Entrevista com a equipe de Um Homem Só | Cinematecando

Posted On 14/10/2016 By In Artigos, Notícias

Entrevista com a equipe de Um Homem Só

O filme Um Homem Só estreou faz alguns dias nos cinemas de todo o país e nós, do Cinematecando tivemos o privilégio de conhecer e conversar com a diretora do filme e os atores principais.

Caso, não tenha visto o filme ainda, leia a nossa crítica e não perca tempo: vá conferi-lo no cinema!

Um Homem Só conta a história de Arnaldo (Vladimir Brichta), um homem infeliz, preso a um casamento infeliz e dependente de um emprego entediante, que vive uma vida miserável sem uma válvula de escape sequer que o anime, até que conhece Josie (Mariana Ximenes), uma garota misteriosa, linda, mais nova, mais livre do que ele e dona de um cemitério de animais. Percebendo em Josie a chance de fazer sua vida valer a pena, Arnaldo ouve rumores sobre uma clínica que faz cópias das pessoas para que sejam colocadas nas rotinas torturantes enquanto as versões originais fogem para ter uma vida feliz. Arnaldo resolve sem pestanejar que essa é a solução para sua vida, só que as coisas não correm como esperado e ele precisa fugir de muitas coisas – além de sua vida chata.

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A ideia da história do filme surgiu em uma roda de amigas. “Uma noite, estava na casa de Mariana Ximenes, com a Maria (Carneiro da Cunha, produtora) e uma outra amiga ‘civil’ (ela é médica), quando a Mariana falou de sua vontade de fazer um papel diferente. Contei a ideia do filme e ela respondeu na lata: ‘Quero fazer’’. Eu: ‘Posso escrever para você’. Ela: ‘Vou produzir’. E foi assim, tomando uma cerveja, que a gente decidiu fazer o filme”, conta Claudia Jouvin, roteirista e diretora. Vladimir Brichta entrou no projeto mais tarde, mas completamente seduzido, segundo ele: “Conheci a Claudinha (Jouvin, diretora) por intermédio do pai dela, Claudio Paiva, com quem já trabalho há bastante tempo (na série Tapas e Beijos). Claudia me convidou para fazer o filme e me mandou o roteiro. Li e gostei demais. Achei inteligente, divertido, poético, pop, com uma cara de cinema independente, no melhor sentido. Depois eu entendi melhor, porque a Claudia gosta muito de uma cultura jovem pop que reconheço e da qual gosto muito também. ”

Mas do nascimento da ideia até o filme chegar às telas foi preciso muito tempo para trabalhar melhor a história, apurar as referências e decidir o tom que será retratado. “Quando partimos para fazer o filme, foram cinco anos de preparação até conseguirmos levantar recursos suficientes. Em cinco anos, dá para fazer muita coisa, né? Visitei um milhão de coisas, vi um milhão de filmes. A ideia inicial era ter um visual mais elaborado, escandaloso. Mas, vendo os filmes do Wes Anderson, que adoro, resolvi baixar a bola. Amo o Wes Anderson, mas toda vez que vejo um filme dele, não consigo me emocionar. Parece que estou vendo o aquário mais lindo do mundo, mas não consigo entrar na história. É frio. Fiquei pensando que talvez fosse justamente pelo exagero plástico que não conseguia entrar na história. Tinha nas mãos um romance com toques fantásticos, sobre cópias – o que já é uma maluquice do inferno, porque o público do filme brasileiro não está acostumado com isso. E ainda vou fazer mil frufrus? Não. Resolvi baixar a bola de tudo. O tom dos atores, o humor” diz Claudia.

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No filme, Vladimir Brichta da vida a dois personagens idênticos, Arnaldo e sua cópia, e para colocar os dois na tela interagindo, foi preciso muito trabalho com dublês e alguns efeitos especiais. “Nunca tinha feito um duplo, mas já participei de vários filmes que precisaram de efeitos. Já fiz cenas de explosão, aplicações, cromas. Portanto tinha alguma experiência e sabia, por exemplo, como reagir a uma tela verde. A diferença é que em muitas cenas foi preciso a presença de um dublê e, por incrível que pareça, achei mais difícil contracenar com o dublê do que com a tela verde. Precisava reagir a um impulso, ou a um diálogo, supondo o que eu mesmo faria – mas eu ainda não tinha feito “o outro lado”. O entendimento daquele personagem deveria ser o meu entendimento. Lidar com um dublê que tem uma leitura diferente da sua é estranho. É alguém que te causa um estímulo, mas seria uma reação diferente se você mesmo estivesse fazendo aquilo. O bom do filme é que a gente não percebe o efeito, ele está totalmente a serviço da história. É um cinema mais barato e mais autoral também. A ficção científica está a serviço de uma história de amor, e a própria questão da identidade era mais importante do que a ficção científica. ” Explica Vladimir.

Uma das coisas que mais chamam a atenção do público é o fato da loiríssima Mariana Ximenes ostentar longos cabelos ruivos e sardas, mas segundo Claudia Jouvin todo esse trabalho não era à toa: “Josie, a personagem da Mariana, não é ruiva sem razão. Aquela menina precisava ser muito diferente. Era uma maneira de marcar a identidade dela. É única, rara. Por isso é ruiva e sardenta. Arnaldo chega naquele lugar, que já é completamente diferente do universo dele, e encontra aquela menina maravilhosa, que afinal de contas é a Mariana Ximenes ruiva. Eu já imaginava que ela ia ficar linda ruiva. Sempre escrevi a Josie imaginando a Mariana. Ela adora caracterização. Faz parte do processo dela. Sabia que ia ser puxado, mas acabou sendo mais do que eu imaginava. O Martin (Trujillo, maquiador) ‘carimbava’ as sardas maiores com uma esponja, e depois ia fazendo as menores, uma a uma. Para a cena de sexo entre Josie e Arnaldo, ele fez o corpo inteiro da Mariana. Foram cinco horas de preparo”. Já para Mariana Ximenes todo esse trabalho de caracterização era parte principal para “entrar” na personagem “O tempo da caracterização me ajudava muito. Claudinha separou várias músicas de inspiração que já começava a ouvir enquanto Martin me maquiava. Martin é um profissional muito competente e atento, me passava uma enorme segurança. Filmamos em janeiro, era um calor descomunal, o que só tornava o trabalho dele mais difícil. Para a produção foi ótimo – não choveu um dia sequer, e tínhamos muitas externas. Josie é uma jovem defensiva no amor, ela teve muitas perdas na vida. Mas, aos poucos, quando se apaixona, vai ficando mais “molinha”. O legal é que o fato de ela amolecer não tira sua rebeldia. A gente falava que a Josie é uma “chata adorável”. Meio rabugentinha… (risos). ”

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Neste filme, Mariana Ximenes estreia como produtora e para ela conciliar a função de atriz e produtora foi importante para agregar valor à obra. “Estou cada vez mais apaixonada pelo processo de feitura. Tudo começa pequeno e vai tomando corpo, vai transbordando. Cada pessoa que entra no time acrescenta algo importante. Participei de algumas decisões, ajudei a escolher pessoas da equipe e do elenco. Estava muito perto do processo, da Maria. Maria e a Claudinha são muito amigas, as decisões foram tomadas a partir da decisão das três. O bom da Claudinha como diretora é que ela tem confiança para dividir suas escolhas entre amigos. Admiro muito o trabalho delas. Não é só o pessoal que conta, o profissional também, claro. Falamos a mesma língua. A profissão do ator depende muito da espera de convites – por isso é bom ficar ativa no processo, tomar as escolhas para si. Mas é claro que na hora de filmar eu sou a atriz. Não confundo as funções. É preciso separar os problemas, ter outros produtores parceiros para não tirar a concentração. ”

E quando a questão é analisar o longa finalizado, Vladimir analisa: “É surpreendente como é um filme diferente. Quando li o roteiro, parecia ser principalmente uma comédia de ficção científica. O filme tem um humor presente o tempo todo, mas não é uma comédia cheia de gargalhadas. No fim das contas, é sobretudo uma história de amor. Essa descoberta, de ter feito uma comédia romântica, com tom inusitado de ficção e de fantástico, foi muito boa. Acho que o filme tem um toque feminino que lhe confere uma sensibilidade toda especial. Temos, aliás, muitas mulheres filmando, e o cinema só tem a ganhar bastante com isso. ”

Confira abaixo algumas fotos dos bastidores do longa!