Crítica: Armas na Mesa | Cinematecando

Posted On 30/01/2017 By In Críticas - Lançamentos

Crítica: Armas na Mesa

“Lobby é questão de prever, de antecipar os movimentos de seus oponentes e conceber contra-medidas.” É com essas palavras que a lobista Elizabeth Sloane (Jessica Chastain) abre o filme Armas na Mesa (tradução de Miss Sloane). Quem pratica o lobby geralmente atua no meio político, e é contratado para argumentar sobre um determinado assunto de forma rígida e esforçada até convencer a parte de interesse que seu ponto de vista é o que vale. Tal poder de persuasão é importantíssimo nessa área e é preciso ser trabalhado por uma pessoa que sabe o que está fazendo. Elizabeth é uma dessas pessoas que não tem pudor algum quando se trata de conquistar a missão que lhe foi incumbida, além de defender o que acredita com força. Junte uma coisa à outra e o que vemos em tela é uma protagonista que esbanja atitude, frieza e não é nada maleável.

Mesmo sendo aprovado pela lei, lobby é um trabalho que nem sempre permanece lícito. Armas na Mesa mostra isso com clareza ao apresentar como tema principal a emenda sobre o controle rígido de porte de armas nos Estados Unidos, e a missão de Sloane ao defender essa causa. Tudo gira ao redor da emenda e das atitudes de Sloane quanto a essa questão, o que classifica o filme como um thriller político – com boas doses de suspense. Todas as etapas da aprovação ou não da emenda são bem trabalhadas, desde a discussão dos direitos e deveres das pessoas que possuem armas até o gancho de atitudes corruptas de políticos. Em sua estrutura e execução, o filme é importante para a época em que estamos vivendo por conta da abordagem que faz da violência.

Jessica Chastain é a essência de toda a história e não há nada que tire isso dela. Sua personagem é a mais forte que já interpretou em sua (já invejável) carreira, e é uma grande pena que seu trabalho não foi reconhecido pela Academia (mas ao menos não passou batido no Globo de Ouro 2017). Miss Sloane, como diz o título original, parece ser uma mulher que saiu de um laboratório de tão calculista e fria. Sua força está no jeito de andar, em seus olhares e em seus gestos. São poucos os momentos em que ela aparenta estar vulnerável; e nem mesmo esses momentos chegam a durar tanto. Sloane até poderia ser um homem, mas duvido muito que um personagem masculino teria tanta força como tem na pele de Chastain. Ela personifica essa mulher poderosa e que não tem nenhum tipo de remorso de maneira primorosa, o que faz as duas horas de filme passarem rápido.

E por falar em rápido… a direção de John Madden e o roteiro do estreante Jonathan Perera formam uma narrativa ágil, corrida e que demanda o máximo de atenção possível. É preciso ficar sempre atento nos diálogos afiados! A fluidez do filme ocorre graças à essa rapidez no roteiro e também por conta dos cortes entre o presente e o passado (o filme se passa entre esses dois momentos e o flashback é bem utilizado). A direção e roteiro também se articulam bem com a fotografia e trilha sonora, formando um encaixe perfeito na produção. Essa atmosfera de cores e ambientes, ainda mais com uma história que prende totalmente a atenção, torna toda a experiência fílmica impecável do início ao fim.

Todo o elenco de Armas na Mesa está excelente. De Alison Pill e Michael Stuhlbarg a Mark Strong e John Lithgow, o filme conta com atuações que são boas e que seguem o ritmo de Jessica Chastain, porém bem mais contidos. É interessante notar que tanto a personagem de Alison Pill e o ritmo da história se assemelham bastante com a série de TV (já finalizada) The Newsroom. A única diferença é que os personagens não estão em um programa jornalístico que tem a política como foco, mas sim no olho do furacão da política atual.

Se você adora um bom filme que entregue inúmeras reviravoltas, aborde temas atuais (e altamente válidos) e tenha uma protagonista de peso, Armas na Mesa merece sua atenção.

FICHA TÉCNICA
Direção:
John Madden
Roteiro: Jonathan Perera
Elenco: Jessica Chastain, Alexandra Castillo, Alison Pill, Doug Murray, Douglas Smith, Dylan Baker, Elena Khan, Ennis Esmer, Gugu Mbatha-Raw, Jack Murray, Jake Lacy, Joe Pingue, John Lithgow, Kyle Mac, Mark Strong, Meghann Fahy, Michael Stuhlbarg, Sam Waterston, Sergio Di Zio
Produção: Ariel Zeitoun, Ben Browning, Kris Thykier
Fotografia: Sebastian Blenkov
Montador: Alexander Berner
Trilha Sonora: Max Richter
Duração: 132 min.

"Lobby é questão de prever, de antecipar os movimentos de seus oponentes e conceber contra-medidas." É com essas palavras que a lobista Elizabeth Sloane (Jessica Chastain) abre o filme Armas na Mesa (tradução de Miss Sloane). Quem pratica o lobby geralmente atua no meio político, e é contratado para argumentar sobre um determinado assunto de forma rígida e esforçada até convencer a parte de interesse que seu ponto de vista é o que vale. Tal poder de persuasão é importantíssimo nessa área e é preciso ser trabalhado por uma pessoa que sabe o que está fazendo. Elizabeth é uma dessas pessoas que não tem pudor algum quando se trata de conquistar a missão que lhe foi incumbida, além de defender o que acredita com força. Junte uma coisa à outra e o que vemos em tela é uma protagonista que esbanja atitude, frieza e não é nada maleável. Mesmo sendo aprovado pela lei, lobby é um trabalho que nem sempre permanece lícito. Armas na Mesa mostra isso com clareza ao apresentar como tema principal a emenda sobre o controle rígido de porte de armas nos Estados Unidos, e a missão de Sloane ao defender essa causa. Tudo gira ao redor da emenda e das atitudes de Sloane quanto a essa questão, o que classifica o filme como um thriller político - com boas doses de suspense. Todas as etapas da aprovação ou não da emenda são bem trabalhadas, desde a discussão dos direitos e deveres das pessoas que possuem armas até o gancho de atitudes corruptas de políticos. Em sua estrutura e execução, o filme é importante para a época em que estamos vivendo por conta da abordagem que faz da violência. Jessica Chastain é a essência de toda a história e não há nada que tire isso dela. Sua personagem é a mais forte que já interpretou em sua (já invejável) carreira, e é uma grande pena que seu trabalho não foi reconhecido pela Academia (mas ao menos não passou batido no Globo de Ouro 2017). Miss Sloane, como diz o título original, parece ser uma mulher que saiu de um laboratório de tão calculista e fria. Sua força está no jeito de andar, em seus olhares e em seus gestos. São poucos os momentos em que ela aparenta estar vulnerável; e nem mesmo esses momentos chegam a durar tanto. Sloane até poderia ser um homem, mas duvido muito que um personagem masculino teria tanta força como tem na pele de Chastain. Ela personifica essa mulher poderosa e que não tem nenhum tipo de remorso de maneira primorosa, o que faz as duas horas de filme passarem rápido. E por falar em rápido... a direção de John Madden e o roteiro do estreante Jonathan Perera formam uma narrativa ágil, corrida e que demanda o máximo de atenção possível. É preciso ficar sempre atento nos diálogos afiados! A fluidez do filme ocorre graças à essa rapidez no roteiro e também por conta dos cortes entre o presente e o passado (o filme se passa entre esses dois momentos e o…

Nota

Armas na Mesa

Ótimo

O diretor John Madden entregou o roteiro de Armas na Mesa pessoalmente para Jessica Chastain. Ele só tinha ela em mente quando leu o roteiro, e o fato dos dois já terem trabalhados juntos no filme A Grande Mentira (2010) só ajudou na escolha.

80

Jornalista especializada em cinema. Fundadora e editora-chefe do Cinematecando. Trabalhou como assessora de imprensa na 41ª edição da Mostra Internacional de Cinema e apresenta o canal do site no YouTube.