Posted On 06/09/2017 By In Filmes, Rebobinando

Rebobinando: IT – Uma Obra-Prima do Medo (1990)

Qual a chance de um filme de terror ser tão infantil e tão adulto ao mesmo tempo? Convenhamos que não é tão grande, principalmente antes de 1990, ano de lançamento do filme hoje relembrado. Hoje, a coulrofobia (medo de palhaços) é algo quase que intrínseco no psicológico de muitas pessoas, mas o que talvez mais tenha colaborado para isso seja a estilização aterrorizante de palhaços e, nessa função, o que pode ter sido mais influente que o próprio cinema e o audiovisual com suas maquiagens e efeitos especiais medonhos? Para brindar o novo lançamento de terror It – A Coisa (2017) que estreia esta semana, homenageamos o clássico que o inspirou, juntamente com o livro original escrito por Stephen King. No Rebobinando de hoje, vos deixo com o afamado e perpétuo…

“IT – UMA OBRA-PRIMA DO MEDO” (1990)

Essa adaptação de 1990 acabou por não cair no gosto de alguns cinéfilos, especialmente os já fanáticos leitores dos livros de Stephen King, que ficaram desapontados com algumas cenas que não seguiram à risca muitas das particularidades do livro, além de simplesmente não contar com várias das passagens relevantes descritas no material original. Na minha visão pessoal, além de já ser algo comum em muitas adaptações literárias, It, o livro, contém mais de de 1100 páginas, o que torna difícil uma adaptação extremamente fiel sem exclusão de diálogos e ocasiões, mesmo que o filme dure 3 horas muito bem aproveitadas. Poderia funcionar bem melhor num formato de seriado, com vários episódios e quem sabe temporadas, mas não é o que temos em mãos.

No enredo, Derry é uma pacata cidade que foi aterrorizada 30 anos atrás por um ser conhecido como “A Coisa”, que se apresentava na maioria das vezes como o palhaço Pennywise, em busca de crianças. Com esta mesma forma ele reaparece, 30 anos depois. Quem sente sua presença é Michael Hanlon (Tim Reid), um bibliotecário e único de um grupo de sete amigos que continuou morando em Derry. Assim ele liga para Richard Tozier (Harry Anderson), Eddie Kaspbrak (Dennis Christopher), Stanley Uris (Richard Masur), Beverly Marsh Rogan (Annette O’Toole), Ben Hanscom (John Ritter) e William Denbrough (Richard Thomas), pois todos os sete quando jovens viram “A Coisa” e juraram combatê-la caso surgisse outra vez.

O filme se passa em duas épocas diferentes: o ano de 1960, quando os 7 jovens de 12 anos se conhecem, criam uma forte amizade e são aterrorizados pela primeira vez pelo palhaço Pennywise; e o ano de 1990, que é quando Michael Hanlon contata seus 6 amigos avisando que Pennywise está de volta, fazendo todos largarem suas vidas para cumprir uma promessa feita há 30 anos atrás (em 1960). Portanto, cada personagem é interpretado por dois atores, um adulto e outro com 12 anos. O legal é que, em ambos os casos, as atuações não decepcionam.

Não só as atuações não decepcionam, como também a própria elaboração dos personagens. Sentimos a preocupação de todos eles ao se sentirem ameaçados ou com medo, suas ações são críveis, e sua união admirável. Apesar da clara distinção de gêneros, dá até pra notar uma grande semelhança/inspiração nos personagens dos clássicos Os Goonies (1985), um filme infantil de ação, e Conta Comigo (1986), um drama infantil. Entendo que vários discordem, mas It é, em minha opinião, um filme capaz de colocar medo e tensão em qualquer expectador, independente de sua idade. É possível que na época fosse raríssima essa interpretação, mas acho que pelo século em que estamos e com todo abuso de efeitos especiais e jump scares, um terror diferente como It (se visto atualmente), mesmo que juvenil, consegue de fato chamar a atenção do povo e causar espanto.

A transição entre tempos é muito bem trabalhada, tanto nos longos flashbacks quanto nos curtos flashes de memória dos personagens, algo raro nos filmes. Além disso, a montagem ainda transborda criatividade ao unir planos em que as posições corporais do personagem em seu presente (1990) se assemelham com a de sua memória (1960).

Mas é claro que eu não ia me esquecer do principal. A atuação de Tim Curry como o palhaço Pennywise é provavelmente o maior chamariz do filme. O ator se apresenta confiante e versátil ao interpretar um personagem extremamente irônico, cômico e ao mesmo tempo assustador. A forte maquiagem do Pennywise colaboram para que as expressões faciais exageradas de Curry ganhem notoriedade, caracterizando perfeitamente um palhaço brincalhão, mas também com uma boa dose de sadismo explícita em seus olhares.

Com essa conquista, é possível afirmar que Pennywise é hoje um dos palhaços aterrorizantes mais lembrados do cinema, e não dificilmente o maior. A direção de Tommy Lee Wallace (editor do clássico Halloween (1978), dirigido pelo mestre John Carpenter), garante uma notável familiarização com os cenários e com os personagens. Sendo uma obra capaz de colocar medo até em quem adora palhaços, It se sobressai como um belo (e longo) entretenimento visual e sonoro.

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