Crítica: Um Lugar Silencioso | Cinematecando

Posted On 04/04/2018 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: Um Lugar Silencioso

Longa dirigido – e atuado – por John Krasinski supera as expectativas e entrega porções intensas de agonia e tensão

Não preciso fazer muito esforço para lembrar que a última vez que me senti tão encurralado e aflito no cinema foi ao ver os últimos minutos de Fragmentado. Todos os anos vemos no cinema (ou assistimos em casa) diversas produções de terror com suspense que mais reproduzem clichês e conceitos pré-concebidos do que realmente inovam em sua abordagem temática, o que acaba proporcionando experiências repetidas, forçando o espectador a se contentar com o que está vendo. Um Lugar Silencioso, ainda que não largue mão de algumas técnicas manjadas e desnecessárias como os já saturados jump scares, alcança uma façanha inesperada em todas suas cenas: uma frenética e eficiente tensão em seu público.

Em uma fazenda dos Estados Unidos, uma família do meio-oeste é perseguida por uma criatura assustadora. Para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, a qualquer custo, pois o perigo é ativado pela percepção do som. De cara conhecemos os membros dessa família: o pai corajoso e determinado, interpretado por John Krasinski, a mãe protetora e sensível, interpretada por Emily Blunt, e um casal de filhos pequenos interpretados por Noah Jupe e Millicent Simmonds. Por um lado, é triste que os pequenos não possuam personalidades marcantes, apesar de tempo suficiente em cena, mas isso é facilmente suprido pela forte presença de Krasinski e principalmente pela calorosa atuação de Blunt, que se prova cada vez mais uma das melhores atrizes da atualidade (assim como fez em A Garota no Trem).

As cenas possuem originalidade notável na forma como criam agonia no público. A grande jogada é a premissa da ausência de som, que abre um leque gigantesco de possibilidades para fazer o espectador se assustar, ter medo, e sentir a inquietude à flor da pele. Krasinski sabe muito bem disso e explora sua técnica de todas as maneiras possíveis. Noah Jupe, que já se provou um ator empolgante em Extraordinário, se entrega aqui ao desespero e às inseguranças de um filho tendo que assumir o papel de “homem da família”. Enquanto isso, a personagem de Millicent Simmonds é afetada muitas vezes por sua inexpressão, parecendo alguém sem emoções em algumas cenas, apesar de notarmos os esforços da atriz hora ou outra.

O filme tem seus problemas, como o frequente uso de jump scares que se apoiam em picos sonoros previsíveis e que poderiam muito bem ser removidos e ainda criar apreensão. Outra coisa que me incomodou foi a unidade narrativa da obra, que não agrada tanto como um todo, deixando a sensação de que faltou maior identificação com os personagens, com suas trajetórias. Mas esse obstáculo já era previsto, uma vez que a intenção do roteiro é gerar tensão a todo momento, sem permitir que o espectador respire – o que não abre muito espaço (nem tempo) para elaborar os personagens em cima de momentos dramáticos ou delicados. Sem falar de algumas atitudes improváveis (e não verossímeis) dos personagens que atrapalham um pouco o enredo.

A direção sublime de Krasinski e sua preocupação em causar ansiedade com cada aspecto técnico à sua disposição fazem de Um Lugar Silencioso algo grandioso. A fotografia naturalista (que ao mesmo tempo precede a tempestade) controla bem a iluminação de seus ambientes escuros, estes muito bem construídos com objetos embaralhados e amontoados que causam desconforto evidente no público que se vê diante de uma ótima contextualização de “fim do mundo”. A direção de arte também acerta em cheio nos figurinos, destacando cores quentes como o vermelho e o amarelo, simbolizando a força da família frente à um mundo sujo, perdido e sem esperanças. A trilha musical também emociona no momento certo, enquanto a montagem assume um difícil papel de manter (e elevar) o nervosismo do espectador diante de cenas super angustiantes.

A nova obra de Krasinski pega seu público de jeito com profundidade imensa no desenrolar de suas cenas, deixando a sensação de claustrofobia e os instintos de sobrevivência saltarem. É possível que o espectador às vezes passe a rezar para que tal cena acabe logo de tão torturante que é. Mesmo não sendo o melhor filme para se identificar com personagens e suas características (nem com a história em geral), é uma ótima produção para se apegar às cenas, mesmo que de forma separada. Com um pé no “cinema de arte” e outro no puro entretenimento, Um Lugar Silencioso deve ser encarado como uma chance de enxergar o cinema de terror e suspense com novos olhos. E com novos ouvidos.

FICHA TÉCNICA
Direção: John Krasinski
Roteiro:
Brian Woods, Scott Beck, John Krasinski
Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe
Produção: Michael Bay, Andrew Form, Brad Fuller
Fotografia: Charlotte Bruus Christensen
Música: Marco Beltrami
Montagem: Christopher Tellefsen
Gênero:
Suspense / Terror
Duração: 95 min.

Longa dirigido - e atuado - por John Krasinski supera as expectativas e entrega porções intensas de agonia e tensão Não preciso fazer muito esforço para lembrar que a última vez que me senti tão encurralado e aflito no cinema foi ao ver os últimos minutos de Fragmentado. Todos os anos vemos no cinema (ou assistimos em casa) diversas produções de terror com suspense que mais reproduzem clichês e conceitos pré-concebidos do que realmente inovam em sua abordagem temática, o que acaba proporcionando experiências repetidas, forçando o espectador a se contentar com o que está vendo. Um Lugar Silencioso, ainda que não largue mão de algumas técnicas manjadas e desnecessárias como os já saturados jump scares, alcança uma façanha inesperada em todas suas cenas: uma frenética e eficiente tensão em seu público. Em uma fazenda dos Estados Unidos, uma família do meio-oeste é perseguida por uma criatura assustadora. Para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, a qualquer custo, pois o perigo é ativado pela percepção do som. De cara conhecemos os membros dessa família: o pai corajoso e determinado, interpretado por John Krasinski, a mãe protetora e sensível, interpretada por Emily Blunt, e um casal de filhos pequenos interpretados por Noah Jupe e Millicent Simmonds. Por um lado, é triste que os pequenos não possuam personalidades marcantes, apesar de tempo suficiente em cena, mas isso é facilmente suprido pela forte presença de Krasinski e principalmente pela calorosa atuação de Blunt, que se prova cada vez mais uma das melhores atrizes da atualidade (assim como fez em A Garota no Trem). As cenas possuem originalidade notável na forma como criam agonia no público. A grande jogada é a premissa da ausência de som, que abre um leque gigantesco de possibilidades para fazer o espectador se assustar, ter medo, e sentir a inquietude à flor da pele. Krasinski sabe muito bem disso e explora sua técnica de todas as maneiras possíveis. Noah Jupe, que já se provou um ator empolgante em Extraordinário, se entrega aqui ao desespero e às inseguranças de um filho tendo que assumir o papel de "homem da família". Enquanto isso, a personagem de Millicent Simmonds é afetada muitas vezes por sua inexpressão, parecendo alguém sem emoções em algumas cenas, apesar de notarmos os esforços da atriz hora ou outra. O filme tem seus problemas, como o frequente uso de jump scares que se apoiam em picos sonoros previsíveis e que poderiam muito bem ser removidos e ainda criar apreensão. Outra coisa que me incomodou foi a unidade narrativa da obra, que não agrada tanto como um todo, deixando a sensação de que faltou maior identificação com os personagens, com suas trajetórias. Mas esse obstáculo já era previsto, uma vez que a intenção do roteiro é gerar tensão a todo momento, sem permitir que o espectador respire - o que não abre muito espaço (nem tempo) para elaborar os personagens em cima de momentos dramáticos ou delicados. Sem falar de algumas atitudes improváveis (e não verossímeis) dos…

Um Lugar Silencioso

Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Montagem
Arte
Trilha Sonora

Ótimo

81

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