Posted On 20/10/2017 By In Críticas - Séries

Crítica: Mindhunter (1ª Temporada)

Produções de investigação ou ação policial em seriado podem às vezes ser cansativas por possuírem estruturas narrativas repetitivas, e raramente aparece alguma coisa ou outra que difere do molde. Digamos que a nova série criada pelo roteirista Joe Penhall e produzida e dirigida por David Fincher não apenas revoluciona a elaboração do enredo de uma série investigativa, usando do suspense como um elemento importante na construção da história, como também alia excepcionalmente conhecimento e técnica.

Passando-se em 1977, nos primeiros dias da psicologia e perfil criminais no Federal Bureau of Investigation, a série gira em torno dos agentes do FBI Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), que entrevistam assassinos em série presos com fins de entender como esses criminosos pensam, depois aplicando esse conhecimento para resolver os casos em curso. É baseado no livro best-seller do New York Times, Mindhunter, que relata os anos que John Douglas passou perseguindo serial killers e estupradores, desenvolvendo seus perfis para prever seus próximos passos. A série então discute alguns de seus casos mais conhecidos, como o homem que caçava prostitutas no Alaska, o assassino de crianças de Atlanta e o matador de Green River. Porém, elaborando mais do que apenas um ensaio sobre esses casos, a série conta com os melhores recursos audiovisuais disponíveis em sua realização, tornando-se uma definitiva obra-prima da televisão.

A começar pela caracterização de seus personagens principais (Holden e Bill), vemos que ambos são multidimensionais, aprofundados psicologicamente. Conhecemos suas vidas, seus gostos, suas preocupações, o que gera uma simpatia (senão empatia) pelos investigadores, independente de suas ideologias. Logo mais, a personagem Wendy Carr (Anna Torv) também entra nessa lista. Os três são concebidos em cima de acertos e falhas, que além de destoar da infalibilidade tão presente em personagens do tipo, traz um ar bem realista à série.

O enredo estimula o expectador com um tratamento diferenciado do tempo explorado nas cenas mais mundanas, que é no mínimo uma novidade bem interessante. Dá pra perceber que a direção, embora compartilhada por vários diretores entre os episódios, em nenhum momento procura conduzir suas cenas resumidamente ou de maneira acelerada (um recurso muito usado em filmes e séries para que o tempo do episódio seja reduzido). Esse tempo “estendido” das cenas é muito eficaz por dar destaque para os diálogos densos dos personagens (evidenciados pela captação de som seca, quase sem ambiência). Mas o mais curioso, é que por conta da competência da montagem, esses trechos, ainda que extensos, não se tornam entediantes, pois os cortes são implementados no momento perfeito, deixando tudo dinâmico e prazeroso aos olhos de quem assiste.

“Intrigante” é uma palavra que define bem a maneira como o desenvolvimento das investigações e da pesquisa dos agentes se dá ao longo dos episódios. Acompanhamos o desenrolar de alguns casos criminais como histórias isoladas (ao lado de arcos de personagem), enquanto a história principal se mantém intacta, sem ficar de segundo plano. O que conserva o interesse do público é claramente o próprio roteiro, mas o que chama a atenção de seus olhos é o apelo visual da série. O design de produção traz cenários, objetos e figurinos fiéis à década de 70, todos dentro de uma paleta de cor fria, que abusa do branco, cinza, preto e bege, e também percorre tons azulados e esverdeados.

Além de toda essa arte vistosa, o maior destaque sem dúvidas vai para a fotografia e para a direção. O diretor de fotografia Erik Messerschimdt se mostra um dos mais confiáveis profissionais na área, fazendo jus ao viés artístico da imagem, provendo movimentos de câmera suaves, secos e pontuais, além de ótimos enquadramentos. A iluminação também faz sua parte ao mesclar luzes duras e difusas perfeitamente, fazendo um bom uso de sombras que denotam a profundidade da mente dos personagens. E a direção ganha mérito em cima disso, por organizar todo o roteiro numa decupagem de planos direta e envolvente.

Mindhunter é um espetáculo em todos os sentidos. As interpretações impecáveis e a fecunda trilha sonora fazem a festa do público. Expressões naturalistas dos atores junto à músicas diversificadas da época deixam tudo mais saboroso do que já é. Mais uma distribuição original da Netflix, desta vez produzida por Charlize Theron e David Fincher, que veio para abraçar os corações calorosos dos fãs do filmes do último, e confirmar que o homem (que dirige os dois primeiros e os dois últimos episódios) continua infalível, com uma das mais valiosas filmografias deste século.

Produções de investigação ou ação policial em seriado podem às vezes ser cansativas por possuírem estruturas narrativas repetitivas, e raramente aparece alguma coisa ou outra que difere do molde. Digamos que a nova série criada pelo roteirista Joe Penhall e produzida e dirigida por David Fincher não apenas revoluciona a elaboração do enredo de uma série investigativa, usando do suspense como um elemento importante na construção da história, como também alia excepcionalmente conhecimento e técnica. Passando-se em 1977, nos primeiros dias da psicologia e perfil criminais no Federal Bureau of Investigation, a série gira em torno dos agentes do FBI Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), que entrevistam assassinos em série presos com fins de entender como esses criminosos pensam, depois aplicando esse conhecimento para resolver os casos em curso. É baseado no livro best-seller do New York Times, Mindhunter, que relata os anos que John Douglas passou perseguindo serial killers e estupradores, desenvolvendo seus perfis para prever seus próximos passos. A série então discute alguns de seus casos mais conhecidos, como o homem que caçava prostitutas no Alaska, o assassino de crianças de Atlanta e o matador de Green River. Porém, elaborando mais do que apenas um ensaio sobre esses casos, a série conta com os melhores recursos audiovisuais disponíveis em sua realização, tornando-se uma definitiva obra-prima da televisão. A começar pela caracterização de seus personagens principais (Holden e Bill), vemos que ambos são multidimensionais, aprofundados psicologicamente. Conhecemos suas vidas, seus gostos, suas preocupações, o que gera uma simpatia (senão empatia) pelos investigadores, independente de suas ideologias. Logo mais, a personagem Wendy Carr (Anna Torv) também entra nessa lista. Os três são concebidos em cima de acertos e falhas, que além de destoar da infalibilidade tão presente em personagens do tipo, traz um ar bem realista à série. O enredo estimula o expectador com um tratamento diferenciado do tempo explorado nas cenas mais mundanas, que é no mínimo uma novidade bem interessante. Dá pra perceber que a direção, embora compartilhada por vários diretores entre os episódios, em nenhum momento procura conduzir suas cenas resumidamente ou de maneira acelerada (um recurso muito usado em filmes e séries para que o tempo do episódio seja reduzido). Esse tempo "estendido" das cenas é muito eficaz por dar destaque para os diálogos densos dos personagens (evidenciados pela captação de som seca, quase sem ambiência). Mas o mais curioso, é que por conta da competência da montagem, esses trechos, ainda que extensos, não se tornam entediantes, pois os cortes são implementados no momento perfeito, deixando tudo dinâmico e prazeroso aos olhos de quem assiste. "Intrigante" é uma palavra que define bem a maneira como o desenvolvimento das investigações e da pesquisa dos agentes se dá ao longo dos episódios. Acompanhamos o desenrolar de alguns casos criminais como histórias isoladas (ao lado de arcos de personagem), enquanto a história principal se mantém intacta, sem ficar de segundo plano. O que conserva o interesse do público é claramente o próprio roteiro, mas o…

Mindhunter (1ª Temporada)

Direção
Roteiro
Elenco
Arte
Fotografia
Montagem
Trilha Sonora

Excelente

90

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