Um Dia: Isso não é uma história de amor | Cinematecando

Posted On 24/11/2016 By In Filmes, Livros

Um Dia: Isso não é uma história de amor

Por Mayara Zago

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Um dia. Vários significados podem ser atribuídos a essas duas palavras juntas para quem leu o livro de David Nicholls. Porém, para quem apenas viu o filme dirigido por Lone Scherfig, o único sentido possível é um romance fadado a acontecer.

Lone Scherfig é uma cineasta dinamarquesa que concorreu ao Oscar de 2010  com o filme Educação (2009) em três categorias: Melhor filme; Melhor atriz e Melhor roteiro adaptado. Ela também produziu filmes como Italiano para principiantes (2000) e Meu irmão quer se matar (2002), que marcaram sua carreira.

Para quem não tem familiaridade com a história, a sinopse parece clichê: dois jovens de 20 e poucos anos em sua formatura conversam pela primeira vez, exatamente no dia 15 de julho de 1988. Após uma noite juntos, decidem ficar amigos e assim a história se desenrola, sempre mostrando ano a ano, na mesma data, para explicitar como foi a vida de Emma Morley (Anne Hathaway) e Dexter Mayhew (Jim Sturgess).

A impressão ao ler a sinopse é de mesmice, um romance barato. Daqueles que você aluga por curiosidade na BlockBuster ou assiste em um final de noite na Netflix. Mas erra quem chega a acreditar apenas no que está ali, escrito na descrição do filme.

Em adaptações, é fácil comparar o quão melhor ou pior é ver em cores o que foi escrito em um livro cheio de detalhes únicos. Ao ler um livro, cada trecho, apesar de estarem escritos e serem imutáveis, perdem ou desviam o total sentido dependendo de quem está fazendo aquela leitura. As experiências individuais de cada um podem atrapalhar ou melhorar a visão que se tem de um longa metragem provido de uma adaptação.

É comum para quem decidir assistir a um filme provido de um livro que já leu, às vezes ir com a expectativa, mesmo que inconsciente, da frustração da diferença entre as duas obras e da possibilidade da falta de alguma cena especial. Porém, o leitor de Um Dia que vai com esse pensamento sai muito surpreso após quase duas horas de filme.

Em 2009 ocorreu o lançamento do livro, originalmente chamado One Day e apenas em 2011 houve a estreia do filme. A semelhança entre as duas obras é quase imperceptível – as cenas mais importantes para o relacionamento dos personagens são retratadas e alguns dos diálogos mais engraçados são trazidos à tona. Contudo, apesar disso, o exemplar não foi feito para ser retratado em imagens e cores.

A trilha sonora é muito boa e combina perfeitamente com cada época retratada nas cenas. O filme é leve e os dois protagonistas têm uma química muito forte. Entretanto, apesar de todos os pontos altos, inclusive a ideia muito bem pensada de Scherfig de começar o filme pelo final, o longa não convence.

Na realidade, é de uma surpresa enorme ver um livro que traz à tona tantos assuntos e questionamentos serem transformados em uma história de amor, quando na verdade não é. A história não é sobre amor e muito menos sobre amizade. Ela é sobre a vida.

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Ao sair da faculdade, as expectativas de Emma em torno do quão emocionante será seu futuro são muito grandes, mas esse cenário começa a mudar quando ela se vê presa em um momento de sua vida em que as expectativas diminuíram e sua visão de mundo foi modificada. Apesar de um pouco implícito esse sentimento de Emma, o filme peca ao focar tanto na vida de Dexter, esquecendo o real motivo de tudo ter mudado na vida dos dois: a vida, o amadurecimento dos personagens.

A romantização de Dexter e a forma na qual o filme focou na vida dele como o centro de toda a história, deixa em detrimento a forma como conhecemos Emma nos livros. Ela é inteligente, esperta, tem sacadas muito engraçadas e tem uma personalidade que merece ser aprofundada por conta da possibilidade de ser semelhante à vida de muitas pessoas.

Um dos charmes que atraía todas as mulheres com quem ele já se relacionou, inclusive é o que Emma mais enfatiza em sua primeira noite com ele: o cigarro. Característica que não é em nenhum momento demonstrado no longa.

Ao fazer um filme, escolhas são feitas e a direção que a história vai tomar depende muito dessas escolhas. Mas apesar das modificações de Scherfig, entre choro e risos, o livro vale muito a pena ser lido e, se a vontade de um romance/drama em um fim de noite estiver batendo à porta, Um Dia pode ser uma escolha agradável.