Rebobinando: Louca Obsessão (1990) | Cinematecando

Posted On 08/03/2017 By In Filmes, Rebobinando

Rebobinando: Louca Obsessão (1990)

Cinéfilos de todo o mundo que são “loucamente obcecados” por thrillers e suspenses, precisam mais do que nunca assistir ao filme do Rebobinando de hoje. Mais uma bela obra da década de 90 que infelizmente está começando a cair no esquecimento do público, o que em minha opinião seria um crime, pois não é todo ano que vemos produções tão bem efetivadas por uma equipe técnica super competente, e dois boníssimos atores que sustentam toda expectativa do público com diálogos muito bem escritos/adaptados. Uma história estimulante dirigida por um gênio, escrita por um mestre, e roteirizada por um homem brilhante. Nada melhor que homenagear o dia da mulher com uma das melhores atuações femininas de todos os tempos, portanto hoje é dia de…

LOUCA OBSESSÃO (1990)

Mesmo quem não se interessa por suspenses irá se deliciar com as esplêndidas cenas desse clássico. O forte do filme é sua história demasiadamente bem fabricada e original, escrita por ninguém menos que Stephen King. Mas a obra não seria tudo isso se sua única qualidade fosse a história, pois quem não deixa a desejar são as interpretações exemplares e a direção meticulosa, que são diretamente auxiliadas pela trilha sonora carregada de tensão e pela impressionante direção de arte, conseguindo ambientar um ar obscuro que perdura todo o filme, seja em seus momentos mais tensos e sufocantes, ou mesmo em cenas calmas e intrigantes.

Após sofrer um acidente em uma região isolada, o famoso escritor Paul Sheldon (James Caan), é salvo por uma ex-enfermeira chamada Annie Wilkes (Kathy Bates) que é grande fã de seus livros. Entretanto, após descobrir que ele matou sua personagem mais famosa em seu próximo livro, ela passa a torturá-lo na intenção de fazer com que ele desista da decisão. Aos poucos Paul se vê como um prisioneiro pessoal de uma psicopata disposta a cometer loucuras para atingir seus objetivos.

Os personagens principais (Paul e Annie) se tornam muito interessantes aos olhos de qualquer espectador. Suas expressões faciais são naturais, seus diálogos são ponderadamente maduros, e suas mínimas ações causam emoções conflitantes no público. A platéia passa a torcer junto com Paul em todas suas decisões, além de aplaudir sua personalidade sagaz nos momentos que tenta enganar Annie, e esta por sua vez nos provoca os sentimentos mais aflitivos e lancinantes possíveis ao torturar o pobre escritor de formas horríveis, e o que intensifica nosso ódio pela antagonista é a apurada atuação de Kathy Bates, que se mostra um dos elementos mais chamativos da obra, provando que mulheres sabem e podem sim interpretar ótimas antagonistas, nos transmitindo quaisquer emoções negativas (cumprindo seu papel como personagem antagônico). O mais peculiar da personagem, é que ao mesmo tempo somos levados a sentir pena de Annie, por conta de sua condição alienada e doentia.

Outro atrativo relevante no filme é a arte dos cenários organizada por Norman Garwood, que conta com uma produção de objetos impecável, desde móveis antigos a inúmeros quadros cheios de detalhes. A paleta de cores frias (fazendo uma clara relação com a cidade gelada e inóspita) facilita a visão do espectador para com o estado deprimente de Paul, que se encontra mais atormentado a cada cena que passa. Nessa obra, a qualidade do roteiro de William Goldman se faz presente no jogo de expectativa do público, que vivencia o medo e a esperança na medida correta, pois ambos se constroem gradativamente e de maneira fantástica: nossa esperança que Paul consiga se livrar das loucuras de Annie aumenta conforme ele começa a elaborar vários planos que aparentemente parecem ótimos, mas nossa confiança em suas ações vai por água baixo quando a astúcia de Annie aparece para descobrir e estragar tudo.

Em nenhum momento deixamos de notar a particularidade da trilha sonora de Marc Shaiman, aspecto que se torna de extrema importância num filme de poucas locações e foco em diálogos, pois é fácil um expectador convencional se cansar com obras lentas e difíceis de digerir. Mas em Louca Obsessão a tensão da trilha sonora rege todo o desgosto captado pelo doloroso desenrolar do enredo. Busco aqui chamar a atenção para outro elemento do filme, a ótima direção de Rob Reiner, que também é produtor do filme. Estamos acostumados a valorizar apenas diretores que revolucionam o cinema com planos sequências (tomadas longas sem corte), ângulos incomuns e com enquadramentos fora do padrão. Vale lembrar que o princípio do cinema é bem simples: contar histórias através de imagens e sons. Visto isso, qualquer direção que saiba administrar cada membro da equipe e garantir o máximo de esforço de cada área para que a produção saia do jeito que planeja, deve ser aplaudida.

Seria um pecado terminar esse texto sem enaltecer (mais uma vez) o trabalho maravilhoso de Kathy Bates. Sua esmerada atuação marcou sua personagem (Annie Wilker) eternamente no coração dos amantes da Sétima Arte, e inclusive fez a personagem entrar no ranking dos 100 maiores vilões feito pela AFI (American Film Institute), ocupando o 17º lugar da lista. Sua atuação lhe rendeu um Globo de Ouro como melhor atriz dramática e um Oscar de melhor atriz, as únicas categorias para as quais o filme foi indicado, sendo obviamente uma injustiça, pois no mínimo o roteiro adaptado de William Goldman certamente merecia uma indicação.