Crítica: Pânico

Crítica: Pânico

Existe uma linha tênue entre a infrutífera hipocrisia, e a autocrítica consciente. Muitos roteiros promissores acabam por escorregar em suas próprias intenções, se colocando, por fim, em uma posição completamente oposta daquela supostamente planejada. Para diversos críticos, os dois últimos capítulos da até então trilogia de Pânico (1996-2000), ainda que tenham tido seus bons momentos, falharam fortemente em apresentar algo tão significativo para o gênero de slasher como fez magistralmente o primeiro longa. Entretanto, em 2011 um quarto filme (último dirigido por Craven) foi capaz de retomar a identidade crítica-analítica do roteiro original de Kevin Williamson, redescobrindo uma metalinguagem inspiradora enquanto se moldava diante da futilidade, da modernidade tecnológica e dos limites da obsessão presentes na segunda década do milênio.

É com a chegada de um extremamente esperado quinto capítulo (intitulado apenas de “Pânico”), que os fãs precisam enfrentar a dificílima batalha contra as altas expectativas, mesmo que na presença de um material de divulgação prometedor e ótimas avaliações da crítica especializada. Dito isso, é com felicidade nos olhos e no peito que quem vos escreve afirma com segurança: o novo Pânico passa longe da hipocrisia e da pretensão de um roteiro superficial, entregando tudo aquilo que os fãs querem ver e aguardam por mais de 10 anos, mesmo que distante da mesma inventividade e ousadia do primeiro filme (1996).

O novo filme, que se passa vinte e cinco anos depois que Billy Loomis e Stu Macher aterrorizaram a cidade de Woodsboro, centra-se na personagem de Samantha Carpenter (Melissa Barrera), que retorna à Woodsboro após sua irmã mais nova, Tara (Jenna Ortega), com quem não possui mais contato, ser atacada pelo Ghostface. Enquanto outras vítimas começam a perder suas vidas, Sam precisa lutar contra segredos obscuros e contar com a ajuda de seus amigos para descobrir quem é o assassino por trás da máscara, algo que força os veteranos como a policial Judy Hicks (Marley Shelton), o aposentado ex-xerife Dewey Riley (David Arquette), a repórter Gale Weathers (Courteney Cox) e a corajosa Sidney Prescott (Neve Campbell) a reencontrarem e enfrentarem seus traumas para acabar com o assassino e tornar a cidade segura novamente.

A deliciosa metalinguagem sobre o gênero de slasher, as discussões sobre as “regras” para se sobreviver em um filme de terror e as perguntas realizadas pelo Ghostface sobre os filmes de horror favoritos das vítimas continuam vivos aqui,, talvez até em uma maior escala, visto que o roteiro se aproveita de inúmeras oportunidades para trabalhar essas referências e criar humor, ou mesmo críticas interessantes sobre como encaramos tais fatos atualmente. Inclusive, sobram até leves “cutucadas” aos filmes de horror dramático aclamados da última década e seu público, como Babadook (2014), A Bruxa (2015), Hereditário (2018), entre outros, amados por um público que se autodenomina “cult”, caracterizados arrogantemente e equivocadamente por muitos como “terror elevado” ou mesmo “pós-horror”.

O roteiro escrito pela dupla de roteiristas representada por James Vanderbilt e Guy Busick, sabiamente abusa de sua ironia para apontar incoerências nas atitudes dos personagens, as quais trágica e comicamente muitos de nós nos identificamos. Além disso, podemos ver um Ghostface realmente cruel, protagonizando cenas fortes de esfaqueamento, para alguns, difíceis de assistir. Há um equilíbrio saudável entre as cenas de terror e os alívios cômicos, e as falsas pistas plantadas durante o primeiro e o segundo ato funcionam bem para desviar nossa atenção, preparando o terreno para um surpreendente terceiro ato. Ainda que alguns novos personagens não tenham tempo de tela suficiente para captar de fato nossa atenção, boa parte deles nos convence com diálogos realistas e interessantes, que transbordam espontaneidade.

Não é nem de longe tarefa fácil honrar um legado deixado por mestres do horror como Kevin Williamson e principalmente Wes Craven (1939-2015), que além das franquias Pânico e A Hora do Pesadelo nos presenteou com obras imortais do gênero como Aniversário Macabro (1972), Quadrilha de Sádicos (1977) e As Criaturas Atrás das Paredes (1991). Felizmente, enquanto a trilha musical de Marco Beltrami abraça a nostalgia de seus inesquecíveis acordes desarmônicos, os diretores Bettinelli-Olpin e Gillett, responsáveis pelo ótimo Casamento Sangrento (2019), conseguem nos entreter por quase 120 minutos de filme, com cenas frenéticas, mortes brutais, muito humor ácido e um elenco competente composto por rostos já conhecidos e jovens promissores frente a novos personagens cativantes, além de brindar com gosto às inúmeras referências deixadas por Craven e Williamson (dessa vez produtor executivo do longa).

João Pedro Accinelli