Posted On julho 5, 2017 By In Filmes, Rebobinando

Rebobinando: Digam o que Quiserem (1989)

A adolescência. Possivelmente o período mais marcante de nossas vidas. É quando começamos a sentir o peso das responsabilidades, quando começamos a conhecer o amor e suas complicações, quando o mundo todo parece estar caindo sobre nós e as pressões sociais aumentam a cada dia. Obras-primas dos anos 80 como Gatinhas e Gatões (1984), Clube dos Cinco (1985) e Curtindo a Vida Adoidado (1986) fizeram do diretor e roteirista John Hughes um mestre da temática adolescente. Mas nem todos se lembram de um outro grande clássico da década, escrito e dirigido por Cameron Crowe. Filmes românticos adolescentes podem parecer cheios de clichês e completamente previsíveis, alguns realmente são, mas ainda assim conseguem entreter o público com diálogos criativos e construções naturais/fiéis de comportamento dos personagens (que representam a adolescência), o que aumentam a identificação do espectador. A obra da vez é…

DIGAM O QUE QUISEREM (1989)

Lloyd Dobler (John Cusack) acaba de completar o ensino médio e não tem qualquer perspectiva para o futuro. Ele é apaixonado pela garota mais linda e inteligente do colégio, Diane Court (Ione Skye), que está de viagem marcada para a Inglaterra. Desesperado, ele fará de tudo para conquistá-la no verão que resta, mas primeiro precisará escapar dos olhares atentos do protetor pai da amada, James Court (John Mahoney). Pocha… que sinopse boba não é? Sinceramente, até concordo, mas é o suficiente para te manter grudado na tela por 100 minutos.

Cameron Crowe, que embora tenha seus altos e baixos, se mostra um diretor competente e responsáveis por ótimos filmes que permanecem em nossas memórias. Digam O Que Quiserem (desastrosa tradução do título original Say Anything) é um desses, e representa com fidelidade e estilo a transição da adolescência para o mundo adulto, logo após o fim do ensino médio. Afinal, quem não se lembra do quão difícil é lidar com suas paixões e incertezas enquanto tentamos escolher uma faculdade e uma carreira a se seguir? Sem dúvida não são tarefas simples, muito menos para o protagonista do filme.

A grande aposta do filme não está na história em si (elemento imutável dos principais acontecimentos e pontos de virada do filme), mas sim no próprio enredo, onde nos deparamos com cenas saborosas de humor, paixão e fragilidade emocional. Os personagens são realistas, repletos de comportamentos genuínos de adolescentes como dancinhas esquisitas, expressões faciais exóticas e gestos corporais diferentes, que apenas a juventude compreende. Isso realça o contraste entre o fato de estarem se tornando adultos (dirigindo e seguindo seus sonhos), e a realidade juvenil de suas mentes, que assim como qualquer adolescente ainda quer se divertir, rir e se emocionar como qualquer um.

Apesar do filme possuir uma tratamento naturalista de interpretação, não é tão simples quanto parece, a atuação exige dos atores (já adultos) uma grande imersão na adolescência dos personagens e suas características particulares, e John Cusack e Ione Skye atuam como profissionais experientes na área, sendo que na época ambos não tinham mais de 6 anos de carreira. Seus personagens são para o público, nostálgicos mas também atuais, e são entre si diferentes porém semelhantes, sendo construídos em cima de um leve estereótipo que só tem a acrescentar ao roteiro.

A trilha sonora, previsivelmente, se baseia em subgêneros de rock e seus variantes, desde o metal até o funk americano. Podemos encontrar músicas de bandas e artistas conhecidos como Depeche Mode, Red Hot Chili Peppers e Joe Satriani. Toda essa mistura de gostos evidenciam a liberdade da juventude nos anos 80, e dão uma sensação saudosa mesmo em expectadores que nasceram nos anos 2000, provando a importância e explosão cultural da década de 80 e sua eterna influência em nossos costumes, comportamentos e gostos.

Claro, como se eu não fosse comentar a especial direção de Cameron Crowe, que além de ter escrito cada palavra do roteiro, que se apresenta agradável e autêntico em todas as cenas, também é responsável pela escolha de planos e seus movimentos, junto ao diretor de fotografia László Kovács. Cada opção escolhida por ambos deixa a impressão de trazer um sentido para a história, para o momento que os personagens se encontram. A câmera está sempre fluida, buscando o simples prazer visual do expectador, que se empolga com o filme logo de início.

Se você é um cinéfilo nostálgico e fanático pela cultura dos anos 80 e nunca assistiu ao filme, com certeza vai adorar conferi-lo o mais rápido possível. Indico a todo que gostem de um bom drama romântico, mas que também contém ótimos alívios cômicos super engraçados. Sem dúvidas, Say Anything ficará (ou deveria ficar) na memória por muitos anos. Enquanto a década de 80 for relevante para a cultura mundial, acredito que as obras-primas desse período também serão, principalmente da sétima arte.

 

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Redator do Cinematecando | Estudante de Cinema, 18 anos. Aspirante a roteirista, desde criança acompanhava seus pais até uma das locadoras de sua cidade para alugar os mais variados filmes; aí nasceu sua paixão pela Sétima Arte. Considera-se fanático por Cinema Clássico, Jazz e Jogos Eletrônicos, de preferência com uma boa história.