Crítica: Eu Me Importo | Cinematecando

Posted On 20/02/2021 By In Críticas - Lançamentos, Filmes

Crítica: Eu Me Importo

“Não existe gente boa”. Desde a cena de abertura, Eu Me Importo parte deste preceito. Cuidadores, médicos, juízes e advogados estão todos posicionados em uma teia de aranha, colaborando em grandes golpes que manipulam e destituem as pequenas pessoas de seus patrimônios e até mesmo liberdade. Marla Grayson (Rosamund Pike) está no topo desta cadeia, e Jennifer (Dianne Wiest), na base.

Marla, no caso, é uma cuidadora que se aproveita de clientes senis com gordas fortunas, e quando não há clientes, manipula o sistema para que certos idosos sejam considerados incapazes de viver sozinhos, sendo assim levados ao centro de repouso mais próximo. É o que ocorre com a personagem de Wiest, que diferentemente dos outros curatelados de Marla, possui grandes e perigosos segredos.

Resta um grande problema para o diretor e roteirista J Blakeson: como sustentar interesse em uma narrativa onde não existem mocinhos, apenas leões e leoas que se aproveitam das presas? Blakeson investe em uma estética ágil, estilosa, repleta de montagens, ao redor de seu elenco de malfeitores, e a princípio parece enveredar pelo caminho do humor negro – o resultado é no máximo um drama com notas de rodapé cômicas.

Na verdade, pode-se dizer que não existe gente sequer na linha de frente do longa, já que a plausibilidade gradativamente desaparece conforme Marla encara ameaças cada vez mais sérias a seu plano de golpe. Assim, o filme se distancia do realismo e passa a adotar o registro do hiper-realismo, além de promover uma grande farsa na qual as diferentes peças estão sujeitas a destinos horríveis.

Com isso, no entanto, Eu Me Importo também se distancia de seus aspectos mais interessantes, como a relação parasítica entre Marla e Jennifer, e passa a se portar mais como um filme de ação sem mocinhos. Portanto, parte do discurso do longa se enfraquece quando Marla encara a ameaça de mafiosos. Além de momentos implausíveis, o tom de crítica se esvai, pelo menos até o final.

Final este que se mostra completamente apressado na sua tentativa de crítica sistêmica e que tem problemas em encontrar uma mensagem específica. Seria o sistema armado, já que não vemos nenhum sinal de justiça sendo feita de dentro? Seriam os espectadores e seus entes futuros alvos deste sistema? É uma conclusão um tanto frouxa, para além das similaridades com outro longa, Layer Cake (Nem Tudo é o Que Parece).

No mais, Rosamund Pike domina o tipo de registro gélido que sua protagonista demanda. A atriz, indicada ao Globo de Ouro pelo papel, quase nunca deixa de exibir um sorriso irônico em cena, e sua interação com o restante do elenco é deliciosa, principalmente com Wiest e Peter Dinklage, igualmente corretíssimos em seus papéis. Pike e cia. são a razão de Eu Me Importo existir no radar de certos espectadores, e são também a razão do longa merecer sua conferida.

Disponível na Netflix.

"Não existe gente boa". Desde a cena de abertura, Eu Me Importo parte deste preceito. Cuidadores, médicos, juízes e advogados estão todos posicionados em uma teia de aranha, colaborando em grandes golpes que manipulam e destituem as pequenas pessoas de seus patrimônios e até mesmo liberdade. Marla Grayson (Rosamund Pike) está no topo desta cadeia, e Jennifer (Dianne Wiest), na base. Marla, no caso, é uma cuidadora que se aproveita de clientes senis com gordas fortunas, e quando não há clientes, manipula o sistema para que certos idosos sejam considerados incapazes de viver sozinhos, sendo assim levados ao centro de repouso mais próximo. É o que ocorre com a personagem de Wiest, que diferentemente dos outros curatelados de Marla, possui grandes e perigosos segredos. Resta um grande problema para o diretor e roteirista J Blakeson: como sustentar interesse em uma narrativa onde não existem mocinhos, apenas leões e leoas que se aproveitam das presas? Blakeson investe em uma estética ágil, estilosa, repleta de montagens, ao redor de seu elenco de malfeitores, e a princípio parece enveredar pelo caminho do humor negro - o resultado é no máximo um drama com notas de rodapé cômicas. Na verdade, pode-se dizer que não existe gente sequer na linha de frente do longa, já que a plausibilidade gradativamente desaparece conforme Marla encara ameaças cada vez mais sérias a seu plano de golpe. Assim, o filme se distancia do realismo e passa a adotar o registro do hiper-realismo, além de promover uma grande farsa na qual as diferentes peças estão sujeitas a destinos horríveis. Com isso, no entanto, Eu Me Importo também se distancia de seus aspectos mais interessantes, como a relação parasítica entre Marla e Jennifer, e passa a se portar mais como um filme de ação sem mocinhos. Portanto, parte do discurso do longa se enfraquece quando Marla encara a ameaça de mafiosos. Além de momentos implausíveis, o tom de crítica se esvai, pelo menos até o final. Final este que se mostra completamente apressado na sua tentativa de crítica sistêmica e que tem problemas em encontrar uma mensagem específica. Seria o sistema armado, já que não vemos nenhum sinal de justiça sendo feita de dentro? Seriam os espectadores e seus entes futuros alvos deste sistema? É uma conclusão um tanto frouxa, para além das similaridades com outro longa, Layer Cake (Nem Tudo é o Que Parece). No mais, Rosamund Pike domina o tipo de registro gélido que sua protagonista demanda. A atriz, indicada ao Globo de Ouro pelo papel, quase nunca deixa de exibir um sorriso irônico em cena, e sua interação com o restante do elenco é deliciosa, principalmente com Wiest e Peter Dinklage, igualmente corretíssimos em seus papéis. Pike e cia. são a razão de Eu Me Importo existir no radar de certos espectadores, e são também a razão do longa merecer sua conferida. Disponível na Netflix.

Eu Me Importo

Cotação

Bom

Eu Me Importo traz uma deliciosa atuação de Rosamund Pike, mas acaba se perdendo em sua tentativa ácida de crítica ao sistema judiciário.

60

Formado em Rádio, TV e Internet pela Faculdade Cásper Líbero (FCL). É redator no Cinematecando desde 2016.