Os curtas-metragens de Ari Aster | Cinematecando

Posted On 21/09/2020 By In Artigos, Filmes

Os curtas-metragens de Ari Aster

Muito já se ouviu falar sobre Ari Aster desde que seu longa de estreia, Hereditário (2018), tomou grandes proporções e impressionou a crítica mundial, se configurando em inúmeras listas como um dos melhores filmes de horror da década. Após o lançamento de seu aguardado e até então mais recente filme, Midsommar (2019), também popular entre os fãs do gênero e aclamado de forma geral, se torna evidente que ainda mais comentários positivos serão feitos sobre o talento do diretor em conduzir medo e tensão utilizando artifícios não convencionais.

Desde 2018, o profissional tem sido identificado – junto a diretores como Jennifer Kent, Jordan Peele e Robert Eggers – como um dos grandes expoentes de um terror calcado na perturbação psicológica e em uma atmosfera sufocante, fortalecido por músicas angustiantes e interpretações viscerais.

O curioso, porém, é que a maior parte do público, fã ou não do diretor, não se interessa em conhecer a fundo o histórico audiovisual do cineasta: seus curtas-metragens envolventes e analíticos. É com o objetivo de divulgar, enaltecer e correlacionar a abordagem de seus curtas com o tratamento de suspense e drama dos longas do diretor, que elaboro este artigo.

O nova-iorquino de 34 anos nasceu em uma família judia que sempre produziu, consumiu e incentivou a arte. Com um pai músico e uma mãe poeta, Ari Aster se tornou obcecado por filmes de terror desde criança, frequentemente alugando todas as fitas de locadoras locais que podia encontrar, e já cedo passou a escrever roteiros. Fã assumido das obras de diretores como Roman Polanski, Ingmar Bergman e John Carpenter, o jovem Aster se formou em cinema pela Santa Fe University of Art and Design (SFUAD) em 2010 e, logo no ano seguinte, escreveu e dirigiu seus 3 primeiros curtas.

⦁ TDF Really Works (2011) – 3 min

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Sua estreia no audiovisual foi com uma comédia controversa que mescla elementos autoexplicativos com situações desconfortáveis entre dois amigos que conversam sobre flatulências e pênis.

Com uma linguagem cinematográfica simples, o roteiro traz comicidade de forma divertida, satirizando o formato de propagandas televisivas, ao mesmo tempo que constrange seu espectador. Filmado, interpretado e editado por apenas 3 pessoas, sendo Aster e seus colegas Will Emery e Reid Chavis, esta é sem dúvidas a obra que mais foge da filmografia do diretor.

⦁ The Strange Thing About The Johnsons (2011) – 29 min

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O segundo curta de sua carreira foi também o mais longo, com duração de praticamente meia hora. A história gira em torno de uma conflituosa relação entre pai e filho de uma típica família de classe média estadunidense. Conforme as consequências tomam proporções mais drásticas, os membros da família lidam com as desavenças de um traumático segredo que escondem.

Aster conduz uma história na linha tênue entre drama e comédia, com toques de suspense muito bem trabalhados. De forma a ironizar os padrões hollywoodianos de criar cenas tensas, o curta demonstra uma evolução significativa na direção do cineasta, que agora utiliza e abusa de enquadramentos e movimentos de câmera, idealizados juntamente com seu colega de faculdade, o diretor de fotografia Pawel Pogorzelski, com quem ainda trabalharia em todos os seus projetos futuros, incluindo seus longas. O curta marca também o início da parceria do diretor com outro profissional que viria a trabalhar em outros curtas do diretor: o produtor Alejandro De Leon.

É em The Strange Thing About The Johnsons que podemos presenciar o nascimento dos elementos que mais se assemelham com a abordagem existente em Hereditário e Midsommar: o terror que vive nas entrelinhas, a câmera que passeia os ambientes e, claro, a inevitável tragédia familiar.

⦁ Beau (2011) – 7 min

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Em Beau, Aster além de continuar sua parceria com o produtor Alejandro De Leon, faz questão de não abandonar seu gosto pelos alívios cômicos, ao mesmo tempo que nos convida a acompanhar a história de um neurótico homem de meia idade (Billy Mayo, que também atuou no segundo curta do diretor) que passa a suspeitar que está sendo observado após as chaves de seu apartamento sumirem misteriosamente de sua porta.

Dosando humor e a tensão, o curta valoriza a paranoia do personagem principal e flerta com convenções do cinema de invasão domiciliar, nos convencendo, ainda no primeiro ano de trabalho do diretor, sua capacidade em nos causar estranheza, dúvidas e apreensão, enquanto nos faz rir das circunstâncias mais improváveis.

Curioso que além de Alejandro na produção e do ator Billy Mayo, que protagoniza novamente um curta de Aster, há na equipe seus próprios colegas de classe que estiveram em seu curta de estreia: os já mencionados Will Emery (que participa como diretor de fotografia e como ator) e Reid Chavis (mixador de som). Inclusive, é possível até identificar o diretor atuando em um rápido momento do curta.

⦁ Munchausen (2013) – 16 min

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Dois anos após seus três primeiros curtas, Aster divulga o que talvez represente o melhor equilíbrio estético e técnico de todos os curtas do diretor. O curta Munchausen conta uma história que pode parecer simples, apelativa e fácil de se identificar, porém é aproveitando dessas aparências que o cineasta dá seu toque especial ao conciliar um roteiro sensível com sutilezas de suspense dramático que deixam o espectador ansioso e preocupado, se não incrédulo, mesmo sem utilizar nenhum diálogo.

Acompanhamos uma mãe possessiva que, incapaz de aceitar que seu filho está crescendo e indo embora de casa para fazer faculdade, se mostra disposta a fazer o que for preciso para mantê-lo em seus braços. Dos belos enquadramentos e da preocupação do design de produção com cada objeto e cor, à impactante música que respira tons alegres em momentos acolhedores e harmonias contrastantes e chocantes em momentos tensos, nos sentimos tocados com a qualidade audiovisual e presos naquela trama tão bem dirigida.

Enquanto o enredo propõe discussões a respeito de temas como os limites do egoísmo humano, é possível sentir levemente a evolução da habilidade e do gosto de Aster em trabalhar relações familiares, algo que seria ampliado a níveis surpreendentes em seus longas.

Neste curta, além de Alejandro De Leon, que pela última vez assina a produção de um curta do diretor, temos um prestigiado nome no elenco. Estou falando da premiada atriz Rachel Brosnahan, conhecida por interpretar Miriam Maisel no premiado seriado The Marvelous Mrs. Maisel, fazendo sua primeira aparição em um curta do diretor.

⦁ Basically (2014) – 15 min

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Se o início foi em Munchausen, é em Basically que Rachel Brosnahan finalmente protagoniza um curta de Aster, sendo inclusive o único curta do diretor protagonizado por uma mulher. Aqui a atriz interpreta Shandy, uma garota vaidosa que conta para o público acontecimentos, opiniões e fatos de sua vida privilegiada.

Além do bom e indispensável humor, o diretor mostra aqui (ao mesmo tempo que ironiza) o fato de que conhece bem a melhor forma de trazer um clima melancólico utilizando de uma lenta aproximação de câmera no rosto da personagem, com uma iluminação de luzes baixas, e uma composição musical (composta por Brendan Eder, que também compõe a ótima trilha do curta The Strange Thing About The Johnsons) melancólica que nos cativa sem esforços. Sendo inteiramente filmado com um tripé fixo em diversos cenários, o curta permite que o espectador conheça a história através da narração da protagonista e da linguagem simplista do filme, que com despretensiosas panorâmicas é capaz de nos entreter mais que muitos movimentos de câmera audaciosos por aí.

Em Basically, se torna evidente o interesse de Aster em abordar temas como a superficialidade das relações humanas diante de uma sociedade cada vez mais hipócrita, algo explícito em seus longas. A personagem de Shandy nos comprova da forma mais cínica e sarcástica possível, que vivemos criando e alimentando suposições infundadas, estabelecendo pré-conceitos de tudo o que vemos e ouvimos, sem ao menos pararmos para pensar que existem vidas, visões e realidades diferentes além de nossa própria consciência.

⦁ The Turtle’s Head (2014) – 12 min

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Além de Rachel Brosnahan, outro ator coadjuvante de Munchausen que recebe a chance de protagonizar um curta de Aster no ano seguinte, é Richard Riehle. Aqui o ator interpreta um detetive de idade avançada chamado Bing Shooster, que embora ainda trabalhe investigando casos, parece não conseguir se livrar de seus instintos mulherengos. Tudo se complica quando Bing começa a se deparar com uma condição médica assustadoramente angustiante: um gradativo e inexplicável encolhimento de seu pênis.

Conforme o personagem passa a perder a atenção em descobertas importantes do caso que investiga, a paranoia e o medo de perder seu órgão genital só aumentam, e o diretor explora essa condição de forma espantosamente realista e ousada. Assim como seus outros curtas, a obra propõe aqui algo muito além do puro conteúdo satírico. Há um intrigante exercício de transição de gênero cinematográfico em um período curto de tempo (12 min) coordenado por Aster (desta vez também sendo o montador do curta), que obriga seu público a sentir exatamente o desconforto e a agonia do protagonista.

Enquanto a fotografia flerta com o noir, novamente a música de Brendan Eder tem um papel importantíssimo na trama, porém dessa vez num trabalho mais próximo ao realizado por Daniel Walter em Munchausen, acentuando cenas impactantes e conduzindo o ritmo da obra. Isso fica evidente principalmente após a lenta e quase imperceptível passagem do humor negro de Aster para um body horror desesperador.

⦁ C’est La Vie (2016) – 8 min

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Dois anos após The Turtle’s Head e dois anos antes do lançamento de Hereditário, Aster roteiriza, dirige e novamente edita seu último curta-metragem (até o momento). C’est La Vie, elaborado nos moldes do curta-metragem Basically, com enquadramentos fixos em diferentes cenários, é possivelmente uma síntese de todos os argumentos apresentados em seus curtas antecessores. Assim como a personagem de Shandy, aqui Chester (Bradley Fisher) é um agressivo morador de rua que fala diretamente para o público tudo o que pensa sobre as pessoas, o mundo em que vivemos e suas hipocrisias.

É desde cedo interessante acompanhar as críticas e posicionamentos do protagonista, que aponta o quão egoístas e alienados nós seres humanos nos tornamos, e de certa forma, a grande genialidade do curta está no fato de Chester não ser tão diferente das pessoas que critica. Trabalhando quase em cima de uma metalinguagem social envolta de sua peculiar, implícita e sagaz comicidade, Ari Aster nos mostra como nós, questionadores da vida, na maioria das vezes não levantamos um dedo (senão apontando-o) para sequer fazer alguma diferença.

E mais uma vez nos deparamos com uma curiosidade que nos revela a eficiência de uma parceria frutífera, baseada na amizade e na capacidade de trabalhar juntos. O colega de faculdade de Aster, Reid Chavis volta mais uma vez para participar de um curta do diretor, dessa vez em 3 tarefas diferentes, sendo responsável pela câmera e departamento elétrico, assinando como assistente de produção, e ainda fazendo uma pequena aparição no filme.

Embora seus curtas não tenham ligação direta com o profundo horror dramático presente em seus longas, Aster comprova como soube utilizar todo seu aprendizado e experiência com a temática de suas primeiras obras audiovisuais para nos causar incômodo, pavor e aflição enquanto dialoga, através de seus convincentes protagonistas, com o sentimento de perda, dor e o risco de vida que correm.

Ari Aster, de uma forma geral, nos apresenta em seus curtas (e longas) o quão despreparados estamos/somos para lidarmos uns com os outros de forma decente, digna e respeitosa. O mundo é uma porta aberta e escancarada para o horror, seja ele social, visual/físico ou psicológico, e o diretor, magistralmente, apenas nos convida a adentrá-la.