Crítica: O Homem nas Trevas | Cinematecando

Posted On 09/09/2016 By In Críticas - Lançamentos

Crítica: O Homem nas Trevas

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“Não respire”, diz o título original de O Homem nas Trevas. Ironicamente, o longa é justamente um respiro de ar (não tão) fresco em um ano relativamente fraco para o cinema mainstream. Produzido pelo mestre Sam Raimi, trata-se de um filme que se inspira nos mais diversos thrillers de invasão domiciliar, e que expira, em sua simplicidade e confiança, um possível novo clássico para o cinema de terror.

O Homem nas Trevas traz a história de três jovens experientes em invadir e roubar de residências alheias na fantasmagórica cidade de Detroit. O trio formado por Rocky (Jane Levy, digna de atenção desde seu papel na cancelada série Suburgatory), Alex (o cada vez mais competente Dylan Minette, 13 Reasons Why) e Money (Daniel Zovato) parece ter tirado a sorte grande quando descobrem que um velho veterano de guerra cego (Stephen Lang, demonstrando uma impressionante fisicalidade), que vive isolado em um subúrbio abandonado da cidade, guarda dentro de sua pacata casa uma quantidade exorbitante de dinheiro que resultou de uma indenização após a trágica perda de sua filha em um acidente automobilístico.

Rocky, determinada a buscar um futuro melhor para si mesma e sua irmã mais nova, não pensa duas vezes e decide levar a missão ao final, apesar da relutância inicial de seu melhor amigo Alex. Passados os minutos iniciais da história, o grande plano, enfim, é colocado em ação. O que eles não esperavam, no entanto, era a tamanha hostilidade que os esperava no interior do local.

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Fede Alvarez, diretor responsável pelo recente reboot (ou seria remake?) de A Morte do Demônio, evidencia aqui um esmero invejável na construção de atmosfera e principalmente de espacialidade na casa do homem cego, cenário que, por fora, parece enxuto e ordinário, mas por dentro, apresenta certa complexidade (há um ótimo plano longo que estabelece os diversos “itens de interesse” espalhados pela casa, antes mesmo destes executarem seu papel definitivo).

Ademais, o clima só se exalta ainda mais pela fotografia expressiva de Pedro Luque, o design de produção preciso de Naaman Marshall e a trilha mórbida de Roque Banõs. Some a isto tudo a impecavelmente ritmada montagem, realizada a três mãos (!) por Eric L. Beason, Louise Ford e Gardner Gould, e o resultado é um deleite para fãs dos melhores thrillers de câmara.

Outro ponto alto é a já mencionada fisicalidade de Stephen Lang no papel da vítima tornada em antagonista, pelo menos até seus reais segredos serem revelados. A esta altura, o longa demonstrou intensidade e inteligência o bastante para não anular sua eficiência, mas a maneira com a qual as motivações do sujeito são expostas ao público culmina em uma cena que beira o extremo mau-gosto, revirando estômagos e possivelmente perdendo parte de seus espectadores no processo. Apesar disso, o já infame trecho não toma muito tempo e logo somos reintroduzidos ao frenesi tão bem conduzido por Alvarez, que entrega uma conclusão moralmente cinzenta e adequada à sua sombria visão.

Dylan Minnette and Stephen Lang star in Screen Gems' horror-thriller DON'T BREATHE.

Assim como seu contemporâneo Hush, de Mike Flanagan, O Homem nas Trevas mostra que, com um roteiro focado e uma equipe dedicada, a mais simples das premissas pode se tornar uma tensa e elaborada montanha-russa, da qual se sai ansioso por uma segunda vez.

Trailer

FICHA TÉCNICA
Direção: Fede Alvarez
Roteiro: Fede Alvarez, Rodo Sayagues
Elenco: Jane Levy, Dylan Minette, Daniel Zovato, Stephen Lang
Produção: Sam Raimi, Fede Alvarez
Fotografia: Pedro Luque
Montagem: Eric L. Beason, Louise Ford, Gardner Gould
Trilha Sonora: Roque Baños
Duração: 90 min
Gênero:  Terror / Suspense

“Não respire”, diz o título original de O Homem nas Trevas. Ironicamente, o longa é justamente um respiro de ar (não tão) fresco em um ano relativamente fraco para o cinema mainstream. Produzido pelo mestre Sam Raimi, trata-se de um filme que se inspira nos mais diversos thrillers de invasão domiciliar, e que expira, em sua simplicidade e confiança, um possível novo clássico para o cinema de terror. O Homem nas Trevas traz a história de três jovens experientes em invadir e roubar de residências alheias na fantasmagórica cidade de Detroit. O trio formado por Rocky (Jane Levy, digna de atenção desde seu papel na cancelada série Suburgatory), Alex (o cada vez mais competente Dylan Minette, 13 Reasons Why) e Money (Daniel Zovato) parece ter tirado a sorte grande quando descobrem que um velho veterano de guerra cego (Stephen Lang, demonstrando uma impressionante fisicalidade), que vive isolado em um subúrbio abandonado da cidade, guarda dentro de sua pacata casa uma quantidade exorbitante de dinheiro que resultou de uma indenização após a trágica perda de sua filha em um acidente automobilístico. Rocky, determinada a buscar um futuro melhor para si mesma e sua irmã mais nova, não pensa duas vezes e decide levar a missão ao final, apesar da relutância inicial de seu melhor amigo Alex. Passados os minutos iniciais da história, o grande plano, enfim, é colocado em ação. O que eles não esperavam, no entanto, era a tamanha hostilidade que os esperava no interior do local. Fede Alvarez, diretor responsável pelo recente reboot (ou seria remake?) de A Morte do Demônio, evidencia aqui um esmero invejável na construção de atmosfera e principalmente de espacialidade na casa do homem cego, cenário que, por fora, parece enxuto e ordinário, mas por dentro, apresenta certa complexidade (há um ótimo plano longo que estabelece os diversos “itens de interesse” espalhados pela casa, antes mesmo destes executarem seu papel definitivo). Ademais, o clima só se exalta ainda mais pela fotografia expressiva de Pedro Luque, o design de produção preciso de Naaman Marshall e a trilha mórbida de Roque Banõs. Some a isto tudo a impecavelmente ritmada montagem, realizada a três mãos (!) por Eric L. Beason, Louise Ford e Gardner Gould, e o resultado é um deleite para fãs dos melhores thrillers de câmara. Outro ponto alto é a já mencionada fisicalidade de Stephen Lang no papel da vítima tornada em antagonista, pelo menos até seus reais segredos serem revelados. A esta altura, o longa demonstrou intensidade e inteligência o bastante para não anular sua eficiência, mas a maneira com a qual as motivações do sujeito são expostas ao público culmina em uma cena que beira o extremo mau-gosto, revirando estômagos e possivelmente perdendo parte de seus espectadores no processo. Apesar disso, o já infame trecho não toma muito tempo e logo somos reintroduzidos ao frenesi tão bem conduzido por Alvarez, que entrega uma conclusão moralmente cinzenta e adequada à sua sombria visão. Assim como seu contemporâneo Hush, de Mike Flanagan, O Homem nas Trevas mostra que, com um roteiro focado e uma equipe dedicada, a mais simples das premissas pode…

Nota

O Homem nas Trevas

Ótimo

O título original do longa nos Estados Unidos era semelhante ao empregado no Brasil, "A Man in the Dark". O nome então foi alterado para "Don't Breathe", desde sua estreia no festival South-by-Southwest 2016.

80

Formado em Rádio, TV e Internet pela Faculdade Cásper Líbero (FCL). É redator no Cinematecando desde 2016.