Posted On 13/04/2017 By In Filmes, Rebobinando

Rebobinando: A Mosca (1986)

Sei que você pode pensar que essa seção é exclusiva para filmes românticos e glamourosos do cinema clássico hollywoodiano, mas a verdade é que, de vez em quando, é bom trazer uma ou outra produção que se difere dos padrões industriais cinematográficos. O filme de hoje continua sendo um clássico, mas um tipo distinto de clássico – daqueles que o público-alvo é o amante do terror nojento e de cenas angustiantes. Infelizmente, esse subgênero é visto erroneamente por boa parte dos cinéfilos como filmes de má qualidade que não merecem atenção ou reconhecimento; porém, são obras que exploram como nenhuma outra as facetas de nosso corpo através de cenas exageradas e inteligentes que precisam ser valorizadas. Dirigido pelo mestre do terror gore, David Cronenberg, que apesar de não ser tão lembrado atualmente quanto deveria, ainda é considerado um dos diretores mais queridos do cinema americano contemporâneo, a obra de hoje no Rebobinando é…

A MOSCA (1986)

É raro encontrar um fã de cinema que nunca ouviu falar de A Mosca, principalmente por conta de artigos e vídeos sobre filmes splatter (subgênero que se concentra em representações gráficas de sangue e violência gráfica). Entretanto, este é um terror obrigatório para qualquer cinéfilo por se caracterizar pela originalidade e fuga dos clichês desde sua premissa. É um terror que em vários momentos se torna dramático, impactante e angustiante ao mesmo tempo, e que sabe aproveitar seus efeitos especiais com carinho.

No filme, o cientista Seth Brundle (Jeff Goldblum) testa uma máquina de teletransporte de matéria e imprudentemente permite que uma mosca entre na câmara junto com ele. Quando se dá a reintegração, o DNA de Seth funde com o do inseto, dando início a uma perigosa mutação genética. A transformação é testemunhada pela jornalista Veronica Quaife (Geena Davis), moça pela qual Seth está apaixonado. O romance não é nem de longe o foco principal do filme, mas é o que move vários acontecimentos e decisões dos personagens e isso denota a formidável habilidade do roteiro em misturar gêneros e criar um enredo particular.

Inicialmente, a mutação não aparenta ser preocupante; Seth passa a se interessar pelas mudanças de sua pele e corpo, buscando compreender a fundo quais as vantagens e consequências da fusão. Já Veronica contrapõe o otimismo de Seth com suas inseguranças e preocupações. Isso traça um caminho para o espectador percorrer com suas interpretações e expectativas. A atriz Geena Davis consegue passar bem ao público os sustos, vontades e sentimentos de sua personagem, mas não tem espaço para brilhar em tela devido ao extraordinário desempenho de Jeff Goldblum, que acaba roubando todas as cenas com suas expressões alertas e exageradas, caindo muito bem com a construção do personagem.

O filme é, assim como Scarface (1983), um dos remakes mais famosos e ao mesmo tempo “desconhecidos” pelo público. Digo, o filme todos conhecem, mas poucos sabem realmente que se trata de uma refilmagem, de tão assombroso que é a superioridade para com seu antecessor. A Mosca é uma regravação do filme homônimo de 1958, dirigido e produzido por Kurt Neumann, que por si só já é baseado em um conto de George Langelaan. A história do filme é similar a do livro A Metamorfose, escrito por um dos mestres do século XX, o genial Franz Kafka.

Cronenberg não economiza no visual do filme e procura deixar a platéia inquieta com efeitos especiais efetivos e uma maquiagem de dar espanto. Nos planos, o diretor opta pelo uso de contraplanos em over shoulders para dar continuidade aos diálogos, dando uma ilusão de naturalidade ao filme, que logo se quebra com o desenvolvimento da trama cada vez mais tenebrosa. Os tons frios e a bagunça dos objetos de cena da casa/laboratório de Seth representam a atmosfera degradante de suas condições, uma vez que passa a se transformar em uma horrível mosca humana gradativamente. A aparência de Seth aos poucos vai piorando, enquanto seus instintos humanos vão deixando de existir, e seu consciente passa a assumir a identidade de um inseto.

David Cronenberg é apaixonado pelas facetas do corpo humano. Ele abusa de doenças e dos aspectos físicos para criar sensações desgostosas no público, o que faz muito bem desde suas primeiras obras. Essa produção foi o maior sucesso de bilheteria de um filme do diretor e se tornou um clássico imortal os olhos dos críticos. Considerado um dos filmes mais asquerosos (por conta de líquidos viscosos e texturas amedrontadoras), A Mosca levou para casa um Oscar por melhor maquiagem e penteado em 1987, e foi uma das poucas vezes que a Academia reconheceu uma das inúmeras qualidades técnicas de um filme de terror gore. O filme foi produzido com um orçamento relativamente baixo se comparar com os grandes lançamentos americanos (U$15.000.000), lucrando o triplo de seu investimento. A obra entrou pra história do cinema, marcando a carreira de vários envolvidos além do diretor, como os atores Goldblum e Davis.

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