Crítica: PéPequeno | Cinematecando

Posted On 24/09/2018 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: PéPequeno

Medo vs. Medo

Imagem do filme PéPequeno

O medo é o caminho mais curto para manipular uma sociedade. A tese antiga e que segue sendo comprovada na prática diariamente pelos discursos de diversos políticos e figuras públicas ao redor do mundo está no subtexto da animação PéPequeno, dirigida por Karey Kirkpatrick e Jason Reisig.

Num momento no qual os Estados Unidos estão às voltas com os discursos de intolerância de Donald Trump e a enxurrada de “fake news”, muitas delas endossadas pelo próprio presidente conforme lhe é conveniente, a dupla subverte a lenda tipicamente norte-americana do Pé-Grande e a transforma numa fábula sobre a importância de não temer aquilo que é diferente de nós apenas na aparência.

O cenário principal da história é uma comunidade no alto do Himalaia, onde vivem os iétis, estas criaturas que o folclore popular chama de “abominável homem das neves”. O jovem Migo está se preparando para herdar o trabalho do pai, como o tocador oficial do gongo que mantém o funcionamento do local, até que um encontro com um humano, ou “pé-pequenos”, como eles nos chamam, muda sua vida.

Isto porque, ao contrário do que acontece aqui na vida real, no filme os humanos é que são as lendas. A ameaça somos nós e, assim, nós é que somos os responsáveis por causar medo aos outros. E, como é do instinto de qualquer ser que se veja em perigo, a primeira reação é atacar. PéPequeno entende isto, mas acredita que este primeiro impulso seja passível de controlar, em nome de uma convivência pacífica entre diferentes.

Porém, esta mudança não vem fácil e depende de novas formas de pensar. Por isso, o roteiro coloca Migo e seus companheiros em confronto com o ancião de sua aldeia, um sujeito que prega à população supostas verdades incontestáveis escritas em pedra e que continuam a ditar o comportamento local. A crítica fica ainda mais forte quando este personagem “guardião da moral e dos bons costumes” revela a verdade por trás do seu discurso, formado por distorções da realidade em nome de literalmente manter funcionando a engrenagem daquele ambiente.

A mentira, que anda de mãos dadas com o medo, também é o mecanismo de defesa do humano Percy Patterson, um apresentador de programa de aventuras desesperado para reconquistar a audiência na internet e ser amado pelo público novamente. O medo da irrelevância o leva até mesmo a armar uma farsa, explicada em detalhes numa releitura do hit ‘Under Preassure’, de Queen e David Bowie, num dos momentos musicais do longa.

Em suma, PéPequeno tem diversas mensagens importantes, ainda que seus personagens não sejam particularmente memoráveis ou carismáticos. É uma animação que não vai fazer os adultos comprarem itens de merchandising temáticos para seus filhos, mas pode servir de início para uma boa conversa.

Medo vs. Medo O medo é o caminho mais curto para manipular uma sociedade. A tese antiga e que segue sendo comprovada na prática diariamente pelos discursos de diversos políticos e figuras públicas ao redor do mundo está no subtexto da animação PéPequeno, dirigida por Karey Kirkpatrick e Jason Reisig. Num momento no qual os Estados Unidos estão às voltas com os discursos de intolerância de Donald Trump e a enxurrada de “fake news”, muitas delas endossadas pelo próprio presidente conforme lhe é conveniente, a dupla subverte a lenda tipicamente norte-americana do Pé-Grande e a transforma numa fábula sobre a importância de não temer aquilo que é diferente de nós apenas na aparência. O cenário principal da história é uma comunidade no alto do Himalaia, onde vivem os iétis, estas criaturas que o folclore popular chama de “abominável homem das neves”. O jovem Migo está se preparando para herdar o trabalho do pai, como o tocador oficial do gongo que mantém o funcionamento do local, até que um encontro com um humano, ou “pé-pequenos”, como eles nos chamam, muda sua vida. Isto porque, ao contrário do que acontece aqui na vida real, no filme os humanos é que são as lendas. A ameaça somos nós e, assim, nós é que somos os responsáveis por causar medo aos outros. E, como é do instinto de qualquer ser que se veja em perigo, a primeira reação é atacar. PéPequeno entende isto, mas acredita que este primeiro impulso seja passível de controlar, em nome de uma convivência pacífica entre diferentes. Porém, esta mudança não vem fácil e depende de novas formas de pensar. Por isso, o roteiro coloca Migo e seus companheiros em confronto com o ancião de sua aldeia, um sujeito que prega à população supostas verdades incontestáveis escritas em pedra e que continuam a ditar o comportamento local. A crítica fica ainda mais forte quando este personagem “guardião da moral e dos bons costumes” revela a verdade por trás do seu discurso, formado por distorções da realidade em nome de literalmente manter funcionando a engrenagem daquele ambiente. A mentira, que anda de mãos dadas com o medo, também é o mecanismo de defesa do humano Percy Patterson, um apresentador de programa de aventuras desesperado para reconquistar a audiência na internet e ser amado pelo público novamente. O medo da irrelevância o leva até mesmo a armar uma farsa, explicada em detalhes numa releitura do hit ‘Under Preassure’, de Queen e David Bowie, num dos momentos musicais do longa. Em suma, PéPequeno tem diversas mensagens importantes, ainda que seus personagens não sejam particularmente memoráveis ou carismáticos. É uma animação que não vai fazer os adultos comprarem itens de merchandising temáticos para seus filhos, mas pode servir de início para uma boa conversa.

PéPequeno

Cotação

Bom

Uma boa maneira de falar sobre respeito às diferenças e como medo e mentiras andam juntos, lições válidas para adultos e crianças

71

Crítico de cinema, roteirista e diretor. Pós-graduado em Jornalismo Cultural. Além do Cinematecando, é colunista do Yahoo! Brasil