Posted On maio 8, 2017 By In Artigos, Filmes

Filmes de terror brasileiros

Filmes de terror. Algo que os brasileiros em geral adoram, e mesmo sendo um gênero super abrangente, para cada subgênero existe uma grande legião de fãs. Os filmes slasher são até hoje amados pelo público (embora destruídos pela crítica), pois quem não se lembra de Freddy Krueger, Jason Voorhees e Michael Myers? O trio que representou os assassinatos mais famosos e sangrentos do cinema. Várias criaturas dominaram nossas televisões desde sempre, somando diversas produções com monstros, alienígenas, zumbis e os tão temidos espíritos e demônios. O terror psicológico não fica de fora – sempre há vários expectadores que aguardam um bom filme cheio de tensão e suspense.

E você já parou pra pensar que mais ou menos 90% dessas produções que conhecemos são todas estadunidenses? Ou pelo menos produzidas em território americano. Há quem contemple filmes de terror europeus, australianos e até asiáticos, mas quantas vezes você viu alguém falar sobre o terror brasileiro no cinema? Poucas ou nenhuma, não é? Tudo bem, isso é comum. Nosso país enfrenta um enorme conflito com a distribuição e a exibição de projetos audiovisuais (não apenas do gênero terror), porém isso não significa que esse tipo de filme não seja produzido no Brasil, muito pelo contrário, há obras de muitos estilos de terror que podem te entreter como você nunca imaginou.

O objetivo deste artigo é aproveitar a fama da super produção brasileira O Rastro (2017) e indicar alguns bons filmes nacionais de terror que claramente poucos conhecem, e talvez estabelecer uma adoração pela arte brasileira, que merece ser mais valorizada.

Deixe-me adivinhar. Provavelmente não conhece esse personagem da imagem, acertei? Fique tranquilo(a), pois a maioria de nós não conhecemos, ou no máximo ouvimos falar sobre. O homem em questão é ninguém menos que Zé do Caixão, um dos personagens mais icônicos de nossa história, criado por José Mojica Marins, um cineasta, roteirista e ator brasileiro que praticamente deu início às produções brasileiras de terror em uma época que o terror começava a ganhar corpo até no exterior (Europa e Estados Unidos). Isso se trata do início dos anos 60, quando o personagem apareceu em um filme pela primeira vez, o chamado À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1963), sendo a sinopse construída em torno do próprio cruel e sádico coveiro Zé do Caixão, que temido e odiado pelos moradores de uma cidadezinha do interior, está obcecado em conseguir gerar o filho perfeito, aquele que possa dar continuidade ao seu sangue. A sua mulher não consegue engravidar e ele acredita que a namorada do seu melhor amigo é a mulher ideal que procura. Violada por Zé do Caixão, a moça quer cometer suicídio para regressar do mundo dos mortos e levar a alma daquele que a violou.

Mojica ainda viria a dirigir inúmeros filmes com seu popular personagem, entre eles outro clássico nacional como Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), que marca a continuação da saga de Zé do Caixão, fazendo do personagem super conhecido pelos brasileiros na época. Além do terror, Mojica ainda produziu múltiplos filmes de outros gêneros como westerns e dramas que agradaram, mas nunca alcançaram a fama dos seus filmes de terror e de seu protagonista imortal. Curioso, não? O terror que aparenta ser um dos gêneros menos valorizados pela crítica até hoje, foi o gênero mais rentável e popular de Mojica.

Um dos principais cineastas brasileiros que se inspiraram nas obras de Mojica foi Ivan Cardoso, diretor e fotógrafo que ficou conhecido como o mestre do “terrir”, uma espécie de subgênero que mescla humor e terror, e que foi muito afamado nos anos 80 e 90. Sua carreira despontou com um filme chamado O Segredo da Múmia (1982), que conta a história de um cientista que, ridicularizado por seus colegas, tenta provar que sua maior descoberta, o “elixir da vida”, realmente funciona. Para isso, ele decide ressuscitar uma recém descoberta múmia egípcia. O filme ainda conta com os jovens Regina Casé (com apenas 28 anos) e Evandro Mesquita (com 30 anos) no elenco.

Com esse filme, Ivan firmou uma carreira de sucesso e chegaria a dirigir outras produções do mesmo estilo como As Sete Vampiras (1986) e o super comentado Um Lobisomem na Amazônia (2005). Sua filmografia é repleta de curta-metragens, que mesmo não sendo tão conhecidos pelo público, são obras queridas do diretor. Mas não é somente Mojica e Ivan que são conhecidos pelo terror brasileiro – há também um homem que vem se destacando no cenário nacional por seus filmes assustadores, todos do século XXI, que exploram desde uma maquiagem trabalhosa até efeitos especiais persuasivos. O nome dele é Rodrigo Aragão.

Não confunda com nosso querido Didi, pois as produções de Rodrigo são completamente diferentes, buscando o medo e a tensão de seus expectadores. Como seu pai era um mágico e dono de um pequeno cinema, Rodrigo logo começou a mexer com efeitos especiais, colaborando com alguns curtas e peças teatrais. Sua carreira de cineasta começou mesmo aos seus 31 anos com o lançamento do filme Mangue Negro (2008), uma história de zumbis canibais em uma comunidade pobre de um manguezal brasileiro recheada de massacres. O filme, que foi também roteirizado por Rodrigo, conta com 105 minutos de duração e custou em torno de 50 mil reais para ser feito, um orçamento baixíssimo que aparenta ter sido maior visto a qualidade dos efeitos visuais.

A filmografia de Rodrigo Aragão, até então, soma mais 3 filmes bem medonhos e amedrontadores. Seu filme seguinte foi A Noite do Chupacabras (2011), sobre a criatura que se alimenta dos animais e das famílias rivais, os Silvas e os Carvalhos. Não muito tempo depois foi a vez de Mar Negro (2013), marcando a volta dos queridos zumbis, dessa vez após uma estranha contaminação em uma pequena vila de pescadores. Por fim, seu filme mais recente é As Fábulas Negras (2014), que conta com Mojica entre um dos diretores de pequenas histórias macabras sobre lendas brasileiras.

Saindo um pouco das filmografias por diretor, entremos nas maiores produções do terror nacional dos últimos anos, mas que não chegaram nem próximo da fama das lucrativas comédias românticas brasileiras. Assim como nosso vasto cinema está evoluindo a cada ano, os cinco filmes que citarei a seguir representam o que de melhor possuímos relacionado ao gênero de terror e suas variações, com elementos técnicos aprimorados e histórias convidativas, prontos para causar desconforto, angústia, tensão, medo e inúmeros sustos que você não se esquecerá tão fácil.

Lembrando que nenhum filme agrada todo mundo, possuímos gostos pessoais particulares, portanto diferentes. É importante ver que muitas produções passam despercebidas pelo público geral, e talvez estejam apenas aguardando para serem descobertas e cair no gosto das pessoas. Sejamos pacientes e respeitosos, pois essa mini-lista possui nomes suficientes para te causar impacto com ao menos alguma obra.

Desaparecidos (2011)

O primeiro da lista é um característico found footage (filmagem encontrada) brasileiro, que se apropria do estilo de clássicos do estilo como A Bruxa de Blair (1999). O história parte de seis amigos que foram convidados para um festa VIP em Ilhabela, no litoral de São Paulo, Brasil. Para entrar, bastava cada um levar uma câmera e filmar tudo desde o início da viagem. O que eles não sabiam era que essa balada seria a última de suas vidas. Pelo menos, é o que indicam as imagens das filmadoras, abandonadas no meio da mata e encontradas pela polícia, que até agora não sabe exatamente o que aconteceu.

O filme foi um fracasso de crítica, mas ainda assim é necessário reconhecer que é possivelmente o único filme de terror feito com a clássica “câmera na mão”, que embora não agrade qualquer público, existem muitos expectadores que amam a sensação de realismo que esse estilo trás consigo, e o que ajuda nisso é a atuação (que busca não ser uma atuação) dos atores. É no mínimo empolgante assistir uma produção found footage de terror brasileira, provando mais uma vez que nosso país é sim capaz de reproduzir o medo causado pelos filmes americanos.

Trabalhar Cansa (2011)

Contrapondo o primeiro da lista, esse representa maior sucesso de crítica entre os filmes aqui citados. Crítico e profundo, consegue fazer do suspense um aliado e do terror seu recheio. Helena (Helena Albergaria) é uma dona de casa que resolve abrir um minimercado. Tudo vai bem até Otávio (Marat Descartes), seu marido, perder o emprego. A partir de então estranhos acontecimentos tomam conta do local, afetando o relacionamento do casal com a empregada doméstica.

Dirigido e roteirizado pela dupla Marco Dutra, de Silêncio do Céu (2016) e Juliana Rojas, de Sinfonia da Necrópole (2014), esse terror dramático foi para o Festival de Cannes, e mostra uma habilidade incrível em conduzir seu clima misterioso entre os personagens e os locais por onde passam. Altamente comparado com a atmosfera de O Iluminado (1980), supera as expectativas do expectador, que inconscientemente subestima a obra simplesmente por ser brasileira, e logo após se sente tomado pela vergonha, que por fim acaba se tornando uma boa ferramenta para provar ao público a eficiência temática da obra.

Isolados (2014)

Atores famosos e competentes é o que não falta neste filme. A direção do conhecido Tomás Portella garante uma atmosfera aterrorizante, com ambientes pouco iluminados (na maioria das vezes por velas). A sinopse se elabora em cima do casal Lauro (Bruno Gagliasso) e Renata (Regiane Alves), que decide alugar uma casa na região serrana do Rio de Janeiro para descansar e reanimar a relação. O casarão é meio sombrio e Lauro escuta histórias sobre atos violentos na região, mas resolve não contar nada para a mulher.

O roteiro pode parecer caótico, principalmente durante o terceiro ato do filme, mas não deixa de assegurar a curiosidade do público em cada segundo de cada cena. A direção de arte é interessante e essencial para o ambiente escuro do longa, e é impossível não se deixar levar pelos diálogos, que são além de tudo, bastante sedutores. Este é na verdade um suspense de praxe, mas que beira a transição para o terror uma vez que utiliza de muitos sustos e efeitos sonoros para intensificar a tensão do expectador.

O Caseiro (2016)

Meu terror nacional favorito, que conta com uma apuração artística elogiável, com uma fotografia e arte impecável. A história é baseada em Davi (Bruno Garcia), um cético professor de psicologia famoso por escrever um livro que explica aparições sobrenaturais através da psicanálise. Após anos sem atender pacientes, ele viaja para o interior buscando investigar o caso de um homem que acredita que sua filha vem sendo assombrada pelo fantasma do antigo caseiro de sua propriedade, que se suicidou.

Junto com o último da lista, esse é o filme mais fiel ao gênero, abordando uma temática espiritual bem tensa e peculiar, tudo isso auxiliado pela direção fantástica de Julio Santi, que opta por movimentos de câmera espontâneos, seguindo seus personagens e explorando os cenários (destaque para a cena inicial). Há também um contexto bem nacional e interiorano, onde trabalha-se com a figura de um caseiro de um sítio como o centro do terror. Uma história que precisa ser conhecida por todos brasileiros o quanto antes, cheia de reviravoltas sinistras.

O Rastro (2017)

Finalmente o mais recente da lista, dirigido por J.C. Feyer, e que assim como Isolados (2014) possui grandes nomes do cinema brasileiro em seu elenco. Ambientado em um hospital público, o filme começa sua história apresentando João (Rafael Cardoso), um médico que se encarrega de transferir os pacientes do hospital para outro lugar, já que o mesmo irá fechar. Mas ao mesmo tempo em que uma paciente é internada nos últimos dias, ela também some rapidamente sem ser transferida, o que deixa João interessado em descobrir o que aconteceu. Leila (Leandra Leal), esposa de João, também assume um papel importante na trama.

A obra possui uma bela fotografia, mórbida e imersiva, e trata de usar de jump scares imprevisíveis para satisfazer a expectativa do público em tomar sustos. O medo também é bem conduzido com efeitos sonoros desagradáveis que chegam a perturbar até o mais sério expectador. A história pode não ser tão impressionante, mas a maneira como é contada vale a experiência de conferir o filme. O Rastro estreia nos cinemas brasileiros dia 18 de maio!

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Redator do Cinematecando | Estudante de Cinema, 18 anos. Aspirante a roteirista, desde criança acompanhava seus pais até uma das locadoras de sua cidade para alugar os mais variados filmes; aí nasceu sua paixão pela Sétima Arte. Considera-se fanático por Cinema Clássico, Jazz e Jogos Eletrônicos, de preferência com uma boa história.