Crítica: As Boas Maneiras | Cinematecando

Posted On 05/06/2018 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: As Boas Maneiras

Marco Dutra e Juliana Rojas se arriscam com filme musical de lobisomem e atingem notas marcantes

Este filme fez parte da programação oficial da 41ªMostra Internacional de Cinema em São Paulo. Texto originalmente publicado em 31 de outubro de 2017.

As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas, é tão desnorteante que já me sentei pelo menos umas duas vezes para escrever uma crítica, sem sentir que obtive sucesso. Já vou direto ao ponto: não amo, mas gosto do filme um bocado. Amo, sim, o que foi pretendido pela dupla de diretores, um filme B de muitas facetas, sem medo de gerar um profundo estranhamento.

O longa conta a história de Clara (Isabél Zuaa), que trancou o curso de enfermagem e agora procura emprego como babá. É contratada por Ana (Marjorie Estiano), que está grávida e precisa de ajuda até o bebê nascer. As duas começam a se aproximar mais e mais, a ponto de formarem uma relação amorosa. O resto já prefiro não contar, mas posso dizer que se trata de um filme de lobisomem (como alguns dos pôsteres já indicam). Para minha surpresa, Dutra e Rojas optaram por um estilo muito próximo do terrir, gênero que coroou nomes como Sam Raimi, Joe Dante e John Landis, o último sendo responsável pelo que considero meu filme favorito de licantropos, Um Lobisomem Americano em Londres. Mas As Boas Maneiras, com sua tensão sexual crescente, remete também a filmes como Lobo, de Mike Nichols e Sangue de Pantera, de Jacques Torneur. Temos aqui as lentes amareladas que marcaram no primeiro, e do segundo as transformações noturnas executadas com discrição.

Os diretores também vão a fundo nas caracterizações: Ana tem um sotaque arrastado do interior, e boa parte da trilha sonora não-original consiste de sertanejo (Chora, Me Liga! é muitíssimo bem colocada); a senhoria de Clara, interpretada por Cida Moreira, é uma mulher religiosa, portanto sua casa é repleta de santos e santas. Desde o início fica claro que As Boas Maneiras é bastante literal, e isso pode agradar ou desagradar a membros do público. Ainda assim, Zuaa e Estiano estão cheias de verdade em suas interpretações, elevando diálogos algumas vezes artificiais. As duas emocionam no papel de mães, uma por escolha e outra por acidente.

Algo que certamente me incomodou foi a inclusão de diversas canções em meio à história, conferindo um clima de fábula mas destoando bastante do resto do filme. É uma marca registrada não só de Dutra e Rojas, como também de outras produções da Filmes do Caixote: o excepcional O Que se Move, dirigido por Caetano Gotardo, abordava diferentes lados da maternidade e da perda de um filho, intercalando diálogos e canções sem preparar o público desavisado. O impacto ali era surpreendente justamente por isso, mas aqui, num filme já tão complexo e cheio de influências, fica um pouco como excesso. Ainda assim, a música chega a atingir notas assombrosas e comoventes com as composições dos irmãos Guilherme e Gustavo Garbato, as quais também contaram com participação de Dutra e Rojas.

Infelizmente o uso de CGI oscila entre o artificial e o verossímil.  Há um trecho, filmado em um Shopping Eldorado fechado e escuro, que poderia ter mostrado menos da criatura e ainda gerar reações viscerais. No entanto, a cena final de As Boas Maneiras conta com um polimento admirável nos efeitos – polimento esse que é também encontrado no uso de animatrônicos, breve mas realmente marcante, justamente por ser tão palpável. Há também retoques digitais nas vistas de São Paulo, como o já mencionado Shopping Eldorado transformado em um edifício que parece saído de Blade Runner 2049.

A fotografia de Rui Poças (Zama) registra São Paulo de maneira fabulesca e vívida, além de favorecer a cativante direção de arte por Fernando Zuccoloto. A montagem de Caetano Gotardo, por sua vez, é eficiente, mas poderia facilmente enxugar alguns momentos. Mas enquanto peca no excesso, Gotardo também executa cortes violentos entre momentos completamente distintos em tom, gerando um efeito propositadamente cômico de choque (enfim, cinema que provoca reações!).

Posso até achar As Boas Maneiras um filme imperfeito, mas posso dizer que, se o tempo for generoso, Marco Dutra e Juliana Rojas terão um novo clássico em mãos. Apenas a transição entre seus dois atos foi o bastante para me deixar com o queixo caído, maravilhado com sua visceralidade e também sensibilidade – momento que certamente marcará nosso pouco contemplado cinema de gênero. Portanto, se nem tudo decola, Dutra e Rojas pelo menos mostram do que são capazes juntos, depois de seus admiráveis filmes solo O Silêncio do Céu e Sinfonia da Necrópole, respectivamente. Aliás, imagino que os dois, à sua própria maneira, estão compelidos a criar seu próprio mundinho cinematográfico, inclusive contando com participações de seus character actors habituais, como a já mencionada Cida Moreira e Gilda Nomacce, Eduardo Gomes e Hugo Villavicenzio. Toma essa, Dark Universe!

Marco Dutra e Juliana Rojas se arriscam com filme musical de lobisomem e atingem notas marcantes Este filme fez parte da programação oficial da 41ªMostra Internacional de Cinema em São Paulo. Texto originalmente publicado em 31 de outubro de 2017. As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas, é tão desnorteante que já me sentei pelo menos umas duas vezes para escrever uma crítica, sem sentir que obtive sucesso. Já vou direto ao ponto: não amo, mas gosto do filme um bocado. Amo, sim, o que foi pretendido pela dupla de diretores, um filme B de muitas facetas, sem medo de gerar um profundo estranhamento. O longa conta a história de Clara (Isabél Zuaa), que trancou o curso de enfermagem e agora procura emprego como babá. É contratada por Ana (Marjorie Estiano), que está grávida e precisa de ajuda até o bebê nascer. As duas começam a se aproximar mais e mais, a ponto de formarem uma relação amorosa. O resto já prefiro não contar, mas posso dizer que se trata de um filme de lobisomem (como alguns dos pôsteres já indicam). Para minha surpresa, Dutra e Rojas optaram por um estilo muito próximo do terrir, gênero que coroou nomes como Sam Raimi, Joe Dante e John Landis, o último sendo responsável pelo que considero meu filme favorito de licantropos, Um Lobisomem Americano em Londres. Mas As Boas Maneiras, com sua tensão sexual crescente, remete também a filmes como Lobo, de Mike Nichols e Sangue de Pantera, de Jacques Torneur. Temos aqui as lentes amareladas que marcaram no primeiro, e do segundo as transformações noturnas executadas com discrição. Os diretores também vão a fundo nas caracterizações: Ana tem um sotaque arrastado do interior, e boa parte da trilha sonora não-original consiste de sertanejo (Chora, Me Liga! é muitíssimo bem colocada); a senhoria de Clara, interpretada por Cida Moreira, é uma mulher religiosa, portanto sua casa é repleta de santos e santas. Desde o início fica claro que As Boas Maneiras é bastante literal, e isso pode agradar ou desagradar a membros do público. Ainda assim, Zuaa e Estiano estão cheias de verdade em suas interpretações, elevando diálogos algumas vezes artificiais. As duas emocionam no papel de mães, uma por escolha e outra por acidente. Algo que certamente me incomodou foi a inclusão de diversas canções em meio à história, conferindo um clima de fábula mas destoando bastante do resto do filme. É uma marca registrada não só de Dutra e Rojas, como também de outras produções da Filmes do Caixote: o excepcional O Que se Move, dirigido por Caetano Gotardo, abordava diferentes lados da maternidade e da perda de um filho, intercalando diálogos e canções sem preparar o público desavisado. O impacto ali era surpreendente justamente por isso, mas aqui, num filme já tão complexo e cheio de influências, fica um pouco como excesso. Ainda assim, a música chega a atingir notas assombrosas e comoventes com as composições dos irmãos Guilherme e Gustavo Garbato, as quais também contaram com participação…

As Boas Maneiras

Direção
Roteiro
Elenco

Ótimo

73

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Formado em Rádio, TV e Internet pela Faculdade Cásper Líbero (FCL). É redator no Cinematecando desde 2016.