Posted On 26/01/2017 By In Artigos

O documentário Blackfish e os animais apresentados como entretenimento

Há décadas, os animais são utilizados para nos entreter – seja em filmes, parques, circos e afins. Durante o espetáculo tudo é lindo e maravilhoso, e ouso em dizer que em certas vezes são experiências mágicas. O único porém é: o que há por trás de toda obra apresentada? Como o animal é tratado? Como foi o treinamento dele para a realizar o “número”?

São perguntas como essas que originaram o documentário Blackfish (2013), três anos após a morte da treinadora Dawn Brancheau do parque SeaWorld pela orca Tilikum (que por sua vez faleceu no dia 06 de janeiro de 2017, aos 30 anos). O documentário começa com a ligação do parque para o corpo de bombeiros relatando que uma das baleias comeu a treinadora. Parece pesado, não é?

Esquecemos o fato de que esses são animais selvagens e o nome ‘baleia assassina’ não é a toa. Blackfish apresenta relatos de pescadores e de antigos treinadores do parque SeaWorld sobre como os animais são “pescados”, e de que a morte da treinadora (considerada uma das mais experientes e que convivia mais com Tilikum), não foi a primeira a ser morta por uma orca. A mesma já havia matado uma antiga treinadora quando era filhote em um antigo parque no Canadá. O documentário contém depoimentos de uma neurologista para explicar como funciona o cérebro das orcas e por que elas agem de forma agressiva, e nos faz questionar: como alguém pensou que era natural confinar um animal de 5 toneladas numa piscina e achar que podia domesticá-lo?

A morte de treinadores é apenas uma das consequências do estresse do animal. Em aquários, as orcas vivem apenas de 25 a 30 anos, enquanto na natureza as fêmeas podem viver até 100 anos e os machos até 60 anos. Outra causa de estresse são que os animais são separados de sua própria família e são colocadas várias orcas de “tribos” diferentes no mesmo aquário, o que leva a se tornarem mais agressivas umas com as outras, chegando ao assassinato – o que já ocorreu com a orca Kandu, que morreu de hemorragia causada por outra orca em 1989.

Concluímos que Blackfish nos mostra apenas uma das formas de exploração animal. Não é porque são alimentadas ou bem cuidadas que significa que não são escravizadas, limitadas à natureza real. Outra forma de exploração é o caso de animais em circo: você preferiria ver um leão fazendo um show que põe a vida de todos em risco ou em seu habitat natural sendo feliz? É preciso relembrar o caso do Circo Vostok (2000), quando um dos leões dentro da jaula (pequena, com mais quatro leões) agarrou um menino de seis anos e os outros animais o atacaram juntos. Após uma hora do ataque, a polícia atirou nos leões para que deixassem o corpo. Quatro dos cinco leões foram mortos e a necropsia afirmou que a última alimentação dos animais havia sido três dias antes do ataque. Isso sem contar as falhas de segurança na jaula. Onze anos depois, a família recebeu a indenização. E os animais? Foram mortos por agir conforme a sua natureza, e quem vai indenizá-los por isso? Pagaram com sua própria vida.

O mais recente caso (que sabemos) sobre a exploração e abuso de animais, é o do pastor alemão no filme Quatro Vidas de um Cachorro. O vídeo vazou na semana passada e mostra claramente que o animal não quer pular na piscina que parece um rio com correnteza. O diretor Lasse Hallstrom e o produtor Gavin Polone afirmaram que já se preocupavam com o tratamento e a segurança dos cachorros desde o princípio, e que na cena gravada em 2015 nenhum deles estavam presentes e não sabiam do fato ocorrido.

Em 2013 se tornou ativa a Lei 5.197/1967, que prevê a proibição do uso de animais fora do cativeiro em peças publicitárias. Porém, a restrição não inclui animais criados de tal maneira, incluindo os bichos provenientes de circo. Ou seja, você não pode pegar um animal que está em seu lugar da natureza, tirá-lo e filmar, mas você pode pegar qualquer animal que está em cativeiro, independente das condições do mesmo e filmá-lo à vontade. Isso foi condicionado pelo Ministério do Meio Ambiente, porém não conduz a diminuição dos cativeiros e até qual cativeiro, pois existem alguns poucos que ajudam no resgate animal que cuidam se estão machucados e doentes, mas não deveriam ser utilizados em filmagens.

O maior choque é que apenas em junho de 2015 a Câmara aprovou o projeto de lei que proíbe o uso de animais em filmes pornográficos, também alterando a Lei de Crimes Ambientais para tipificar a prática como crime, sujeito a detenção de três meses a um ano, além de multa. Se no caso de morte do animal, a pena é aumentada de um sexto a um terço. Tais medidas requerem algumas reformas, no entanto, queremos acreditar que funcionem, assim como que as pessoas não sejam só punidas, como também inspecionadas.

Felizmente, hoje podemos encontrar vários documentários que nos alertam sobre o abuso e maus-tratos de animais usados para nos entreter e sobre a importância da preservação do meio ambiente. Tudo isso nos leva à reflexão… até onde podemos financiar a dor e o sofrimento alheio, e até onde um espetáculo vale mais do que a liberdade de um animal?

Veja a lista de documentários sobre o assunto que estão disponíveis na Netflix:

Blackfish (2013)
O Extermínio do Marfim (2016)
Mission Blue (2014)
Tyke Elephant Outlaw (2015)
Virunga (2014)

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