Penny Dreadful e a importância de ir além do terror | Cinematecando

Posted On 04/11/2016 By In Artigos - Séries, Séries

Penny Dreadful e a importância de ir além do terror

Por Giovanna Orlando

No século XIX, a Inglaterra vivia a Era Vitoriana, época de grandes explorações e conquistas, expansão do Império Britânico, revolução industrial, desenvolvimento do mercado editorial e alfabetização das classes pobres. Consagraram-se nesse período autores como Sir Arthur Conan Doyle (Sherlock Holmes) e Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Gray). Popularizou-se entre as massas os penny dreadfuls, que eram livretos que custavam um centavo e narravam histórias recheadas de horror, sexo, drama, suspense e sangue, nos quais os protagonistas eram assassinos, monstros e serial killers.

Esta é a origem da série Penny Dreadful, de John Logan, lançada em 2014 pelo canal Showtime e que foi finalizada em meados desse ano. A trama se passa na Inglaterra Vitoriana e apresenta releituras de personagens de contos de terror conhecidos, como Drácula, Van Helsing, Dorian Gray, Victor Frankenstein e sua criatura, vampiros e lobisomens. A intenção não é contar a história deles de maneira clichê, mas manter a aura já conhecida e permitir que eles se reinventem, coexistam e experimentem coisas que não foram vistas em nenhuma outra adaptação.

A personagem principal, Vanessa Ives, é interpretada por Eva Green de forma sublime, conseguindo encantar e assustar em questão de minutos. Ives é uma mulher misteriosa e possuidora de poderes sobrenaturais, que é atormentada por espíritos e criaturas malignas. Ela vive na casa de Sir Malcolm Murray (Timothy Dalton), um explorador solitário que busca a filha capturada por criaturas do submundo.

O doutor Victor Frankenstein (Harry Treadaway) é brilhante e ambicioso, acredita que consegue romper a barreira entre a vida e a morte e é perturbado pelos próprios fracassos e temores. Suas criaturas conseguem roubar a cena e mostrar que não são apenas “servos”, mas são donas de si mesmas.

Dorian Gray (Reeve Carney) é o único personagem que se atém à sua aura original. O rico, imortal e perigoso personagem consegue se recriar de maneira sensível e permite que algumas personagens secundárias floresçam e tragam temas importantes de serem discutidos, tanto no século XIX como atualmente.

Por fim, o enigmático e sedutor Ethan Chandler (Josh Hartnett) é um atirador americano que vai para a Inglaterra com o propósito de fugir dos seus demônios e reinventar sua própria história. Apesar de todos os personagens embarcarem juntos nas aventuras que permeiam a trama, a série consegue fazer com que cada um tenha o seu próprio brilho e seus questionamentos. Ela tenta aprofundar seus personagens e mostrar como todos são atormentados pela dualidade entre o bem e o mal. O motivo pelo qual todos se encontram e as razões que os motivam a permanecerem unidos são diferentes, mas todos buscam a mesma coisa: sua salvação.

A séria aborda temas considerados proibidos na época em que é ambientada e tabus os dias de hoje, como: homossexualidade, prostituição, aborto, protagonismo da mulher, religião, misticismo, sexo e transexualidade. Ela apresenta seus pontos, mas permite que o espectador tenha a sua própria reflexão do tema e em como a crítica é pertinente para nossa sociedade.

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Penny Dreadful contempla e exalta o diferente, traz personagens que não vivem na alta sociedade e aventuras pelo submundo. Não é apenas terror. É uma série sensível e reflexiva, onde você se apega aos mais diferentes personagens e torce para que, no fim, todos consigam se livrar de seus demônios. Uma vez que se apaixona por Penny Dreadful, é impossível deixar de assistir e de sentir saudade.

As primeiras duas temporadas estão disponíveis na Netflix!