítulos encontra-se a construção dos ambientes (alguns deles externos e belíssimos, o que com certeza deve tornar a experiência de assistir ao longa em 70mm bem mais interessante) e uma dinâmica sensacional entre os personagens. O caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell), a prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), o major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e Chris Mannix (Walton Goggins) são os primeiros a aparecer, e as faíscas entre os quatro já começam a se desenrolar dentro da carroça que os levam para o mesmo lugar. Aliás, a única coisa que os quatro têm em comum é o destino da viagem, o Armazém da Minnie, que servirá como proteção contra a grande nevasca que está chegando em Wyoming. A outra metade dos personagens já está no Armazém, e é lá que os Oito Odiados se encontrarão.

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Apesar de ter tudo para ser um faroeste completo como os de Sergio Leone, um aposento já basta para Tarantino. Por mais que a ambientação seja western, o foco maior é a relação dos personagens. Assim que a porta quebrada finalmente se fecha no Armazém, a narrativa um tanto quanto teatral se fixa neste lugar; e, com oito pessoas completamente distintas (e desconfiadas) presas no meio de uma grande nevasca, os olhos se voltam justamente para os personagens, e não para as paisagens. O banho de sangue tarantinesco é iminente, só basta esperar…

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O filme sofre uma mudança radical em certo ponto, já que o próprio diretor narra uma parte da história que antecede um importante flashback, “explicando” para o espectador as reviravoltas que aconteceram até o momento e alguma coisa do que está por vir. Depois da narração, finalmente é possível entender mais sobre a história, e essa guinada é coordenada de maneira entusiasmante.

Tarantino conseguiu extrair o melhor do elenco, principalmente de Jennifer Jason Leigh e Samuel L. Jackson. A atuação de Jennifer chega a ser assustadora de tão boa, sua personagem sendo intrigante na mesma medida. E, se existe um protagonista em Os Oito Odiados, este seria Jackson. Kurt Russell, como o caçador de recompensas John Ruth, não fica muito atrás e traz um personagem interessante, que cativa de certa forma. Oswaldo Mobray (Tim Roth) chama atenção com seu perfil excessivo, não que isso seja negativo. Michael Madsen (o vaqueiro Joe Gage) e Bruce Dern (General Sanford Smithers) não foram tão bem aproveitados na história da mesma maneira que o restante do grupo, assim como outra aparição inesperada, que não possui tanto impacto. Bob, personagem de Demian Bichir, já expressa uma grande incógnita em sua face desde sua primeira aparição. Mas a verdadeira surpresa realmente é Chris Mannix, um personagem cômico e centrado que se diz xerife da cidade de Red Rock.

Os Oito Odiados pode não ser o melhor projeto de Quentin Tarantino, mas se uma coisa é certa, é que o diretor de 52 anos filma com a mesma paixão e prazer desde o início de sua carreira. Se o seu plano de lançar 10 filmes e então se aposentar for real, que venham mais duas obras tão divertidas e memoráveis quanto o restante de sua filmografia!


FICHA TÉCNICA
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco (por ordem alfabética): Belinda Owino, Bruce Del Castillo, Bruce Dern, Channing Tatum, Craig Stark, Dana Gourrier, Demián Bichir, Gene Jones, James Parks, Jennifer Jason Leigh, Keith Jefferson, Kurt Russell, Lee Horsley, Michael Madsen, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Walton Goggins, Zoe Bell
Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher
Fotografia: Robert Richardson
Edição: Fred Raskin

Que diretor singular é Quentin Tarantino. A cada filme lançado, algo sempre acaba surpreendendo. O modo que ele dirige suas histórias e seus atores é algo realmente magnífico. Mesmo repetindo algumas fórmulas já bastante conhecidas (como a divisão em capítulos), assistir as obras de um diretor tão cinéfilo quanto os seus fãs é uma experiência emocionante, cheia de altos e baixos, como em uma montanha russa. Em Os Oito Odiados, Tarantino vai compondo a introdução em uma bela paisagem invernal de forma extensa e paciente. A maneira que o espectador entra na história, passada anos após a Guerra Civil americana, é sutil e animadora desde os primeiros segundos – ainda mais com Ennio Morricone (que compôs a primeira trilha sonora western em 40 anos para Tarantino) tocando ao fundo. Durante a primeira hora, a verdadeira ação são as conversas entre os personagens, conduzidas de maneira brilhante; cabe a quem está assistindo idealizar as histórias que são narradas. Nos primeiros capítulos encontra-se a construção dos ambientes (alguns deles externos e belíssimos, o que com certeza deve tornar a experiência de assistir ao longa em 70mm bem mais interessante) e uma dinâmica sensacional entre os personagens. O caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell), a prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), o major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e Chris Mannix (Walton Goggins) são os primeiros a aparecer, e as faíscas entre os quatro já começam a se desenrolar dentro da carroça que os levam para o mesmo lugar. Aliás, a única coisa que os quatro têm em comum é o destino da viagem, o Armazém da Minnie, que servirá como proteção contra a grande nevasca que está chegando em Wyoming. A outra metade dos personagens já está no Armazém, e é lá que os Oito Odiados se encontrarão. Apesar de ter tudo para ser um faroeste completo como os de Sergio Leone, um aposento já basta para Tarantino. Por mais que a ambientação seja western, o foco maior é a relação dos personagens. Assim que a porta quebrada finalmente se fecha no Armazém, a narrativa um tanto quanto teatral se fixa neste lugar; e, com oito pessoas completamente distintas (e desconfiadas) presas no meio de uma grande nevasca, os olhos se voltam justamente para os personagens, e não para as paisagens. O banho de sangue tarantinesco é iminente, só basta esperar... O filme sofre uma mudança radical em certo ponto, já que o próprio diretor narra uma parte da história que antecede um importante flashback, “explicando” para o espectador as reviravoltas que aconteceram até o momento e alguma coisa do que está por vir. Depois da narração, finalmente é possível entender mais sobre a história, e essa guinada é coordenada de maneira entusiasmante. Tarantino conseguiu extrair o melhor do elenco, principalmente de Jennifer Jason Leigh e Samuel L. Jackson. A atuação de Jennifer chega a ser assustadora de tão boa, sua personagem sendo intrigante na mesma medida. E, se existe um protagonista em Os Oito Odiados, este seria Jackson. Kurt Russell, como o caçador de recompensas John Ruth,…

Nota

Os Oito Odiados

Excelente

92

Jornalista especializada em cinema. Fundadora e editora-chefe do Cinematecando. Foi assessora de imprensa na 41ª edição da Mostra Internacional de Cinema e hoje é redatora e repórter do portal AdoroCinema.