Posted On agosto 9, 2017 By In Filmes, Rebobinando

Rebobinando: A Primeira Noite de Um Homem (1967)

Se existem atores com inúmeros papéis inesquecíveis, esses atores são Tom Hanks, Robin Williams e Dustin Hoffman. Esses 3 “magos” talentosos protagonizaram diversas aventuras durante os anos 80 e 90, além de outros bons papéis no início do século XXI. Williams deixará (já deixa) saudades com seus papéis como o professor John Keating em Sociedade dos Poetas Mortos (1989), como a Sra. Euphegenia Doubtfire em Uma Babá Quase Perfeita (1993), e como o professor Philip Brainard em Flubber (1997), além de outros. Hanks, por sua vez, jamais será esquecido por suas comédias românticas de início de carreira, mas sempre será lembrado por obras marcantes como Filadélfia (1993); Forrest Gump (1994); O Resgate do Soldado Ryan (1998); À Espera de um Milagre (1999); e até dublando o memorável Xerife Woody na trilogia de Toy Story (1995/1999/2010).

Mas a verdade é que antes de Robin Williams e Tom Hanks, outro homem dava início a uma das mais incríveis filmografias que um ator pode desejar. Sim, foi Dustin Hoffman o único dos 3 que iniciou sua carreira ainda no fim da década de 60, e que nela mesma já alcançou um sucesso invejável. É comum reconhecermos o ator por produções como Rain Man (1988); Tootsie (1982); Kramer vs. Kramer (1979); ou até mesmo por Perdidos na Noite (1969). Porém, o ator começou de fato sua carreira no cinema fazendo um pequeno papel em um filme, e já no mesmo ano (1967) foi presenteado com a chance de um papel principal em um filme dirigido por Mike Nichols, nome que já repercutia como uma grande promessa no cinema americano, pois um ano antes havia estreado na direção já com o aclamado Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (1966). E o Rebobinando de hoje é exatamente sobre a segunda obra dirigida por Nichols e protagonizada por Hoffman, chamada…

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (1967)

Não tão distante da Era de Ouro de Hollywood, mas em uma época em que o cinema moderno começava a tomar forma, Nichols apostou em uma narrativa clássica, dividida com identificáveis três ótimos atos adaptados pelo roteiro de Buck Henry e Calder Willingham (responsável pelo roteiro colaborativo de Glória Feita de Sangue, obra de 1957 dirigida por Stanley Kubrick). Essa aposta viria a ser considerada um dos melhores filmes de seu tempo, inovando e sendo original dentro de uma história aparentemente fácil de se trabalhar, porém difícil de ser transmitida ao público com uma visão tão singular quanto a escolhida por Mike Nichols.

Após se formar na faculdade, Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) retorna para casa. Indeciso quanto ao seu futuro, ele acaba sendo seduzido pela Sra. Robinson (Anne Bancroft), uma amiga de seus pais que tem quase o dobro de sua idade. A relação se complica ainda mais quando o rapaz se apaixona pela filha dela, Elaine (Katharine Ross). A partir daí o enredo se firma como uma abundante mescla de paixão, ódio, amor, mentiras e muita confusão. Embora isso tudo dê a impressão que o filme se trate de um drama, A Primeira Noite de Um Homem nada mais é do que uma divertidíssima e notável comédia. O drama existe sim, mas está escondido nos diálogos e na conturbada interação dos personagens.

O mais singular do filme, é que toda essa comédia é costurada em cima de uma abordagem diferenciada do humor. Onde o normal é criar risos no público através de diálogos cômicos (o que o filme não deixa de fazer), o roteiro joga com situações desconfortáveis elaboradas no silêncio, e faz do constrangimento juvenil do protagonista o maior aspecto de diversão do expectador. Esse tipo de humor funciona sem erros, deixando a platéia cada vez mais ansiosa para ver como vai se resolver a vida amorosa de Benjamin, que com ajuda da poderosa atuação do até então iniciante (embora não pareça) Hoffman, se torna um personagem carregado de inseguranças e ambições.

A atriz Anne Bancroft mostra um mar de emoções apenas com seu olhar e sua expressão corporal, e em alguns momentos consegue roubar facilmente a atenção de Hoffman. A ironia e as segundas intenções rondam as falas de sua personagem e fazem da Sra. Robinson quase uma femme fatale. Já a coadjuvante Katharine Ross desfruta de uma personagem simples, mas também não desaponta ao interpretar Elaine, conseguindo manter a atenção para si com uma evidente ingenuidade em suas ações. Outros personagens secundários como Sr. e Sra. Braddock (pais de Benjamin) cumprem suas funções com estilo.

Os planos escolhidos por Nichols envolvem bastante o expectador. O frequente uso do zoom out (desaproximação) causa uma sensação de identificação com o protagonista, e uma noção de que suas simples ideologias fechadas são um problema frente à gigante e abrangente visão de mundo das outras pessoas. O que ajuda nessa interpretação e que não deixa de chamar a atenção do público, é a montagem, que ao se construir em cima da visão de Benjamin se prova habilidosa e eficaz ao inserir cortes rápidos de planos curtíssimos (que faz referência às pequenas espiadas do protagonista no corpo da Sra. Robinson). Outros momentos de destaque da montagem são os da transição de ambientes e cômodos que não existem ali necessariamente, mas que criam uma harmonia visual metafórica bem interessante.

A Primeira Noite de Um Homem caracteriza perfeitamente o que chamam de “obra inesquecível”. E a prova disso é que o filme é frequentemente citado pelos cinéfilos por aí. A trilha sonora de Simon & Garfunkel, que embora não seja onipresente, é pontual e envolvente, dá um clima único para o desenvolvimento da história. O filme pode ser definido como uma comédia que usa do silêncio e da inovação do humor a seu favor, e que arranca ótimos risos de seu público. A obra foi indicada a 5 Oscars na época, e apesar de vencer somente na categoria de melhor direção, é considerada até os dias atuais um dos melhores filmes de Mike Nichols, além de um filme importantíssimo para a história do cinema americano.

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Redator do Cinematecando | Estudante de Cinema, 18 anos. Aspirante a roteirista, desde criança acompanhava seus pais até uma das locadoras de sua cidade para alugar os mais variados filmes; aí nasceu sua paixão pela Sétima Arte. Considera-se fanático por Cinema Clássico, Jazz e Jogos Eletrônicos, de preferência com uma boa história.