Posted On 27/04/2017 By In Artigos, Filmes

Tributo a Jonathan Demme (1944 – 2017)

Assim como meu artigo em homenagem ao diretor iraniano Abbas Kiarostami ano passado, agora, com o falecimento recente do diretor americano Jonathan Demme, também falarei um pouco da relevância deste premiado cineasta, tanto para o cinema quanto para este que vos escreve.

Jonathan Demme, natural do estado de Nova York, alcançou seu ápice de sucesso nos anos 90 com seus filmes mais premiados como O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia. Antes disso, Demme não se deixou passar despercebido, pois nos anos 80, dirigindo filmes mais leves e até cômicos como Totalmente Selvagem e De Caso com a Máfia, ganhou certo crédito na indústria de cinema.

Este cineasta, que faleceu aos 73 anos, foi nome grande para o cinema e também televisão – seja como diretor, roteirista e produtor, tanto em filmes de ficção como documentários (onde até se aventurou na área de fotografia). Um cineasta de maiores habilidades.

Agora, vou para o campo do pessoal, e levar ao porquê deste artigo tributo a Jonathan Demme.

O interesse de um cinéfilo por cinema talvez chegue em um nível mais alto quando este começa a ‘viajar’ entre diferentes gêneros e explorar filmografias de diretores de variados estilos, e também de nacionalidades diferentes. Não fui exceção a esta “regra”.

Minha primeira introdução a Jonathan Demme foi provavelmente a mais óbvia, mas não menos marcante. Ao assistir o clássico O Silêncio dos Inocentes no final de minha adolescência, senti e pensei pela primeira vez algo que não havia em mim antes. A possibilidade de me interessar pelo outro lado… o lado do monstro, que no filme é Doutor Hannibal Lecter, um psiquiatra forense e também um serial killer canibal, interpretado com um mesmo nível de monstruosidade associada à talento e carisma por Sir Anthony Hopkins.

Vendo uma entrevista de Sir Anthony Hopkins falando sobre técnicas e macetes para atuação em cena, ele comentou sobre seu trabalho ao lado de Jonathan Demme em O Silêncio dos Inocentes, incluindo como ambos elaboraram como seria esta personagem no filme. Quando perguntado da dificuldade que seria representar uma personagem como aquela, um canibal serial killer, explicou o que ele e Jonathan Demme criaram dizendo: “Sei que como sou, nunca soube ou irei saber como é matar um homem ou devorá-lo vivo, pois não tive esta experiência, mas sei que consigo me divertir com coisas, consigo me divertir assistindo a uma partida de futebol, consigo me divertir num jantar com amigos, e de outras tantas maneiras, e se consigo me divertir fazendo todas essas coisas, sei que consigo me divertir atuando matando alguém ou devorando-a em cena” – e complementa ainda dizendo que foi um trabalho prazeroso e de clima leve na produção. A excepcional Jodie Foster, que interpreta a policial Clarice Starling, teve a mesma opinião sobre a gravação do filme.

Apenas uma teoria minha… mas talvez seja o passado de Demme, quando fazia filmes de comédia, com esse clima e atmosfera leve, que era parte essencial em seus sets de filmagem, não só para seus atores mas toda a equipe que ajudaram alguns destes trabalhos (tais como este filme) e tantos outros alcançarem um grau de naturalidade, independente do gênero ou enredo contado.

Cinematograficamente falando, sua maior contribuição estilística são seus famosos close-ups frontais em Primeiríssimo Plano (PPP) que visam colocar à força o espectador no lugar da personagem. E no caso de O Silêncio dos Inocentes, deu ao filme toda a potência claustrofóbica ao mesmo que intimidade empática, nesta que é, definitivamente, a melhor e mais marcante cena do filme, e uma das mais emblemáticas dos últimos trinta anos, certamente. Assim como Doutor Hannibal Lecter, o espectador também não pisca:

Também vale dizer que seu trabalho seguinte, Filadélfia, seu segundo filme mais conhecido, deu ao mundo do cinema mais duas grandiosas atuações com Tom Hanks e Denzel Washington. Além de outros bons trabalhos, como Sob o Domínio do Mal (2004) e um filme pequeno independente lançado em 2008 chamado O Casamento de Rachel, que para este redator apenas fica atrás de O Silêncio dos Inocentes na filmografia de Jonathan Demme.

O Casamento de Rachel têm atuações magistrais de Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt e de uma ‘dama do cinema’, Debra Winger, além de um eloquente trabalho cinematográfico com um Jonathan Demme mais documental, deixando as cenas e ambiente com certa frieza e cruas, tornando o balé de emoções de alegria e sofrimento das personagens uma montanha-russa triunfal de assistir.

Jonathan Demme deixa um legado que não será esquecido, e muitos fãs como este que vos escreve, certamente… além de um clássico que atravessará os tempos.

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