Posted On julho 25, 2017 By In Artigos

Não há beleza na depressão

Eu não consigo me lembrar do exato momento em que ter depressão se tornou algo “legal” e normal para algumas pessoas, como se viver com uma nuvem preta em cima da própria cabeça fosse aceitável. Talvez tenha sido o Tumblr, o Twitter. Ou será que isso começou no Instagram? A verdade é que existe um grupo considerável que romantiza diversas doenças mentais, assim como o uso de medicamentos fortíssimos. Eu acho que grande parte de vocês se recorda da moda de estampas de remédios: em algumas lojas online – e até físicas – dava para encontrar capinhas de celular com “rivotril” escrito bem grande. Para quem não sabe, Rivotril é um medicamento usado para o tratamento de transtornos de humor, ansiedade e até algumas síndromes psicóticas. E o que tem de tão bonito nisso? Nada. Não é glamouroso.

Depressão é sentir uma tristeza profunda, uma exaustão emocional sem tamanho. É, às vezes, sentir uma dor de cabeça absurda, irritação no estômago, ansiedade, tremedeira. É isso e muito mais. A depressão, em algum momento, te faz perder o sentido da vida e, então, é como se você não se importasse em olhar para os dois lados da rua antes de atravessar. Tanto faz. E, quando não existe mais meios de fazer parar a dor, a depressão leva ao suicídio. Veja bem, isso não é bonito e não deve ser visto como algo “da moda”.

Há mais ou menos dois meses, recebíamos a notícia do suicídio de Chris Cornell, vocalista da banda Soundgarden (e também das bandas Audioslave e Temple Of the Dog). Com isso, surgiram diversas discussões sobre a importância de falar sobre depressão de maneira séria. E, pouco tempo depois, quando todo esse assunto já estava quase esquecido, recebemos a notícia do suicídio de Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, banda que marcou a nossa geração. Com isso, novamente surgiram diversos textos e vídeos sobre como nós precisamos falar sobre depressão de maneira séria. E esse texto é mais um dentre muitos que vai falar sobre isso. Mas que vai pedir, antes de tudo, para que a gente não se esqueça de como tratar a depressão quando todo o baque dessa tragédia passar.

Quando um artista morre, é sempre um choque muito grande, principalmente para os fãs. Acredito que as músicas do Linkin Park inspiraram e motivaram muitas pessoas a seguirem adiante. Quem acompanha a carreira de Chester e suas entrevistas, já ouviu ele falar muitas vezes sobre depressão. Em uma entrevista ele chegou a dizer que não era fácil estar dentro da sua cabeça, que a sua mente não era um lugar saudável. Tudo isso me faz pensar o quanto fama e dinheiro, por exemplo, não são fatores que determinam felicidade. E, por mais óbvio que isso pareça, muitas pessoas pensam assim. É absurda a quantidade de comentários nas matérias sobre o suicídio de Chester que falam algo como: “ele foi covarde, tinha tudo e tirou a própria vida. Vai para o inferno”. Além de uma baita falta de empatia, a pessoa atribui o sentido da felicidade em bens materiais, o que não faz o mínimo sentido.

Nós nunca vamos entender o que se passa na cabeça da outra pessoa, até mesmo de um amigo íntimo. Alguns sentimentos e pensamentos, principalmente os sombrios, ficam guardados porque há quem enxergue a tristeza como uma fraqueza. Mas depressão não é besteira, essa doença te faz sentir sozinho mesmo que mil pessoas estejam ao seu lado, mesmo que você esteja cercado de pessoas boas. Basta passar um tempinho sozinho com os seus pensamentos para que toda a angústia e agonia aflore novamente. Não é fácil passar por isso, especialmente quando a pessoa em questão tem uma vida pública e recebe críticas absurdas de quem se acha no direito de sair falando por aí o que bem entender.

Esse texto é mais um desabafo do que qualquer outra coisa. Quando eu comecei a escrever, não sabia exatamente em que ponto eu queria chegar ou se teria uma lição de moral no fim. Acredito que vale reforçar aqui a importância de ser compreensivo, ter empatia e nunca minimizar o sentimento alheio. Cada pessoa sente com uma intensidade diferente. O que não é nada para mim, pode ser muito para o outro. Não vamos esquecer de como entender a depressão (e não romantizá-la) quando o suicídio de Chester não for mais manchete. Descanse em paz!

*IMPORTANTE* 

Se você tem depressão, não tenha vergonha de procurar ajuda. Converse com pessoas de confiança e aceite o tratamento. A depressão é uma doença que pode ser controlada.

Ligue para o 141 (Centro de Valorização da Vida) em momentos de desconforto que podem te levar a tomar medidas extremas.

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Redatora do Cinematecando | Jornalista, 22 anos e apaixonada por livros, música e, claro: filmes! Conheceu a magia do cinema através de Harry Potter e Jurassic Park ainda na infância e, desde então, passa horas e horas se dedicando a encontrar um bom filme para assistir no tempo livre. Louca por séries, não suportaria um dia sem Netflix ou sem fones de ouvido e sequer se lembra de como era a sua vida sem esses dois “itens” básicos de sobrevivência. Além disso, tem um porquinho da índia tão lindo que roubaria facilmente o papel de protagonista nos filmes de Hollywood!