Posted On 31/10/2017 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: As Boas Maneiras

Este filme faz parte da programação oficial da 41ªMostra Internacional de Cinema em São Paulo.

As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas, é tão desnorteante que já me sentei pelo menos umas duas vezes para escrever uma crítica, sem sentir que obtive sucesso. Já vou direto ao ponto: não amo, mas gosto do filme um bocado. Amo, sim, o que foi pretendido pela dupla de diretores, um filme B de inúmeras facetas, sem medo de gerar um profundo estranhamento.

O longa conta a história de Clara (Isabél Zuaa), que trancou o curso de enfermagem e agora procura emprego como babá. É contratada por Ana (Marjorie Estiano), que está grávida e precisa de ajuda até o bebê nascer. As duas começam a se aproximar mais e mais, a ponto de formarem uma relação amorosa. O resto já prefiro não contar, mas posso dizer que se trata de um filme de lobisomem (como alguns dos pôsteres já indicam). Para minha surpresa, Dutra e Rojas optaram por um estilo muito próximo do terrir, gênero que coroou nomes como Sam Raimi, Joe Dante e John Landis, o último sendo responsável pelo que considero meu filme favorito de licantropos, Um Lobisomem Americano em Londres. Mas As Boas Maneiras, com seu subtexto erótico inicial, me trouxe memórias de filmes como Lobo, de Mike Nichols e Sangue de Pantera, de Jacques Torneur. Temos aqui as lentes amareladas que marcaram no primeiro, e do segundo, as transformações noturnas bastante discretas e misteriosas.

Os diretores também vão a fundo nas caracterizações: Ana tem um sotaque arrastado do interior, e boa parte da trilha sonora não-original consiste de sertanejo (Chora, Me Liga! é muitíssimo bem colocada); a senhoria de Clara, interpretada por Cida Moreira, é uma mulher religiosa, portanto sua casa é repleta de santos e santas. Desde o início fica claro que As Boas Maneiras é bastante literal, e isso pode agradar ou desagradar a membros do público. Ainda assim, Zuaa e Estiano estão cheias de verdade em suas interpretações, elevando diálogos algumas vezes artificiais. As duas emocionam no papel de mães, uma por escolha e outra por acidente.

Algo que certamente me incomodou foi a inclusão de diversas canções em meio à história, conferindo um clima de fábula mas destoando bastante do resto do filme. É uma marca registrada não só de Dutra e Rojas, como também de outras produções da Filmes do Caixote: o excepcional O Que se Move, dirigido por Caetano Gotardo, abordava diferentes lados da maternidade e da perda de um filho, intercalando diálogos e canções sem preparar o público desavisado. O impacto ali era surpreendente justamente por isso, mas aqui, num filme já tão complexo e cheio de influências, ficou como excesso. Ainda assim, a música chega a atingir notas assombrosas e realmente comoventes, completada também pela ótima trilha incidental de Guilherme e Gustavo Garbato.

Uma certa interpretação mirim é no mínimo inconsistente, e isso acaba importando para o impacto de algumas das cenas chave. Outro aspecto que remove o impacto de certos momentos é o uso de CGI, que oscila entre o extremamente artificial e o levemente verossímil.  Há um trecho, filmado em um Shopping Eldorado fechado e escuro, que perde sua força por apresentar uma criatura demasiadamente cartunesca, onde apenas uma sugestão poderia ter preservado o suspense. No entanto, se a computação demora a impressionar, a cena final de As Boas Maneiras conta com um polimento de efeitos admirável. Polimento que é também encontrado no uso de animatrônicos, breve mas realmente marcante, justamente por ser tão palpável.

A fotografia de Rui Poças (Zama) então, ajudada por alterações digitais, registra São Paulo de maneira fantasiosa, como com o já mencionado Shopping Eldorado transformado em uma construção a la Blade Runner 2049. Poças também deixa as cores vibrarem, sem timidez nenhuma no design de produção de Fernando Zuccoloto. A montagem de Caetano Gotardo, por sua vez, é eficiente, mas poderia facilmente enxugar alguns momentos. Mas enquanto peca no excesso, Gotardo também executa cortes violentos entre momentos completamente distintos em tom, gerando um efeito propositadamente cômico de choque (enfim, cinema que provoca reações!).

Posso até achar As Boas Maneiras um filme imperfeito, mas posso dizer que, se o tempo for generoso, Marco Dutra e Juliana Rojas terão um novo clássico em mãos. Há um bom trecho do filme, que envolve um nascimento e uma fuga, em que estive espontaneamente de queixo caído, maravilhado com sua visceralidade. Momento que pode entrar para a história do cinema nacional, justamente por não termos visto nada parecido em nosso pouco contemplado cinema de gênero. Portanto, se nem tudo decola, Dutra e Rojas pelo menos mostram do que são capazes juntos, depois de seus admiráveis filmes solo O Silêncio do Céu e Sinfonia da Necrópole, respectivamente. Aliás, vejo que os dois então compelidos a criar seu próprio mundinho cinematográfico, inclusive contando com participações de seus character actors habituais, como a já mencionada Cida Moreira, Gilda Nomacce, Eduardo Gomes e Hugo Villavicenzio. Toma essa, Dark Universe!

Este filme faz parte da programação oficial da 41ªMostra Internacional de Cinema em São Paulo. As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas, é tão desnorteante que já me sentei pelo menos umas duas vezes para escrever uma crítica, sem sentir que obtive sucesso. Já vou direto ao ponto: não amo, mas gosto do filme um bocado. Amo, sim, o que foi pretendido pela dupla de diretores, um filme B de inúmeras facetas, sem medo de gerar um profundo estranhamento. O longa conta a história de Clara (Isabél Zuaa), que trancou o curso de enfermagem e agora procura emprego como babá. É contratada por Ana (Marjorie Estiano), que está grávida e precisa de ajuda até o bebê nascer. As duas começam a se aproximar mais e mais, a ponto de formarem uma relação amorosa. O resto já prefiro não contar, mas posso dizer que se trata de um filme de lobisomem (como alguns dos pôsteres já indicam). Para minha surpresa, Dutra e Rojas optaram por um estilo muito próximo do terrir, gênero que coroou nomes como Sam Raimi, Joe Dante e John Landis, o último sendo responsável pelo que considero meu filme favorito de licantropos, Um Lobisomem Americano em Londres. Mas As Boas Maneiras, com seu subtexto erótico inicial, me trouxe memórias de filmes como Lobo, de Mike Nichols e Sangue de Pantera, de Jacques Torneur. Temos aqui as lentes amareladas que marcaram no primeiro, e do segundo, as transformações noturnas bastante discretas e misteriosas. Os diretores também vão a fundo nas caracterizações: Ana tem um sotaque arrastado do interior, e boa parte da trilha sonora não-original consiste de sertanejo (Chora, Me Liga! é muitíssimo bem colocada); a senhoria de Clara, interpretada por Cida Moreira, é uma mulher religiosa, portanto sua casa é repleta de santos e santas. Desde o início fica claro que As Boas Maneiras é bastante literal, e isso pode agradar ou desagradar a membros do público. Ainda assim, Zuaa e Estiano estão cheias de verdade em suas interpretações, elevando diálogos algumas vezes artificiais. As duas emocionam no papel de mães, uma por escolha e outra por acidente. Algo que certamente me incomodou foi a inclusão de diversas canções em meio à história, conferindo um clima de fábula mas destoando bastante do resto do filme. É uma marca registrada não só de Dutra e Rojas, como também de outras produções da Filmes do Caixote: o excepcional O Que se Move, dirigido por Caetano Gotardo, abordava diferentes lados da maternidade e da perda de um filho, intercalando diálogos e canções sem preparar o público desavisado. O impacto ali era surpreendente justamente por isso, mas aqui, num filme já tão complexo e cheio de influências, ficou como excesso. Ainda assim, a música chega a atingir notas assombrosas e realmente comoventes, completada também pela ótima trilha incidental de Guilherme e Gustavo Garbato. Uma certa interpretação mirim é no mínimo inconsistente, e isso acaba importando para o impacto de algumas das cenas chave. Outro aspecto que remove o impacto de certos…

41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

As Boas Maneiras

Bom

70

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